Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Feliz Natal & Próspero Ano Novo

Catedral de Poitiers, Março de 2013

Feliz Natal!

Por um Natal justo e amoroso

Feliz Navidad 

Feliz Navidad próspero anõ y felicidad

Merry Christmas 

I wanna wish you a Merry Christmas

From the bottom of my heart !

Joyeux Noël

Que la nouvelle année sonne comme une belle chanson d'amour!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre Livros - Diálogo com as Formas

Corpo e Alma do Livro

Sobre os mistérios que guarda a forma do livro, muito se escreveu. Pensemos na própria “lei de Gregory”, relativa a um aspecto curioso, senão, miraculoso do livro. A dobra das folhas de pergaminho fazia tocar, invariavelmente, os mesmos lados da pele, donde a fórmula: “carne contra carne”, “flor contra flor”, esta última designando o toque da face exterior.


Esses muitos mistérios nos remetem à própria origem da forma livro e sua longa duração na história ocidental. Sabe-se que o códice, ou livro formado a partir da dobra e junção das folhas apareceu na Roma Antiga, no primeiro século de nossa era. Demorou pelo menos quatro séculos para superar o rolo, ou volumen, formato que nos parece hoje um tanto desajeitado, pois obriga o leitor – à semelhança do que faz diante da tela de seu notebook – a “correr” o texto no sentido vertical, num prolongado desenrolar da página.
Dentre as muitas hipóteses formuladas em torno da vitória do códice sobre o rolo, duas sortes de argumentos saltam às vistas: aquele que vincula o novo formato às práticas cristãs de leitura do Evangelho; e, no extremo oposto, a disseminação de seu uso entre leitores de literatura, ou seja, o códice voltado para a fruição das letras. Fixemo-nos neste último caso, ainda que pareçam tênues os limites entre os usos sagrado e profano do livro por nossos personagens.


Aquarela de Dante Rossetti (!828-1882)
Sabe-se que este mesmo formato conduziu à perdição Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, no Canto V do Inferno de Dante. Enquanto liam o livro de Lancelote, este lhes fugiu das mãos no momento em que o cavalheiro beijava a rainha Ginevre. O beijo de um livro se prolongou n’outro e Dante se limitou a dizer que a leitura não foi adiante. Francesca apenas acrescenta que Paolo com “la bocca mi basciò tutto tremante”. O verso dispensa tradução, mas nós sabemos que aquela leitura provocou o ciúme e a violência mortal de Gianciotto, o marido traído. A punição do casal foi a de serem eternamente lançados pelo vento de suas paixões sem jamais se tocarem.
Como o corpo da pessoa amada, abrimos o livro e lhe acariciamos as páginas com emoção. É verdade que a exemplo dos “encontros” virtuais, existe a literatura sem o velho suporte de papel. E há quem a prefira. Mas é difícil acreditar que um beijo virtual seja melhor do que aquele que condenou Paolo e Francesca. As formas do amor são tantas quanto os modos de ler. Assim amor e livros guardam para si seus mistérios.

Escrito com a colaboração de Lincoln Secco e publicado em versão impressa na Revista Brasileiros - www.revistabrasileiros.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sobre Livros - A maldição da letra de forma

A consciência de que a letra impressa rouba ao autor o controle sobre o escrito moveu teóricos e profissionais do livro por longos séculos


Manuscrito de Petrarca
http://www.citas-latinas.com.ar/2009/05/petrarca-y-el-humanismo.html
Os primeiros livros de Petrarca (1304-1374) foram autógrafos. Desconfiava o poeta que seus trabalhos fossem desvirtuados pelos copistas. Desse modo, ele escrevia e reproduzia do próprio punho seus textos, gesto que assegurava ao autor (auctor) a autoridade (auctoritas) e o pleno controle sobre sua arte.
A era inaugurada por Gutenberg (c.1398-1468) tornaria impraticável esta escolha. É bem verdade que apenas a nova ars impressoria pôde garantir à escrita, através da reprodução mecânica em série, regularidade e ampla difusão. Donde sua vitória sobre o manuscrito, processo que não se deu tranquilamente, tais foram as reservas que autores e leitores guardaram com relação à nova tecnologia. “Arte negra”, tomada pelo diabinho Tityvillus, que atentava revisores, compositores e impressores no processo de produção da letra impressa. Não falemos sobre as gralhas – erros tipográficos – que celebrizaram tantas edições princeps, as quais compõem todo um almanaque de curiosidades e de cobiças entre bibliófilos e bibliômanos.
Pensemos, antes, na figura do autor. Por fatalidade do destino ou fortuna, a maldição da letra impressa o fez refém da técnica, ao mesmo tempo que lhe rendeu honrarias e – quando muito afortunado – riquezas materiais. 
Dom Quixote
O sucesso e a fatalidade fizeram com que Cervantes (1547-1616) reinventasse seu Dom Quixote, em uma segunda jornada. Eis que o cavaleiro então se depara, em Barcelona, com uma tipografia. Entra e se encanta com a descoberta. A escrita é ardilosa, põe em cena os segredos da “arte negra”, ao mesmo tempo em que discorre sobre as armadilhas da economia do livro, com seus muitos profissionais e interesses, não raro conflitantes, os quais opõem impressores, livreiros e autores. 
Num golpe certeiro, o cavaleiro se dá conta de que estão emendando uma Segunda Parte do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, “composta por um tal habitante de Tordesilhas”. Não a verdadeira, mas uma edição espúria:
Mario de Andrade (1893-1945)
 “_­­­­___ Já tenho notícias deste livro – disse Dom Quixote. Em verdade e em minha consciência, pensei que já estivesse queimado e feito em pó, por impertinente”. Pelo contrário. Da figura do herói, em detrimento do autor, tanto se lhe tirava proveito, na medida em que se a popularizava. Eis a armadilha.
A consciência de que a letra impressa rouba ao autor o controle sobre o escrito moveu teóricos e profissionais do livro por longos séculos. Tem significados profundos, até a contemporaneidade. O debate em torno do direito autoral frente as novas tecnologias está na ordem do dia. No fundo, estamos às voltas com a velha questão do império da forma (ou do suporte) sobre o conteúdo. Mais vale pensar como Mario de Andrade (1893-1945), numa solução consoladora diante de um fato consumado. Escreve o autor à amiga Henriqueta Lisboa, em 10 de março de 1943: “É natural isso da gente cair num abatimento desiludido cada vez que publica um livro, eu sempre fico desolado quando enfim uma obra minha se converte a essa realidade brutal e castigadora de letra-de-forma”.


Artigo publicado em versão impressa e digital na Revista Brasileiros www.revistabrasileiros.com.br

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobre Livros - Efeméride


Paula Brito: Editor, Poeta & Artífice das letras

“O primeiro editor digno deste nome que houve entre nós.” (Machado de Assis)

Celebra-se em 2 de Dezembro do corrente o natalício do primeiro editor brasileiro.
Paula Brito (1809-1861) despontou na cena pública carioca em tempos de lutas políticas, as quais culminaram na abdicação de d. Pedro I, em 7 de abril de 1831. Por essa época, o jovem tipógrafo – que aprendera o ofício na Imprensa Nacional – aperfeiçoava suas habilidades artísticas nas oficinas de Pierre-Seignot Plancher, fundador do Jornal do Commercio e proprietário de prestigiosa tipografia. Ali traduziu textos franceses, foi compositor e mestre-impressor.
Jovem, negro, de origem humilde, autodidata. Atuando em um cenário de instabilidade política e, vale lembrar, diante de um mercado de bens culturais dominado senão exclusivamente por franceses, mas por modelos europeus, Paula Brito rompeu as barreiras impostas aos de sua classe, vindo a constituir sua própria livraria e uma respeitável tipografia. Não obstante, o artífice que conhecera todas as etapas da produção gráfica, ao que mais tarde somaria o domínio sobre a litografia, logrou se tornar o primeiro livreiro-editor brasileiro de expressão no meio literário fluminense.
A livraria situada na Pça. da Constituição, no 64 (atual Pça. Tiradentes), agremiou romancistas, poetas, dramaturgos, pintores, políticos, em um só termo, uma coterie bastante expressiva no mundo das artes. Apenas para citar alguns nomes de maior vulto, freqüentaram seu estabelecimento: Gonçalves Dias, Laurindo Rabelo, Joaquim Manuel de Macedo, Araújo Porto Alegre... Era a Sociedade Petalógica, neologismo por ele criado, a partir do prefixo “peta” (mentira), o lugar por excelência do livre pensamento e da convivência franca, o que era não era cousa de pouca monta, à vista das dissensões que dominavam a cena política daqueles tempos. 
 Em 1850 fundou a Typographia Dous de Dezembro. A data guarda uma feliz coincidência, a qual merece ser registrada nas efemérides brasileiras. D. Pedro II e Paula Brito nasceram no mesmo dia. Não poderia ser outra a data escolhida para a inauguração daquele verdadeiro empreendimento industrial, sob os auspícios do imperador do Brasil.

Imagens extraídas de 
Paula Brito: Editor, Poeta, Artífice das Letras. Org. por Marisa M. Deaecto, Plinio Martins Filho e José De Paula Ramos Jr. São Paulo: Edusp; ComArte, 2010.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

DiverCidades - Tîrgu Mureş e a Biblioteca Telekiana



Luzes em Tîrgu Mureş - Transilvania

Bibliotheca Telekiana, detalhe da fachada - Fotografia da Autora
Tîrgu Mureş/Neumarkt am Mieresch/Marosvásárhely constitui núcleo urbano de dimensões modestas, situado no centro-norte da Transilvânia, às margens do rio Mureş. Caminhar pela cidade implica o desvendamento de passagens marcantes de sua história. Na fachada da bela igreja fundada pelos franciscanos, no século xv, uma curiosa placa anuncia em romeno um evento importante da revolução de 1848 que ali eclodiu. Mais adiante, seguindo a muralha da cidadela, testemunho dos inúmeros ataques de tártaros e otomanos de que foi alvo, deparamo-nos com a construção volumosa do Colégio Reformado (Presbiteriano), de 1557. E paremos por aqui, pois as visitas a igrejas nos remetem a uma história por demais tormentosa da presença católica, logo substituída por presbiterianos, luteranos, calvinistas e unitaristas, cujas disputas, não raro pouco amenas, estenderam-se durante séculos e se refletiram diretamente nas questões políticas e étnicas da região.

Fachada do Colégio, defronte a Biblioteca Telekiana
Mas o Colégio Reformado, ainda em funcionamento, constitui importante ponto de partida para compreender parte do acervo mantido em outra construção que lhe faz frente, embora erguida em tempos e em estilo bem diversos. A Biblioteca Telekiana, ou Teleki-Bolyai, guarda o nome de seu patrono, conde Sámuel Teleki (1739-1822).
O edifício que a abriga foi especialmente construído para este fim, em 1799. A instituição foi inaugurada em 1802, tornando-se, desse modo, a primeira biblioteca pública do país. É claro que o sentido de público tem nesse caso outras
nuanças, como bem as discutimos em nosso estudo sobre a abertura da primeira biblioteca pública na cidade de São Paulo, em 1825. Trata-se, antes, de instituição destinada a pessoas graduadas, estudiosos, acadêmicos, eruditos, noutros termos, um modelo tipicamente europeu, senão francês, pois em muitos aspectos ela se distancia de sua congênere anglo-saxã. Também não se confunde com os gabinetes de leitura, estes, sim, destinados ao grande público, com o predomínio, sabe-se, das obras beletristas.
Fachada do edifício especialmente
construído para a biblioteca
Sámuel Teleki apresenta uma trajetória muito afinada com a de outros eruditos nobres que fizeram dos principais centros europeus um local de peregrinação e fruição intelectua. Frequentou as universidades de Basileia, Leyden, Utrech e Paris, onde aprofundou seus estudos no campo das ciências e da bibliografia. O retorno à terra natal não o impediu de estreitar novos contatos com livreiros e de manter vivo o diálogo com alguns mestres, como se observa em suas correspondências. É eleito membro das Sociedades de Göttingen e de Varsóvia. Em 1787 transfere-se para Viena, na qualidade de embaixador da Transilvânia, onde intensifica os contatos com os homens de letras e, consequentemente, as aquisições bibliográficas. Foi muito provavelmente nessa época que adquiriu na capital austríaca um cofre extraordinário para a salvaguarda de algumas raridades bibliográficas.
Antes, porém, de nos deixarmos seduzir pelas raridades e outras coleções que mais tarde viriam enriquecer o acervo da Telekiana, detenhamo-nos um pouco mais nos títulos e autores que aproximavam este nobre intelectual às grandes questões do tempo. A Revolução Francesa, como deixa entrever seu catálogo, não lhe passou em brancas nuvens. Assim como a plêiade de autores que desenha, com traços fortes, a cartografia do Iluminismo imaginada por Franco Venturi. Ao lado da coleção de autores contemporâneos, a biblioteca constitui importante acervo de obras de arte, com gravuras de grandes artistas europeus, como, por exemplo, a edição em 29 volumes de Giambattista e Francesco Piranesi. A série “Biblioteca Clássica” conforma 1 400 autores grecos e latinos, reunidos em ordem cronológica, em três mil volumes. Um espaço especial foi reservado à biblioteca de sua esposa, Zsuzsanna Iktári Bethlen (1754-1797), cujo sobrenome ostenta a linhagem imponente do senhorio local.
No subsolo, repousa intacta a coleção franciscana
O tempo e as circunstâncias dotariam a Telekiana de outros fundos bibliográficos e documentais não menos notáveis. A Biblioteca Bolyai traz o nome de dois matemáticos da região, Farkas (1775-1856) e János (1802-1860), pai e filho, mestre e aluno notável do Colégio Reformado, cujo acervo foi transferido para o edifício da Telekiana após a dissolução das escolas confessionais, em 1948, sob o regime de Nicolae Ceauşescu (1918-1989). 
Foi nessa mesma época que a instituição recebeu coleções de outras escolas religiosas e a preciosa coleção franciscana do Mosteiro de Călugăreni. O fundo Teleki perfazia quarenta mil volumes e a coleção Bolyai, oitenta mil. Somem-se os mil e quinhentos volumes dos franciscanos e outros sete mil advindos dos colégios confessionais confiscados. Eis, em números, as primeiras coleções que deram corpo e alma a esta preciosa instituição, parecendo certo que outros muitos livros a ela se juntaram com o correr dos tempos, de tal sorte que o acervo atual possui cerca de duzentos mil volumes.

Versão completa do artigo em Livro n.2 - Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE)
www.atelieeditorial.com.br

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sobre Livros - A Brasiliana Itaú

Nota sobre um utilíssimo Catálogo
Pedro Corrêa do Lago, Brasiliana Itaú. Uma grande coleção dedicada ao Brasil.
Rio de Janeiro: Capivara, 2010. Fotografia de Cinzia Araújo.

O catálogo da Brasiliana Itaú nos oferece perto de 700 páginas e 2.500 imagens que são puro deleite!

Todos os méritos da edição, cumpre ressaltar, devem ser atribuídos a Pedro Corrêa do Lago, bibliófilo refinado, curador célebre, editor zeloso. De fato, ele não se descuida da organização dos títulos, embora vez ou outra – aspecto surpreendente! – deixe-se deslumbrar na apresentação dos mesmos. O que bem se nota pelo uso hiperbólico de adjetivos na abertura de cada página.
Passemos em revista a estrutura da Brasiliana Itaú.Como esclarece o organizador, a obra matriz que orienta a coleção é a Brasiliana de Rubens Borba de Moraes. Ali estão o modelo e o conceito que servem de paradigma para o colecionador. Todavia, como bem advertira nosso bibliófilo, uma biblioteca, assim como qualquer outro tipo de coleção, resulta de uma série de fatores, os quais vão desde as condições sócio-econômicas que guiam a natureza e os limites (ou não) de um acervo, até aqueles outros fatores difíceis de mensurar, os quais poderíamos chamar simplesmente de “condições do meio” ou “espírito” do colecionador, na falta de termo mais preciso.
Destarte, se a coleção se ressente da falta de uma ou outra edição, se deixa de perfazer uma “Brasiliana Ideal”, estas são questões de somenos importância. Interssa relevar o quanto o colecionador se deixou conduzir para novos domínios, tocando, desse modo, o universo das Artes Visuais, da Tipografia, dos Livros-Objetos, dos Manuscritos (antigos e contemporâneos) e da Literatura.
Uma Brasiliana, portanto, que expandiu suas fronteiras para a arte, a técnica e a política dos séculos XVI ao século XX. Diante desse quadro vastíssimo, ela se orienta a partir das seguintes seções:

Obras de Arte
1.      Quadros a óleo
2.      Aquarelas e desenhos
3.      Objetos de arte
4.      Gravuras individuais
Livros e Impressos
1.      Brasiliana Clássica
A.     Livros sobre o Brasil
B.     Álbuns iconográficos impressos na Europa
C.     Álbuns da fauna e da flora
D.    Livros ilustrados da América Latina
2.     Tipografia no Brasil – A impressão de livros, periódicos e gravuras no século XIX
A.     Desenvolvimento da tipografia no Brasil
B.     Álbuns iconográficos impressos no Brasil
C.     Jornais e revistas do século XIX
3.     Literatura Brasileira
A.     Literatura colonial setecentista
B.     Literatura do século XIX
C.     Literatura do século XX
4.     Livros de artista
5.     Encadernação no Brasil
6.     Legislação, decretos e formação territorial
7.     Livros portugueses
Documentos Manuscritos
1. Governantes do Brasil
2. Grandes figuras do Brasil
3. Manuscritos literários
4. Santos Dumont
5. Escravidão
Cartografia
Grande Atlas Blaeu
Cartografia brasileira impressa
Economia e Finanças
Paulistana


À primeira vista essas divisões e sub-divisões parecem mais confundir o leitor do que situá-lo no mar de referencias que são os catálogos bibliográficos. No entanto, na medida em que avançamos e nos permitimos guiar pelo prazer da viagem, a navegação se torna fácil. Fica sempre aquela impressão de ter faltado algum livro na Brasiliana Clássica, até o momento em que nos deparamos com ele numa Paulistana ou, mesmo, na rica coleção iconográfica. É que, como explica o organizador, às vezes um livro se notabiliza por sua encadernação, ou por sua riqueza tipográfica. Noutras são as pranchas artisticamente ilustradas que se lhes conferem valor. Outras edições são simplesmente valiosas por seus autores, por seus tipógrafos, ou, enfim, por elementos de natureza diversa (dir-se-ia, o imponderável!): um erro tipográfico, um autógrafo, uma marca... va savoir

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sobre Livros - Notícia sobre a Brasiliana

... De Rubens Borba de Moraes


Exemplar com anotações do Autor. Fotografia de Cinzia Araújo (Edusp)
Em O Bibliófilo Aprendiz, Rubens Borba de Moraes (1899-1983) sugere a existência de três tipos de bibliotecas particulares. Um primeiro tipo perfaz a coleção do estudante pouco afortunado, porém, cioso de suas leituras. Esta biblioteca está longe de se inserir no mundo da bibliofilia, com seus códigos, segredos, circuitos e, logicamente, com seus compradores e vendedores astutos. Neste mundo se reconhece não raro o esforço do bibliófilo nouveau-riche, que comparece aos principais leilões, compra os livros mais caros do mercado e constitui, por esses meios, uma bela coleção de raridades, ou de curiosidades bibliográficas. Coleção que, por sua vez, se diferencia daquela formada por outra estirpe de bibliófilo, para quem o interesse pelo livro nasce de uma combinação feliz do amor e da erudição. Nesse caso, a escolha é determinada pelo campo de interesse e pelas possibilidades financeiras do colecionador. Se bem que, no fim das contas, como adverte o autor desse delicioso ensaio, “não há coleção tola ou ridícula quando feita com arte, gosto e conhecimento.
Fotografia de Cinzia Araújo (Edusp)
Deve-se, portanto, reconhecer como fruto do labor de toda uma vida dedicada à arte de conhecer e colecionar livros, os dois alentados volumes da Bibliographia Brasiliana, chef-d’oeuvre de Rubens Borba de Moraes que acaba de vir à lume em primeira edição brasileira, revista e aumentada, de acordo com as “instruções para uma improvável edição póstuma lá pelo ano de 2003”, nas quais o autor anuncia, em tom irreverente, a necessidade de se consultar seu exemplar “anotado e ‘recheado’ de papeletas”. 
Fotografia de Cinzia Araújo (Edusp)
A “improvável edição póstuma” tardou a sair, mas certamente satisfaria as expectativas do autor, pelos acréscimos realizados, pela tradução eficiente e pela revisão zelosa. Como todo amante do livro não se furta ao prazer da posse de um volume bem encadernado, com tipografia límpida e cuidadosa, não há dúvidas de que neste aspecto os volumes superam e muito a edição anterior – diga-se de passagem, muito bonita! Pois as primeiras edições da Bibliographia Brasiliana, vale ressaltar, saíram em inglês, a primeira em 1958, em Amsterdã e uma segunda, em 1983, já com os referidos acréscimos, numa coedição realizada entre a Universidade da Califórnia e a Livraria Kosmos Editora.
São mais de 10.000 títulos inventariados e 300 ilustrações de folhas de rosto de obras raras que enriquecem os volumes. Sobre os critérios de seleção dos títulos, adverte o bibliófilo em prefácio à segunda edição:
Mantive, no entanto, o mesmo objetivo: descrever e comentar livros raros que enfocassem vários aspectos do Brasil, antes, ou imediatamente após a Independência, em 1822. Incorporei os verbetes de minha Bibliografia Brasileira do Período Colonial (São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, 1969) e encurtei os comentários. Nesta edição revista, os verbetes relativos aos livros dos séculos XVI, XVII e XVIII tiveram maior destaque do que aqueles das obras publicadas no século XIX, época em que a produção foi intensificada. Uma vez que os livros se tornaram mais acessíveis, as publicações desse último período deixaram de encaixar-se numa bibliografia sobre livros raros.
Note-se que para além do caráter elucidativo da produção impressa sobre o Brasil, a obra diz muito sobre a produção ulterior de Rubens Borba de Moraes, como bibliófilo, certo, mas, também, no campo da história do livro e da biblioteconomia.
O gosto pela pesquisa que não raro aproxima a figura do bibliófilo à do historiador, tendência que se acentua dado o caráter ensaístico de seus escritos, bem ao sabor de sua geração, confirma-se em Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial. A epígrafe assinada por Lucien Fevbre – “L’historien n’est pas celui qui sait. Il est celui qui cherche” (“O historiador não é aquele que sabe. Ele é aquele que pesquisa.”) – não deixa dúvidas sobre o novo sentido que se lhe conferem as andanças pelas bibliotecas e leilões do mundo: à coleção e ao inventário, somam-se as reflexões sobre a natureza do livro e  seus múltiplos significados para a formação da cultura brasileira. Dir-se-ia, à luz do historiador francês, trata-se de tomar o livro como um fermento das sociedades. Mais: o livro a serviço da História. 
Uma vez mais, talvez de forma inconsciente, o espírito de vanguarda aflora na pena do autor, ao se aperceber da invasão que o campo da bibliografia operava na disciplina histórica. Em uma época em que a História do Livro se afirma com vocação multidisciplinar, ou transdisciplinar, Rubens Borba de Moraes não teria nada a justificar aos leitores sobre esta possível transgressão. Donde o valor de suas reflexões e, uma vez mais, do livro que acaba de ser editado pela Edusp em parceria com a Fapesp.

Versão completa do artigo em Livro n.1 - Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE)
www.ateliereditorial.com.br

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

DiverCidades - Souvenir do Simpósio

Fotografia de Paula Medeiros

Entre livros e amigos ... 

despedida do Simpósio Livros e Universidades (São Paulo, 9 de novembro de 2012)

Sobre Livros - Brasiliana

Qual o primeiro livro impresso sobre o Brasil?

Pergunta Rubens Borba de Moraes.


A resposta foi publicada pelo autor em sua Bibliographia Brasiliana
Trata-se de Mundus Nouus, de Amerigo Vespucci (reprodução literal da folha de rosto). 
Como escreve Rubens Borba de Moraes a certa altura de sua explanação:
"Nenhum texto escrito por Vespúcio ou atribuído a ele foi impresso com tanta frequência quanto esta carta, dirigida a Pier Francesco de Medici, que descreve sua viagem à costa brasileira em 1501 e 1502." 
Assim Rubens Borba de Moraes discorre, em longo texto “recheado” de referências, sobre diversos aspectos da vida e obra de Vespúcio.
Da descrição a um só tempo detalhada e objetiva do livro em análise, até informações atinentes à produção, circulação e recepção em diferentes contextos históricos, nenhuma informação lhe escapa, o que não deixa dúvidas sobre a erudição do autor, outrossim, sobre o caráter original de sua Bibliograhia Brasiliana. A temática do primeiro livro sobre o Brasil seria retomada em Livros e Bibliotecas do Brasil Colonial, mas sem a riqueza de detalhes daquela que foi a primeira incursão no tema.


São Paulo: Edusp; Fapesp, 2011, 2v.

sábado, 17 de novembro de 2012

DiverCidades - Bibliotecas


Das Bibliotecas do Povo às Public Library

Biblioteca do Congresso. Fonte: Wikipedia
 “Bibliotecas do Povo” na França revolucionária (1789), “Bibliotecas Públicas” nos Estados Unidos após a Independência (1779), eis um exemplo no qual a nomenclatura não se apresenta como um problema menor. Os modelos são contemporâneos, porém, diversos na forma e no espírito que os regem.
As bibliotecas do povo se avolumaram com maior ímpeto no espaço francês, entre 1792 e 1794, quando as coleções de religiosos e de nobres se tornaram um bem público por força e vontade populares. Durante o Império muitas destas instituições se converteram em importantes bibliotecas municipais. Sabe-se, aliás, que Napoleão Bonaparte era dado aos prazeres da leitura, tendo ele mesmo criado uma rede de bibliotecas para uso pessoal.
Festa do Livro - Fête de l'Humanité, 2010
Arquivo da Autora
Diferente foi o modelo praticado nos Estados Unidos, também ele fruto do Iluminismo. Nesse caso, a public library  ganhou força após a Independência, como uma estratégia de Estado que buscava promover a instalação de uma rede de bibliotecas por todo o território, desde os principais centros aos vilarejos mais longínquos, com a finalidade de padronizar o uso da língua inglesa e, por conseguinte, unificar a nação. Benjamin Franklin foi seu maior entusiasta.  
Afinal, os intelectuais ilustrados eram amigos das bibliotecas (e dos livros!). Gabinetes ou clubs literários já eram conhecidos no Velho Mundo desde as primeiras décadas do Setecentos. Mas, agora, tratava-se de pensar essas instituições como o produto de uma nova civilização que nascia após as revoluções d’além-mar e os movimentos emancipacionistas que pululavam por estas partes do continente. Tratava-se, enfim, de dar um passo adiante rumo ao progresso.
Ocorre que o Brasil demorou a se tornar uma república. Suas elites, no entanto, esforçaram-se para acompanhar as tendências observadas alhures. Às Bibliotecas do Povo, preferiram, evidentemente, o eufemismo norte-americano: Biblioteca Pública – mas não para todos.
Biblioteca da Faculdade de Direito do Largo S. Francisco, 1890
São Paulo - Brasil
Assim foi inaugurada, em 1825, a primeira Biblioteca Pública de São Paulo. Antes, foram oficialmente abertas as bibliotecas públicas da Bahia, em 1811, e a do Rio de Janeiro, em 1814. A primeira foi organizada com recursos particulares, nos moldes dos gabinetes de leitura. No segundo caso, o acervo viera de Lisboa, como parte de todo o aparato trazido pela família real durante sua transferência para o Brasil, em 1808. Temos notícias de outra biblioteca fundada na cidade de São João Del Rei, em 1827, por iniciativa de Batista Caetano de Almeida, que tornou pública sua valiosa coleção particular.
Fonte: Wikipedia
De modo geral, estas primeiras bibliotecas, denominadas públicas por força da moda, representaram uma curiosa simbiose entre a tradição e a inovação. Entre livros religiosos e de antigas leis (já caducadas), resguardaram-se nas estantes edições contemporâneas, não raro de cariz sedicioso, via de regra, filosofia e pornografia. Eram, finalmente, as Luzes que se descortinavam nos desvãos daqueles corredores empoeirados para o deleite de uma fina camada de leitores naquele Brasil escravista, analfabeto, patriarcal.

Publicado em versão completa em www.revistabrasileiros.com.br 
Também em papel!