Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Lançamento: Livros e Universidades - Auditório Freitas Nobre (CJE-ECA/USP)

Este livro tem por finalidade o registro das contribuições apresentadas no Simpósio Internacional “Livros e Universidades”. O evento aconteceu entre 5 e 8 de novembro de 2012, quando a Edusp (Editora da Universidade de São Paulo) celebrou seu primeiro meio século de história.



Na verdade, o presente volume traz algo mais do que a simples transcrição das conferências proferidas. Após a sistematização e reunião de artigos revistos e atualizados por seus autores, o que se tem é a soma de esforços em uma perspectiva multidisciplinar, no sentido de se apresentar questionamentos, diagnósticos e algumas palavras de esperança sobre o futuro do livro e da edição científica.
Considerando a abrangência e complexidade da temática, o simpósio foi organizado em três eixos temáticos, os quais perpassam a presente edição:
Formação editorial
Professores da Universidade de São Paulo, da Universidade de Buenos Aires e de Paris 10 – Arts et Métiers du Livre, apresentaram os programas de suas instituições de ensino e refletiram sobre os desafios da formação do editor diante de um mercado massificado, globalizado e submetido às transformações (revoluções?) das tecnologias de informação e comunicação.
Editores
Afinal, não se pode avançar no processo de autoconhecimento e de desenvolvimento da edição universitária sem a troca de experiências com profissionais da área. Profissionais brasileiros, norte-americanos e europeus contribuíram para a construção de um amplo painel sobre a constituição das editoras universitárias em seus países, suas especificidades, seus catálogos e perspectivas para um futuro próximo.
Pensadores
O livro, já se disse, é um objeto de múltiplas artes. Os organizadores consideraram de fundamental importância a criação de um eixo transversal que nos permitisse pensar a edição e a construção do livro universitário sob diferentes aspectos: da literatura, da semiótica, das artes, da sociologia e da história.
Findo o processo de sistematização de todos os artigos, duas grandes questões saltam aos nossos olhos: a primeira concerne à relação sempre complicada e não raro conflituosa entre o capital e a ciência, aqui analisada sob a ótica dos circuitos de comunicação da edição científica; a segunda questão diz respeito à capacidade de inovação das editoras acadêmicas dentro da própria tradição universitária, fato que se pode apreender tanto do ponto de vista da formação de seus quadros, quanto da história das editoras universitárias. Mas, principalmente, da práxis editorial. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Encontro celebra a Arte de Editar


Um livro perfeitamente acabado contém uma boa doutrina, apresentada adequadamente pelo impressor e pelo revisor. É isso o que considero a alma do livro. Uma bela impressão sobre a prensa, limpa e cuidada, é o que faz com que eu possa compará-lo a um corpo gracioso e elegante.
 Alonso Victor de Paredes, Institución y Origen del Arte de la Imprenta, c. 1680
A prática da edição é tão antiga quanto os primeiros volumes, ou livros em rolo. Timão (320 a.C.-230 a. C.), o filósofo cético, referia-se à Biblioteca de Alexandria como a “gaiola das musas”, onde uns “garatujadores” se punham a ler, copiar e comentar textos antigos. Conta o poeta de Fliunte que Zenódoto de Éfeso (333 a.C.-260 a.C.), o primeiro bibliotecário daquela instituição monumental, fundada na “populosa terra do Egito”, procedia a interpretações e intervenções de qualidade duvidosa ao copiar os textos da Ilíada e da Odisseia, o que colocava suas edições sob suspeita.

Nos tempos de Cícero (106 a.C.-43 a.C.) o ato de editar um texto adquire sentido mais amplo. São conhecidas as cartas que o grande orador, escritor e bibliófilo romano endereçou a Ático (109 a. C.- 32 a. C), o amigo abastado, de uma cultura helenista refinada, que não poupava recursos materiais e escravos – gregos, em sua maioria – para a edição e publicação de bons escritos. Ou seja, a arte da edição não se restringia mais ao estabelecimento de cópias dos registros antigos para a sua preservação nas bibliotecas. Tratava-se, agora, de tornar público um texto. Tal perspectiva explica o conteúdo semântico original do latim editor, editoris, ou seja, o que gera, o que produz, ou aquele que causa; e, por extensão, o autor, consoante o verbo edere, de parir, publicar, expor, produzir, segundo explicação de Emanuel Araújo.
Há, na verdade, duas ações em jogo: enquanto edere equivale a lançar um produto literário sem procurar difundi-lo amplamente, publicare descreve o processo pelo qual o texto se torna público, ou seja, quando ele escapa ao poder do autor. Nos dois casos a função editorial é imprescindível, tanto no aspecto da crítica ao texto, tanto no que toca à cópia e à reprodução do original.
A revolução de Gutenberg intensificou ainda mais a oposição entre a escrita (= original) e o texto (= impresso), na medida em que a possibilidade de reprodução mecânica do livro exigiu novos níveis de profissionalização e de padronização. A publicação de textos eruditos se torna, então, uma atividade colegiada, com ampla participação de especialistas em diferentes fases de construção do livro, desde a seleção do manuscrito, donde a importância da filologia no alvorecer da Época Moderna, passando por decisões de ordem estética, ou seja, a escolha de tipos, a definição da quadratura da página e do formato do volume, até as intervenções de natureza editorial, ou seja, a inserção de paratextos, a hierarquização das informações e, claro, a revisão do exemplar impresso. Como escreve Alonso Victor de Paredes em sua preciosa Institución y Origen del Arte de la Imprenta.