Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

domingo, 12 de novembro de 2017

DiverCidades: Paris, toujours Paris...

Carol Pio Pedro apresenta um olhar inspirado sobre Paris

É preciso desconfiar daquele viajante que diz não se interessar por esta ou aquela cidade, pois já passou por ela uma vez.
Quantas vezes é preciso passar por uma cidade para a conhecer bem? Eis um cálculo difícil de se fazer. Seja São Paulo, Buenos Aires, Nova Iorque, Roma, Bangladesh, Marrakech ou Paris... as cidades de ontem e as de hoje, como bem relatam os viajantes, estão sempre prontas a nos surpreender.
 
Como bem observara os historiador Fernand Braudel sobre o renascimento das cidades medievais, um núcleo urbano se organiza como colméias, eles se alimentam do movimento, das aglomerações, das rotas, das comunicações. 
Ou seja, a vocação de uma cidade é a de se alimentar das pulsões do seu tempo e do seu espaço, o que a torna sempre uma novidade... sobretudo essa cidade guarda na paisagem muitas camadas de história. 
E um bom viajante jamais pensaria que a cidade ficou ali, estacionada, a repetir uma mesma emoção, ou espanto, ou frustração de tempos passados. 
Desvendar o que vai além da paisagem e despertar o olhar do leitor para os cantinhos mais pitorescos de uma cidade, eis o espírito de um bom livro de viagens!

Lançamento

Livraria da Vila

Shopping Higienópolis

23/11

18:30-21:30

Imperdível!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Das Kapital, de Karl Marx (150 Anos)

Relato de um encontro inesquecível

Arte de Ciro Yoshyiassi para o Simpósio Internacional que reuniu especialistas em edição e história editorial da obra de Karl Marx
Entre 28 e 31 de agosto o Programa de Pós-Graduação em História Econômica promoveu uma série de atividades para celebrar o aniversário de 150 anos da primeira edição do tomo I de O Capital, obra maior do filósofo Karl Marx.
Dois mini-cursos ministrados por especialistas se desenvolveram simultaneamente. Sob a coordenação de Jorge Grespan, pudemos aprender muito sobre o processo de edição dos manuscritos de Marx. Rolf Hecker e Carl-Erich Vollgraf compuseram a equipe editorial da obra completa de Marx e Engels, a chamada MEGA (2), considerando que a primeira foi realizada nos anos de 1940, por Riazhanov.
O segundo mini-curso foi ministrado pelo Professor Horacio Tarcus, da Universidad Nacional de San Martín e diretor do CeDinCi (Centro de Documentación y Investigación de la Cultura de Izquierdas), de Buenos Aires. Sua pesquisa se volta para a problemática da produção e recepção da obra de Karl Marx na América Latina. As aulas se desenvolveram no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, entre 28 e 30 de agosto.
Os especialistas se reuniram no último dia das atividades, quinta-feira, 31 de agosto, em uma mesa redonda marcada por muita descontração e informações relevantes sobre a edição da MEGA e sobre a trajetória editorial de El Capital nos países hispano-americanos.
É interessante observar a engenhosidade do processo editorial dos manuscritos de Marx e Engels. Para além do aspecto anedótico - e não menos verdadeiro - da dificuldade de se decifrar a caligrafia do Mouro, vale acrescentar que todo o trabalho não deve descuidar de uma verdadeira crítica genética dos textos, além de conhecimentos profundos dos princípios da filologia e da ecdótica. O desenvolvimentos de expertises e técnicas editoriais, além dos aspectos tecnológicos, cujo salto se deu nas duas últimas décadas, certamente concorreram para um trabalho mais minucioso e preciso, o que faz dessa nova versão algo assombosamente maior e melhor elaborado do que o trabalho de escriba medieval realizado durante a geração de Riazhanov. 
Sabe-se, por exemplo, graças às contribuições de Rolf Hecker, que a contribuição de Engels para o segundo tomo de O Capital se distancia bastante das anotações deixadas por Marx. Porém, como Tarcus observa, em sua intervenção, já em vida de Marx é preciso refletir sobre as múltiplas versões de O Capital, o que se explica pelas traduções/versões realizadas sobre um texto complexo, escrito originalmente em alemão, mas também pela intenção de se atingir a um largo público. Finalmente, vida e obra se articulam. Marx, na medida em que refletia sobre sua própria obra, após a publicação do primeiro tomo, cuidava, ele mesmo de a rever em um trabalho contínuo. 
Da esquerda para a direita: Horacio Tarcus, Jorge Grespan,
Rolf Hecker, Carl-Erich Vollgraf
As intervenções deixaram uma questão importante sobre essa grande empresa editorial que se concretiza no século XXI: a MEGA (2) realiza o sonho de uma edição crítica, feita por eruditos e cuidadosamente planejada, com todos os aparatos possíveis e imagináveis desde a era de Gutenberg. Um Aldo Manuzio não teria feito melhor, pois se lhe sobrava erudição, faltavam-lhe os recursos informacionais de que dispomos hoje. No entanto, passados mais de 50 anos daquela primeira MEGA, esta parece vir a luz sem o senso profundamente político da obra de Marx e Engels, bem como de seus múltiplos editores, revisores, tradutores e comentadores. Estaríamos diante de uma MEGA contraditoriamente depurada de seu passado?


Horacio Tarcus - anotações de viagem

Horacio Tarcus e, ao fundo, Eduardo S. Cunha, na Biblioteca Edgard Carone, em Itu.
 Além das aulas e da mesa-redonda, Horacio Tarcus visitou importantes arquivos paulistanos. 
No Cedem, o Centro de Memória da Unesp, que guarda um dos mais importantes acervos da história da esquerda no Brasil, ele pode conferir o acervo de Astrojildo Pereira, dentre papeis de outros militantes brasileiros. 
Seu interesse em conhecer o Cedem é antigo, dado o contato estreito de Tarcus com alguns estudiosos e militantes nacionais, especialmente, com a obra de Edgard Carone, o primeiro a levantar questões sobre a trajetória editorial dos textos marxistas e da literatura do movimento operário no Brasil. 
Na verdade, Carone traz do Asmob, ou seja, da mesma coleção hoje guardada pelo Cedem, mas que nos anos de chumbo se encontrava em Milão, documentos que lhe permitiram reconstituir as ações editoriais de Astrojildo Pereira, nos tempos da fundação do PCB (1922). Esse material precioso abriu novos caminhos para o estudo do marxismo e das culturas de esquerda pela via editorial. Considerando a importância do Cedem, espera-se que o problema da falta de funcionários e o silêncio de sua diretora, que não respondeu ao nosso chamado, seja logo resolvido. Não fosse uma missão entre amigos e o interesse em apresentar a instituição ao nosso parceiro portenho, seu desejo não teria se realizado.
Elisabete Marin Ribas e Horacio Tarcus - Arquivo do IEB
No Instituto de Estudos Brasileiros-USP, ao contrário, as horas de visita foram muito bem aproveitadas, dada a receptividade costumeira de sua supervisora técnica, a pesquisadora Elisabete Marin Ribas. Tarcus ficou particularmente impressionado com a infra-estrutura do acervo e, claro, com a riqueza de seu conteúdo.
O Arquivo IEB USP surgiu em 1968, integrado à Biblioteca. A partir de 1974, com a chegada de sucessivos arquivos pessoais, o crescimento do acervo motivou seu estabelecimento como setor independente. Com o objetivo de receber, organizar, preservar e divulgar seus documentos, visando oferecer fontes primárias para pesquisas das mais diversas áreas, o Arquivo IEB atualmente reúne cerca de 500 mil documentos.
O acervo custodiado pelo Arquivo do IEB é fonte de pesquisas para brasileiros e estrangeiros, além de subsidiarem publicações e exposições de grande público pelo país e no exterior.
Dentro de seu precioso acervo encontram-se os arquivos pessoas de: Anitta Malfati, Aracy Abreu Amaral, Caio Prado Jr., Camargo Guarnieri, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Milton Santos, entre muitos outros.


A semana terminou com uma longa e agradável visita a Itu, onde se encontram depositados a biblioteca e o arquivo do historiador brasileiro Edgard Carone (1923-2003), que atuou como professor titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
O acervo legado inclui raríssimos volumes publicados na primeira metade do século 20, obras de pensadores marxistas como Antonio Gramsci, Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo e Leon Trótski e as edições brasileiras do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. 

A “joia da coroa” da biblioteca talvez seja a primeira edição francesa de O Capital, de Marx, responsável pela difusão do pensamento marxista na Europa, no século 19 – um volume que pertenceu a um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Astrojildo Pereira, em 1922.
Mas, como podemos ver na fotografia acima, o que mais interessou ao nosso convidado e, certamente, será motivo de seu retorno, foi a profusão de panfletos e opúsculos anarquistas, socialistas e comunistas que a biblioteca guarda. As primeiras edições brasileiras de O Manifesto Comunista constitui uma das riquezas do acervo.
Estuda-se, agora, a assinatura de um convênio entre a USP e a UNISAM, com a finalidade de aproximar pesquisadores, bibliotecários e arquivistas para a troca de informações, mas também de experiências em bibliotecas e fundos dessa natureza. A equipe de Itu, lideradara pela Profa. Maria Aparecida Borrego e pelos bibliotecários José Renato e Alzira ficaram particularmente animados com essa ideia.
Hasta luego, Tarcus!


Brevíssima nota sobre as primeiras edições de Das Kapital

A primeira edição do volume primeiro de O Capital apareceu em Hamburgo, em 1867, com uma tiragem de mil exemplares. Uma segunda edição, publicada em fascículos e revista pelo autor, viria a ser publicada entre junho de 1872 e maio de 1873. Em 1883, uma edição póstuma foi publicada sob a responsabilidade de Engels, com os acréscimos e correções baseados em notas manuscritas do autor e de duas edições anteriores: a segunda alemã e a primeira francesa.  Uma edição “definitiva”, pelo menos aquela que nortearia novos estudos e traduções ao longo do século XX, viria a lume em 1890, com alguns novos acréscimos de Engels, tirados, sobretudo, da edição inglesa traduzida por Edward Aveling e Samuel Moore. 
A edição francesa é especialmente importante, porque foi a partir dela que muitos leitores do mundo ocidental tiveram acesso ao texto de Marx.

Para saber mais, consulte os links: