Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Um Encontro para Celebrar as Livrarias da América Latina - Colóquio Virtual, Aberto para Todos

 O Instituto Caro y Cuervo de Bogotá (Colômbia) reúne, a partir de quarta-feira, 21 de abril, pesquisadores para celebrar, resgatar e propor novas perspectivas para os estudos das livrarias. 

Se, no íncio do século XXI, houve um aumento substancioso de pesquisadores dedicados a refletir sobre o livro e as práticas e representações de leitura, as histórias sobre as bibliotecas e as livrarias eram mais raras. Passados vinte anos, as histórias das bibliotecas e das livrarias vêm sendo frequentemente revisitadas, tanto na Europa, quanto nas Américas - mas também em vários países do Oriente, cujas livrarias e bibliotecas têm despertado a atenção de todo o mundo. Tal fato, talvez, se explique pelas próprias mutações que as tecnologias de informação e comunicação provocaram, não apenas nos suportes de leitura, mas também nos espaços de leitura e dos livros. 

Mas há um outro aspecto que amplifica a importância desse encontro.

A terceira revolução do livro vem de par com transformações profundas nos sistemas de comunicações e transportes. Hoje em dia a palavra logística se apresenta como um verdadeiro "Abra-te Sésamo", tanto para os editores, quanto para os livreiros e, também, para os leitores. Diante do avanço do e-commerce cabe perguntar: qual o lugar das livrarias? Mais do que isso, assumindo que sua importância, como ensina a  história, supera a função comercial, como salvar as livrarias nesse novo cenário econômico?

Para além das múltiplas questões que o Colóquio pretende trazer à luz, a celebração e a reunião de pesquisadores latino-americanos se apresentam, hoje, como um grande incentivo para a retomada de velhos diálogos e a abertura para novos encontros.

Espero encontrá-los em Bogotá (virtualmente) semana que vem!

Para acessar o programa completo e se inscrever nas sessções, acesse o link: https://www.caroycuervo.gov.co/Noticias/coloquio-internacional-el-comercio-de-libreria-en-america-latina/.

E clique sobre a palavra: Inscripciones.

Atenção para o fuso hórario! (+ 2h hora de Brasília)

* O Colóquio se incia quarta-feira, às 8h15 (10h15 - hora de Brasília)





 


terça-feira, 13 de abril de 2021

Aula Inaugural com Plinio Martins Filho 15/04/2021

Plinio Martins Filho, 50 anos entre livros

Em fevereiro de 2021, Plinio Martins Filho celebrou 50 anos de profissão como editor. Meio século entre livros. Meio século de expertise e dedicação em editoras que desempenharam importantes papeis na produção do conhecimento e da cultura no Brasil: Perspectiva; Edusp e Ateliê Editorial.
Em homenagem ao nosso mestre e colega, o curso de Editoração tem a honra de iniciar seu ano letivo com a Aula Inaugural do "Editor Perfeito". O epítome nasceu de uma homenagem do grande escritor e crítico literário Prof. Alfredo Bosi (1936-2021).

Em 2016, quando Plinio Martins Filho finalizava seu Manual de Editoração e Estilo, obra clássica que lhe valeu o prêmio Jabuti (1o Lugar - Comunicação), tive a honra  de redigir o prefácio ao livro. 

Reproduzo abaixo o texto que abre o volume do Manual à guisa de homenagem.


* * *


Plinio Martins Filho, o Editor Perfeito 

 

Um livro perfeitamente acabado contém uma boa doutrina, apresentada adequadamente pelo impressor e pelo revisor. É isso o que considero a alma do livro. Uma bela impressão sobre a prensa, limpa e cuidada, é o que faz com que eu possa compará-lo a um corpo gracioso e elegante. 

 

Alonso Victor de Paredes, Institución y Origen del Arte de la Imprenta, c. 1680

 

    A prática da edição é tão antiga quanto os primeiros volumes, ou livros em rolo. Timão (320 a.C.-230 a. C.), o filósofo cético, referia-se à Biblioteca de Alexandria como a “gaiola das musas”, onde uns “garatujadores” se punham a ler, copiar e comentar textos antigos. Conta o poeta de Fliunte que Zenódoto de Éfeso (333 a.C.-260 a.C.), o primeiro bibliotecário daquela instituição monumental, fundada na “populosa terra do Egito”, procedia a interpretações e intervenções de qualidade duvidosa ao copiar os textos da Ilíada e da Odisseia, o que colocava suas edições sob suspeita.
    Nos tempos de Cícero (106 a.C.-43 a.C.) o ato de editar um texto adquire sentido mais amplo. São conhecidas as cartas que o grande orador, escritor e bibliófilo romano endereçou a Ático (109 a. C.- 32 a. C), o amigo abastado, de uma cultura helenista refinada, que não poupava recursos materiais e escravos – gregos, em sua maioria – para a edição e publicação de bons escritos. Ou seja, a arte da edição não se restringia mais ao estabelecimento de cópias dos registros antigos para a sua preservação nas bibliotecas. Tratava-se, agora, de tornar público um texto. Tal perspectiva explica o conteúdo semântico original do latim editoreditoris, ou seja, o que gera, o que produz, ou aquele que causa; e, por extensão, o autor, consoante o verbo edere, de parir, publicar, expor, produzir, segundo explicação de Emanuel Araújo. Há, na verdade, duas ações em jogo: enquanto edereequivale a lançar um produto literário sem procurar difundi-lo amplamente, publicare descreve o processo pelo qual o texto se torna público, ou seja, quando ele escapa ao poder do autor. Nos dois casos a função editorial é imprescindível, tanto no aspecto da crítica ao texto, tanto no que toca à cópia e à reprodução do original.
    A revolução de Gutenberg intensificou ainda mais a oposição entre a escrita (= original) e o texto (= impresso), na medida em que a possibilidade de reprodução mecânica do livro exigiu novos níveis de profissionalização e de padronização. A publicação de textos eruditos se torna, então, uma atividade colegiada, com ampla participação de especialistas em diferentes fases de construção do livro, desde a seleção do manuscrito, donde a importância da filologia no alvorecer da Época Moderna, passando por decisões de ordem estética, ou seja, a escolha de tipos, a definição da quadratura da página e do formato do volume, até as intervenções de natureza editorial, ou seja, a inserção de paratextos, a hierarquização das informações e, claro, a revisão do exemplar impresso. Como escreve Alonso Victor de Paredes em sua preciosa Institución y Origen del Arte de la Imprenta
, esse ancestral raro do Manual de Estilo e Editoração que Plinio Martins Filho prepara para editores, revisores e leitores brasileiros. 


A Perfeição está no Equilíbrio entre a Beleza e o Conteúdo

    Nesse sentido, parece correto afirmar que os editores são os verdadeiros guardiões de uma longa linhagem de leitores benfazejos que zelam pela preservação e publicação dos textos. Pode-se mesmo dizer que o editor sobreviveu a todas as revoluções que incidiram sobre a cultura escrita: a passagem do roloao códice, no primeiro século da era cristã; a invenção da imprensa, em meados do século XV; e a emergência do texto digital, a qual permite, nos dias atuais, a leitura em diferentes suportes ou plataformas. 
    É claro que essa revolução afetou ou multiplicou as modalidades de leituras. Há o leitor concentrado, o leitor interativo, o leitor crítico, o leitor intensivo, o leitor solidário, o leitor malcomportado... e, coisa do novo milênio, há também o leitor eletrônico. O e-readerdos anglo-saxões ou a liseuse, batizada, assim, à moda francesa, com o gênero feminino bem demarcado. Mas existe um tipo de leitor que fica escondido atrás do livro e que vê tudo o que os outros leitores não podem ver. É um leitor exigente, do tipo tinhoso, que não dorme no ponto, não salta as linhas – quiçá, as páginas! – e que deixa a casa sempre em ordem para o desfrute dos outros leitores. Esse leitor benfazejo é o editor.
    Pois se houve ou ainda há alguma dúvida quanto à sobrevivência do códice diante de uma revolução midiática em curso, não parece ter ocorrido a ninguém questionar o papel central que desempenha o editor no processo de construção do texto. No limite, é possível pensar que as novas tecnologias concorram para uma maior articulação entre as funções do autor e do editor, o que tornaria os escritores, como já ocorreu noutras épocas, editores de seus próprios escritos. Isso porque entre a escrita e o texto há muitos (des)caminhosa percorrer.
    Escritores tecem como aranhas as palavras, enquanto os editores redesenham, fio a fio, o tecido de símbolos a que chamamos texto. É trabalho de artesão, dos mais refinados. Plinio Martins Filho é desses editores que dominam o ofício, a arte da construção do livro, com suas regras não raro estritas de equilíbrio entre a forma e o conteúdo. Para tanto, ele sabe que é preciso conhecer intimamente o objeto, seus aspectos formais e as hierarquias que ordenam os conteúdos, os quais, ao final de tudo, vão compor o livro. Noutros termos, a passagem do original em texto impresso. Mas nada disso teria sentido se não o houvesse o cuidado com a forma. Investe-se, então, nas tramas menores: nos detalhes tipográficos, na conformação das letras e no uso dos sinais diacríticos. Nada escapa ao editor. Tecer é normalizar, domar a escrita, forçar uma coerência entre as partes e o todo, e estabelecer o diálogo entre a ideia e o símbolo. Como sói dizer: editar é ordenar o caos.


Escrever na Areia

    A imagem do editor perfeito nasceu da convivência estreita de Plinio Martins Filho com seus autores. Na verdade, quem a cunhou não foi seu autor direto, mas desses autores que orbitam no círculo universitário. Alfredo Bosi o escreveu, a título de dedicatória em um livro seu, publicado pela Editora 34. A escrita criou a imagem e foi condensando no imaginário das gentes essa figura rara, dedicada ao livro. E se o que é perfeito vem das mãos de Deus, como ele também gosta de dizer, pode-se mesmo assumir que há algo de sagrado no ofício do editor. Nesse trabalho aturado e rotineiro que, no final de tudo, torna-se invisível aos olhos de autores e leitores.     
    Mas Plinio não se queixa. Seu ofício é sagrado, valeu-lhe uma vida, toda uma história de superação. Nascido em Pium, nos campos do Goiás, hoje pertencente a Tocantins, a relação de nosso editor com a escrita demorou a se revelar. Apareceu, antes, em sonhos e sob a forma luminosa do ato de escrever na areia, praticado pelo pai. Naqueles tempos distantes, em terras longínquas a escrita era uma revelação fugidia. Ela apenas se materializa na escola. Nessas mesmas escolas que ainda hoje são perseguidas por crianças persistentes, que enfrentam longos caminhos, não raro a fome, as injustiças, mas nunca a desesperança. Até que o filho do Brasil profundo encontra na grande cidade, São Paulo, a figura de um editor notável, a um só tempo acolhedor e rigoroso.
    A relação de Plinio Martins Filho se inicia, de fato, na Editora Perspectiva, há mais de quarenta anos. Ali nosso editor foi subindo os degraus de um velho edifício. Da seção de estoque, passou para a mesa de revisão e preparação. Aprendeu tudo em silêncio, com calma, como sói fazer. Virou páginas, torceu letras e, quando deu por si, fazia o livro inteiro. Dominava o métier. A Edusp acolheu o homem pronto, pobre que era na arte de fazer livros. Também, ali, na lentidão e no silêncio dos dias, uma velha editora ganhava novas roupagens. Ela se modernizava com a universidade. Foram vinte e cinco anos de dedicação reconhecida e agradecida pela maioria dos seus pares.   
    Por tudo isso o editor é aquele leitor benfazejo, que teima em ver na filigrana o que ninguém se dá por conta. Plinio Martins Filho não é o tipo de escritor prolixo. Portanto, não teime e buscar seu nome nas fileiras dos autores brasileiros. Mas seu nome figura nas fileiras dos grandes editores brasileiros do passado. Pois no presente ele é único. No entanto, Plinio se prepara para ser o autor de um grande livro, inédito no Brasil. Trata-se de seu Manual de Editoração e Estilo, volume que já nasce clássico, no qual o editor revela seus segredos, tudo o que aprendeu e executou, silencioso, no fio do tempo. Sem dúvida, passagem obrigatória para todos os tipos de leitores que encontram no livro a melhor morada para se viver. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Ao mestre Alfredo Bosi, com carinho

"Visitei, o coração batendo forte, a casa de Clos Lucé em Amboise. Tudo está conservado com zelo comovente: o dormitório amplo, a capela onde rezava Ana de Bretanha, a cozinha com lareira e a passagem subterrânea que dava para o castelo. Nos aposentos inferiores a IBM montou maquetes que concretizavam os inventos desenhados por Leonardo. Lá eu vi planando a máquina volante, expressão do desejo humano de vencer a gravidade. Em cada sala tabuletas penduradas no alto das paredes traziam dizeres de Leonardo. Quando cheguei ao topo da escada, uma frase me deteve, e eu gostaria de transmiti-la como fecho destas reflexões; 
dizia:

Nenhum ser vai para o nada".

Com essa passagem registramos nossa homenagem ao grande intelectual brasileiro que nos deixou em 7 de abril de 2021.


excerto extraído de:
Alfredo Bosi, Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci. São Paulo, Edusp, 2017, 88 p. 
A fotografia foi publicada no jornal Folha de S. Paulo, 26/03/2013.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Chamada de Artigos para o Dossiê Transferências Culturais da Revista Jangada

N. 17 – Dossiê: Transferências Culturais

Prazo para a submissão de artigos: 25 de Maio de 2021
Data prevista de publicação: Julho de 2021

O dossiê visa aprofundar a reflexão sobre as transferências culturais, seja no que diz respeito à teoria literária, seja aos encontros literários. Assim, ele busca abrir novas perspectivas dentro da historiografia cultural. Durante décadas, os estudos e pesquisas sobre a circulação cultural têm sido um campo particularmente rico de intercâmbios, tanto entre países europeus como entre vários continentes. No caso do Brasil, por exemplo, essas transferências têm contribuído inclusive para a construção de uma identidade nacional.
Oferecemos diferentes abordagens sobre a questão dos mediadores culturais, sejam eles homens de letras, jornalistas, livreiros, editores, tradutores, intelectuais, viajantes, diplomatas, comerciantes, etc. Destacamos atividades que evidenciam o papel presumido desses agentes em instituições, associações ou mesmo projetos específicos com o objetivo de reduzir fronteiras e ampliar as relações culturais.

Os artigos podem se enquadrar em um ou mais temas abaixo:

- as modalidades de recepção no exterior de uma corrente literária, de um autor, de uma obra em particular, do período moderno ao contemporâneo: história religiosa e história do livro, psicanálise, teatro, literatura, a fim de contribuir para os estudos transferenciais de modo a colocá-los em uma perspectiva ampla.
- a imprensa: sua história e sua circulação nos diferentes espaços; o papel das revistas, jornais, imprensa popular (folhetim) na divulgação da literatura e da cultura.
- os percursos dos mediadores culturais, as suas redes sociais em matéria de intercâmbios culturais.
- o papel desempenhado pelas associações e instituições e suas estratégias culturais e diplomáticas na promoção e intercâmbio de uma determinada cultura e literatura.
- a relevância e a extensão do uso das transferências culturais como uma ferramenta teórica em diferentes campos do conhecimento, e a oportunidade de considerar os objetos intelectuais em uma abordagem dinâmica, internacional e intercultural.

Para concluir, aguardamos contribuições que abordem uma ou mais destas questões metodológicas e/ou teóricas, cujas principais questões devem estar associadas - mas não limitadas - em torno de temas como linearidade, fronteiras, conceitos relacionados/ concorrentes e impacto/sucesso.

Os artigos podem ser escritos em inglês, francês, português ou espanhol.

Para o número 17, os artigos devem ser submetidos pelo site: https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada

Você deve se cadastrar como autor) até o dia 25 de maio de 2021. Lembramos que, do autor, espera-se observar atentamente as normas de publicação disponíveis no site
https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/about/submissions

Contamos com você para a divulgação desta chamada de artigos. Além disso, aproveitamos para convidar você a ler os números anteriores da Revista, no nosso e-mail:
https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/issue/archive. E para consultar nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/revista.jangada

Se você tiver alguma dúvida, escreva para revistajangada@gmail.com

Michel Espagne – ENS-CNRS
Dirceu Magri  – UFV, Brasil
Editores
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sobre A Marca do Editor, de Roberto Calasso

https://ayine.com.br/catalogo/
a-marca-do-editor/

Para Roberto Calasso, o ofício do editor está muito próximo ao de um barqueiro e de um jardineiro.
Tanto o barqueiro quanto o jardineiro aludem a algo que preexiste: um jardim ou um viajante a ser transportado. Todo escritor possui em si mesmo um jardim a ser cultivado e um viajante a ser transportado (p. 134). 
A imagem, o autor a rouba de Dimitrijevic, editor de origem eslava que emigrou para Lausanne e com quem compartilhou boas conversas nas feiras de Frankfurt.
Esta é apenas uma dentre as belas descrições de Roberto Calasso em A Marca do Editor. Esta edição elegante e coroada por uma escrita magnética, que acaba de ser publicada no Brasil, nos conduz a pensar que todo o livro é um exercício de écfrase, destinado a recuperar a beleza e o estilo da arte editorial.
O texto vibra sobre algumas questões essenciais que tocam não apenas o já malfadado mundo dos livros, mas, a bem dizer, toda a nossa cultura e a maneira como temos nos relacionado com as tecnologias, a informação e o conhecimento. Ao assumir a função editorial como uma forma de mediação entre o produtor (escritor) e o consumidor (leitor), Calasso levanta elementos para a elaboração de uma teoria da arte editorial, ou, no limite, da “edição como gênero literário”. Algo muito próximo do que o tipógrafo californiano reivindicara para seu ofício, inspirando-se em uma definição de Walter Benjamin. Se o estilo literário “é o poder de mover-se livremente pelo comprimento e pela largura do pensamento linguístico sem deslizar para a banalidade”, o estilo tipográfico se define pelo “poder de mover-se por todo o domínio da tipografia e de agir a cada passo de maneira graciosa e vital, sem ser banal”[1]. O ponto essencial reivindicado pelo escritor, pelo tipógrafo e pelo editor coincide, portanto, em não “deslizar para a banalidade”.

O livro único

Roberto Calasso é escritor prolífico e editor de larga experiência, internacionalmente reconhecido. A Adelphi, editora que lançou luz sobre novas correntes do pensamento na Itália dos feéricos anos 60, constitui o testemunho mais eloquente de uma experiência em nada banal. Um liberal convicto e ousado. Talvez, prepotente em algumas assertivas. Porém, detentor de uma generosidade rara ao apresentar seus companheiros de jornada. Adentrou no templo sagrado da Laterza, Einaudi, Mondadori e do aristocrata de extrema esquerda Feltrinelli, com pequenas doses de provocação oriundas da pátria de Radetzky, misturadas a outros títulos totalmente originaisnas livrarias italianas. Vale lembrar, a sede da Adelphi é em Milão, palco de lutas sangrentas contra o exército austríaco, na Primavera dos Povos 1848.
Na Adelphi elaborou – sempre dentro da perspectiva de uma teoria da edição – o conceito do livro único, para o qual não existe apenas uma chave interpretativa, mas alguns caminhos de definição vivenciados na prática: 
a edição crítica de Nietzsche, que era suficiente para nortear todo o resto; e uma coleção de clássico estruturada em critérios bastante ambiciosos: fazer bem o que antes se fizera com negligência (p. 11). 
Assim a concepção de livro único ganha peso e cor na escolha do papel, na ilustração da capa, na tipografia, enfim, através de procedimentos técnicos e da expertisede uma arte que consiste em compor um catálogo editorial capaz de aproximar o repertório de Joseph Roth ao de Fernando Pessoa. Nesse ponto, impossível não pensar na aventura do saudoso J. Guinsburg, que fez da editora Perspectiva uma biblioteca universal[2]. Cada título estampado naqueles volumes oblongos, envoltos em capas brancas, encimadas por tarjas coloridas, que aos poucos iam conformando a sua própria árvore do conhecimento, compunham um livro único, de um editor essencial. E os exemplos não param por aí...

O livro essencial

No que toca à cultura emergente da informação acima de tudo e a qualquer custo, Calasso é inflexível e em suas palavras transborda o fino fel da ironia. A promessa de uma biblioteca digital de acesso amplo e irrestrito, soa-lhe tão ameaçadora quanto a substituição dos livros impressos pore-readers. 
A questão é que a digitalização universal implica uma hostilidade contra um modo de conhecimento – e apenas em segundo momento para o objeto que o encarna: o livro (p. 43).
Os elementos que corroboram sua análise podem ser tirados de experiências hodiernas, vivenciadas nas universidades brasileiras, a começar pelo processo de desqualificação dos livros capitaneado pelos gestores da Capes, com a anuência, vale frisar, da comunidade acadêmica, na última década. Quando seus êmulos mais habituados às famigeradas revistas científicas – cujo principal poder consiste em tornar obsoletas as descobertas publicadas no número da véspera – se tornaram os primeiros cavaleiros do apocalipse da cultura entediante e modorrenta dos livros, não houve surpresas. Espanto maior foi a reação dos autodenominados humanistas, no sentido de rebaixar, também eles, as publicações em livros. E como se esses fatos já não parecessem suficientemente extraordinários, surgem os apóstolos de uma nova era, em que livros se tornam objetos de luxo. Ou, no extremo oposto, quando são relegados à condição de coadjuvantes de uma cultura digital pretensamente superior e mais democrática, ou a de meros instrumentos de apoio à atividade didática, tão arcaicos quanto a velha lousa e o giz. Aliás, um quadro muito familiar à distopia de Ray Bradbury, fazendo-nos crer, como observa o autor, que “nesse caso o mundo poderia até desaparecer, pois seria supérfluo” (p. 51).
Do início ao fim as palavras de Roberto Calasso esbanjam nobreza. Movida pelo conhecimento e pela fé – esta, entendida à luz dos videntes védicos, como “uma confiança nos gestos rituais”, em um exercício mental contínuo – a figura do editor se impregna dessa aura de discernimento e de juízo que se inscreve em uma longa tradição cultural. No seu entender, desde o Humanismo impresso em papel e tinta por Aldo Manuzio. 
E se “todo verdadeiro editor compõe, sabendo ou não, um único livro formado por todos os livros que publica” (p. 136), não deixa de ser trágica a sina de um tipo bastante comum de certo editor contemporâneo. Mais preso às sagas empresariais do que ao mergulho profundo que lhe impõe o conhecimento, nada lhe restará ao recompor sua trajetória. Preso às convenções da forma e às ingerências do mercado, o pobre mercador estará fadado a buscar nas nuvens as marcas do seu passado. Pois, no fim das contas, todo editor reconhece que o que lhe resta é o essencial: o livro.


[1]Robert Brighurst, Elementos do Estilo Tipográfico, Versão 3.0, Trad. por André Stolarski, São Paulo, CosacNaify, 2005, p. 25.

[2]J. Guinsburg, Org. por Sônia Maria de Amorim; Vera Helena F. Tremel, São Paulo, Com-Arte, 1989 (Coleção Editando o Editor, 1). 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Carrión, Contra Amazon (uma segunda edição ?)

Sucesso absoluto, a primeira edição de Contra a Amazon, publicada pela editora Elefante já se esgotou. Enquanto aguardamos uma nova fornada, eis uma breve apresentação do livro desse jovem globe trotter que vem conquistando os leitores e as leituras do Brasil. 

https://elefanteeditora.com.br/autores/jorge-carrion


O livro de Jorge Carrión foi traduzido por Reginaldo Pujol Filho e Tadeu Breda. A edição é muito bem-cuidada, com design impactante, para dizer o mínimo. Mesmo para uma leitora exigente, adepta da teoria da taça de cristal de Beatrice Warde, a composição do texto não atrapalha. Talvez, apenas, o excesso de notas explicativas ou, na verdade, a fonte das notas - excessivamente encomrpadas - crie alguns ruídos. Porém, estas questões são pequenas, se comparadas ao apuro com que todo o livro foi projetado. Não se pode, afinal, agradar a gregos e troianos.
Poder-se-ia mesmo dizer que todo o livro é um manifesto. Desde o design, como eu disse, passando pelos paratextos, que são muitos e demarcam a atualidade e o caráter emergencial do debate que o título-tema levanta, até o próprio texto-provocação de Carrión. 
O autor, aliás, é muito ousado, um globe trotter que fez das Livrarias, tema de seu livro inaugural aqui no Brasil, o assunto, o objeto e o lugar de visitação a ser lembrado, narrado e discutido.
Durante a leitura, uma pergunta não quer calar: as livrarias têm futuro?
No Brasil temos assistido à crise e, talvez, à falência de duas grandes redes. Além disso, após quase um ano de paralisia desencadeada pela pandemia do coronavírus, tornou-se urgente refletir sobre os modelos de negócio dos livros, particularmente na sempre frágil relação editor-público que se estabelece através do comércio varejista.
E a questão se torna ainda mais espinhosa quando, na verdade, o acesso ao livro pode ser feito da tela de nossos celulares. Lemos e compramos livros desse pequeno aparelho portátil que, para muitos, tornou-se extensão do próprio corpo.
Para Carrión há sete razões e um manifesto para se voltar contra a Amazon. Vejamos"
1. Porque não quero se cúmplice da expropriação simbólica; 2. Porque somos todos ciborgues, mas não robôs; 3. Porque repudio a hipocrisia; 4. Porque não quero ser cúmplice do neoimpério; 5. Porque não quero que me espiem enquanto leio; 6. Porque defendo a lentidão acelerada, a relativa proximidade; 7. Porque não sou ingênuo.
Não vou explicar cada uma dessas sentenças, mas parece evidente que o que se discute não é o comércio virtual de livros, mas o que o império Amazon, cujos livros talvez sejam apenas um pretexto, uma etiqueta, ou um requinte, de uma empresa que está muito longe de comportar o humanista simbólico de que são portadores os livros.
Esse manifesto ganha peso, na edição, quando a ele se somam outras vozes, apresentadas sob a forma de “Apêndices”. Neste espaço foram reunidos os escritos-manifestos de Ursula Guin, Ricardo Lombardi, Adalberto Ribeiro, Felipe Roth Faya, Alex Januário, Marcelo Finateli, Nani Rios, Guarany Oliveira Marques, enfim, uma galera enorme dedicada a relatar, a partir de suas experiências, a humanidade dos livros.
Nesse sentido, a iniciativa da editora Elefante se apresenta como um símbolo de resistência ou, para citar o subtítulo do livro, uma resistência em nome da “humanidade do livro”.
Segundo Carrión, quando se defende as livrarias físicas, não se está simplesmente negando o progresso tecnológico em nome de um saudosismo vazio. Talvez, ele queira nos chamar a atenção para um aspecto importante e que o mergulho das pessoas nas novas tecnologias parece esquecer – ha espaço para todas as manifestações e formas de vida. Tradição e inovação são faces de um mesmo díptico e todos ganham com a diversidade.
Não podemos ser ingênuos e acreditar que, após a revolução tecnológica na qual estamos todos imersos, tudo será como antes. Não!
Mas as revoluções deixam acesas nossas marcas do passado, nosso dna. Não vamos simplesmente destruir tudo e negar todo o passado sob a ilusão da normalidade.
A relação entre passado e futuro, tradição e inovação se evidencia em várias passagens do livro.
Carrión visita Seul e nos brinda com muitas descrições de livrarias que visitou nessa metrópole que, até ontem, era uma grande cidade poluída e barulhenta de um pais emergente. Hoje é uma metrópole poluída e barulhenta de uma potência tecnológica. 90% da população está conectada e a cidade não dorme com seus grandes painéis eletrônicos sempre acesos.

A capital da Coreia do Seul ostenta a maior livraria de toda a Ásia. Starfield Library se tornou um ponto turístico de visita obrigatória, anunciado nos principais sites para viajantes de todos os gostos.

Por trás desse grande parque em que a cultura multissecular do impresso convive com a lógica do espetáculo, em que público e privado se misturam, há um outro tipo de vida inteligente.
As livrarias também sobrevivem nas ruelas, nas galerias, em locais onde é possível pagar aluguéis um pouco mais generosos e fugir da atração devoradora dos grandes magazines que vendem moda, tecnologia e cosméticos.
Uma terceira opção? Sim. Vejam só: os livros podem estar acomodados em edifícios inteligentes e sofisticados, sob os auspícios da Hyundai Card – são livrarias-bibliotecas temáticas conectadas com o futuro.
Moral da história: pequenas livrarias guardam a personalidade de seus proprietários e cativam leitores e escritores pouco afeitos ao mundo do espetáculo promovido pela arquitetura futurista e brilhante da metrópole insone. Todavia, elas só podem sobreviver nos desvão da cidade. É onde a cultura pulsa. E a literatura projeta a imagem da Coreia para o mundo.
Há várias outras agradáveis surpresas no itinério que nos propõe o autor. Isso porque as livrarias se convertem, sob o olhar de Carrión, nesse sopro de humanidade que ainda nos resta...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Os Evangelhos para um Mundo Laico

A nova tradução dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que acaba de ser publicada pela Ateliê Editorial em parceria com a editora Mnéma, vem contar a história dos evangelhos e dar provas de que fé e inteligência podem caminhar juntas. 



A nova edição dos Evangelhos foi publicada em versão bilíngue (grego e português). Trabalho primoroso e sofisticadíssimo na sua sobriedade e na forma responsável e criteriosa com que os textos do Evangelho são tratados. Atelier e Mnéma não são as primeiras editoras não religiosas que se dedicaram a publicar os textos sagrados. Na verdade, é preciso considerar a importância das palavras e dos ensinamentos de Cristo, registrados por esses quatro evangelistas, não apenas para a formação religiosa da humanidade, mas também como alimento espiritual e literário. 
Quem fala em cristofobia se esquece de que o mundo laico jamais ignorou suas raízes. Provam-no os estudos sobre os Evangelhos, realizados por paleógrafos, filólogos e exegetas, os quais se fortaleceram após as descobertas de novos manuscritos, em papiro e em pergaminho desde o final do século XVIII. Como lembra o tradutor, Marcelo Musa Cavallari, na excelente apresentação que faz ao volume:
O Evangelho é um texto sagrado. Em sua mais básica significação, “sagrado”, ou “santo”, é aquilo que foi “separado” do comum da vida. Aquilo em que não se toca, o lugar em que não se entra, aquilo que não se diz a não ser nas condições corretas, sob pena de sofrer sanções, outra palavra da mesma raiz etimológica e campo semântico de “santo” e “sagrado”.O texto sagrado é aquele que tem um status diferente de todos os outros: uma “fala” separada das demais. Por isso a tradução do Evangelho foi, por muito tempo, uma empreitada raríssima e de enorme impacto”. (p. 46)
Ao resgatar a história das traduções do Evangelho e da crítica textual que lhe permitiu identificar a versão grega sobre o qual ele se deteve, Marcelo Musa Cavallari se mostra muito convicto de suas razões e motivações. Em primeiro lugar, ele afirma ter traduzido o Evangelho a partir de uma relação muito pessoal com o texto. E porque ele quis “fazer soar aos ouvidos do leitor da língua portuguesa as mesmas ressonâncias e ecos de significado que o leitor de grego experimenta diante do texto original”. Finalmente, porque se lê pouco o Evangelho – dirá o tradutor – “lê-se pouco o Evangelho como literatura que se realiza no ato da leitura”. Porque como palavra humana, como literatura ela não é menos palavra de Deus. “É mais”.  
Livro imperdível!