Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sai no Brasil O Sonho de Polifilo


Um livro, um sonho

Homenagem a Claudio Giordano, bibliófilo e tradutor

“Se desejas, leitor, conhecer brevemente o que está contido nesta obra, saibas que Polifilo conta nela  que viu em sonhos coisas admiráveis, e que a intitula com palavra grega, luta de amor com sonhos ”.



Uma longa viagem narrativa, publicada em 1499, parecia fechar com chave de ouro a era dos incunábulos – nome dado aos livros impressos com tipos móveis no período de 1440 a 1501. É bem verdade que no primeiro meio século da grande invenção de Gutenberg a nova arte buscara honrar os mais belos códices manuscritos até então conhecidos. E eles eram tantos, feitos com tal graça, que custava a acreditar que braços mecânicos fariam subsistir aquilo que mãos hábeis e divinas se atreveram a criar.
Hypteronomachia Poliphili, ou simplesmente Sonhos de Polifilo constitui um exemplar raro. Foi impresso em Veneza, na oficina tipográfica de Aldo Manuzio. Iluminam o texto 38 gravuras talhadas de forma engenhosa, por artista ainda desconhecido. Sabe-se apenas que a finesse dos traços, os quais resultam em cenas absolutamente dinâmicas e naturais teria despertado a atenção de grandes artistas, por séculos a fio, dentre eles Aubrey Beardsley (1872-1898), com suas musas longilíneas e sensuais.
Nesta história escrita em toscano, latim, grego e alguns neologismos do autor, o amor sensual atinge seu clímax no encontro do herói com as musas. Mas este se choca com o amor ideal, distante, senão, impossível... o amor de Polia – cuja voz fará eco no segundo livro. Um confronto, uma luta, uma viagem, enfim, “onde se ensina que tudo quanto é humano não passa de sonho”, segundo advertência do próprio autor.
Já era o tempo de conhecermos uma edição vertida para o nosso vernáculo. Coube a Claudio Giordano, este amante dos livros, a nobre tarefa. O tradutor premiado de Tirant lo Blanc acaba de trazer a lume dois belos volumes in-folio: no primeiro, o texto traduzido; no segundo, um fac-símile da primeira edição (aldina) pertencente à coleção Mindlin. Aos interessados, os dois volumes acabam de ser publicados pela Imprensa Oficial de São Paulo.
O tradutor toma como base o texto em espanhol. Um “tradutor, traidor”, pois como ele mesmo explica, “se Jorge Luis Borges pôde dizer que existirão tantas Mil e Uma Noites quantos forem seus tradutores, com muito maior razão se pode aplicar esta assertiva à de Colonna (ou será de Alberti?)”. A pergunta tem razão de ser: atribui-se lhe a autoria por meio de um acróstico formado pela combinação das letras que compõem o início dos trinta e oito capítulos que integram o livro: Poliam frater Franciscus Colonna peramavit (“o irmão Francesco Colonna adorou Polia”). Uma hipótese há séculos aceita, mas, sob suspeição – o que só aumenta o mistério em torno desta obra.

“E, contada a história com digníssimos pormenores e detalhes, ao canto do rouxinol, Polifilo despertou. Adeus.”

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