Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

FRANKFURT, OS LIVROS E A AQUARELA BRASILEIRA


NOTA PARA FECHAR O ANO DE 2013


Detalhe do Painel de uma das Salas da CBL, em Frankfurt.

A prestigiosa Feira de Frankfurt ocupou as principais páginas de nossa imprensa durante a semana de 7 a 13 de outubro. Isso porque – vale lembrar! – os brasileiros foram os convidados de honra do ano. E embora se fale mais em números e personalidades do que em livros, o acontecimento não poderia passar incólume por esta coluna.
Não falemos dos dias que precederam a Feira, nem do espetáculo triste promovido pela mídia e um certo best seller de nossa cepa. Tampouco pensemos no porvir, afinal, parece certo que no pequeno grande mundo da economia do livro as editoras brasileiras fizeram jus ao seu honorável papel.
Em Frankfurt o Brasil se expôs com todas as suas cores e nuanças. Sim, é verdade que Ana Maria Machado, Presidente da Academia Brasileira de Letras, insistiu em uma brasilidade incolor – ou insípida, a começar pela recepção fria do público ao seu discurso – quando convidou os alemães, ou os estrangeiros de modo geral a fechar os olhos para o edênico, ou o exótico e nos descobrir através de nossa literatura. O belo sexo estigmatizado pelos atributos da eterna Gabriela de Jorge Amado agradece, e até mesmo se pergunta em que medida a literatura não teria reforçado esses mesmos lugares-comuns condenados por nossa acadêmica.
Mas voltemos ao Brasil dos livros... eis a grande questão. De quais livros, então?
Do livro aberto por Luiz Ruffato, que estremeceu o auditório ao apontar com cores fortes e palavras firmes as mazelas brasileiras inscritas nas páginas de tantos outros livros, desde os seus primórdios? Das “virgens dos lábios de mel”, de nosso mais puro e genuíno brasileiro, José Alencar, exortado nas palavras emocionadas de um vice-presidente cioso de suas primeiras leituras?
Outros brasis não menos curiosos foram se revelando ao longo daquele grande evento. O Brasil exportado para a China, por Maurício de Souza. Sim, as crianças chinesas leem a Turma da Mônica, cujas revistas são adquiridas pelo governo e distribuídas nas escolas, disse-me o autor. Portanto, nenhum estranhamento diante de outro fato brasileiro exortado durante a semana: 39% dos exemplares produzidos em 2012 conformam aquisições governamentais. Diga-se de passagem, muitas dessas aquisições atingem aquele outro Brasil que não se exporta, antes, esconde-se sob o manto da democracia racial. Paulo Lins observou em entrevista à imprensa alemã que ele era o único representante negro entre os setenta autores convidados pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Ah, sim, seria preciso ainda anotar os brasis impressos por cada um dos 70 convidados. Resta saber se somando tudo teremos, afinal, o Brasil dos 70 (- 1) que aderiu à Feira de Frankfurt!
Abandonemos os números e nos curvemos diante de um império. Livros a mancheia! Livros, business, espetáculo, pouco importa. A multissecular Frankfurt Buchmesse 2013 colocou mais uma vez à prova o poder do livro. Tantos livros, um império deles, renderam-se a esses brasis de difícil amálgama. Cores fortes, cores trágicas. Apagaram-se as luzes, voltamos para a casa. E de todo o mercado, o que restou? Um Brasil que ainda aprende a ler.

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