Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Encontro em Budapest celebra as cidades e os livros

Colóquio de História do Livro e das Bibliotecas

Arquitetura, Decoração e Iconografia das Bibliotecas no Século XIX

Vista de Budapeste, com o Parlamento ao fundo, à direita, tirada de um cartão postal da cidade.

























Se é verdade que o prestígio de um país, ou de uma cidade, ou mesmo de uma universidade pode ser avaliado pela rede de bibliotecas que possui, como observam alguns estudiosos, é mister refletir sobre o papel dos livros e das bibliotecas monumentais nesse contexto de revoluções profundas nos sistemas de comunicação e informação.
O encontro promovido pela Biblioteca do Parlamento de Budapeste, com a participação da Academia de Ciências da Hungria, particularmente, do diretor geral dos arquivos e bibliotecas desta instituição, Doutor István Monok, dá seguimento a dois grandes encontros que aconteceram em Parma (2011) e Eger (2014). Os livros resultantes desses programas intensos e ricos têm demonstrado o quão rica e multifacetada é a temática da decoração das bibliotecas, tanto do ponto de vista metodológico, pois estamos diante de uma problemática transnacional e transdisciplinar, quando do ponto de vista artístico e cultural. 
Afinal, os investigadores comprometidos com essas pesquisas se voltam para uma grande questão, a saber: diante de templos monumentais que um dia testemunharam a preeminência do livro como símbolo do saber e do conhecimento, por quais meios e artifícios decifrar as sociedades contemporâneas?

Budapest, de 6 a 8 de abril de 2017
Parlamento da Hungria, Sala Béla Varga

Sala de Leitura da Biblioteca do Parlamento, Budapeste, 2015

Quinta-feira, 6 de abril
15h-15h30
Discurso de abertura:
István Bellavics, diretor geral do Museu, da Biblioteca e do Centro de Recepção do Parlamento
Szilárd Markója, diretor da Biblioteca do Parlamento

15h30-18h
Visita guiada do Parlamento, para Józef Sisa, diretor de pesquisa






Sexta-feira, 7 de abril
9h-9h15
Introdução,
Por István Monok, diretor geral dos Arquivos e Bibliotecas da Academia de Ciências da Hungria
 
9h15-10h
Delacroix e as pinturas decorativas da Biblioteca do Senado, no Palais de Luxembourg: classicismo contra a identidade nacional?, por Jean-Michel Leniaud, diretor de estudos da École pratique des Hautes Études, ex-diretor da l’École nationale des chartes, Paris

10h-10h35
Na França, as bibliotecas em Revolução: abandonar, organizar, construir (1789-1830), por Frédéric Barbier, , diretor de estudos da École pratique des Hautes Études, diretor de pesquisa no CNRS (IHMC/ENS Ulm), Paris

10h35-11h
A biblioteca da nova Sorbonne, por Christian Hottin, diretor da seção de patrimônio, Institut national du patrimoine, Paris

Sala de Leitura da Biblioteca da Academia de Ciências da Hungria, 2015
11h10-11h40 Pause

11h40-12h15
A Fideikommissbibliothek da casa de Habsburg-Lorraine: estrutura decorativa e aspectos funcionais do sítio, Rainer Valenta, pesquisador do programa «Die Habsburg-lothringische Familien Fideikommissbibliothek. Metamorphosen einer Sammlung»

12h15-12h50
Três modelos espanhóis do século XIX: a Biblioteca Nacional, a Biblioteca do Senado e a Biblioteca Real de Madrid, Maria Luisa López-Vidriero-Abelló, diretora da Biblioteca Real, Madrid

12h50-14h30 Almoço

14h30-15h05
As casas dos livros da Academia de Ciências da Hungria entre 1827 e 1988: perfil arquitetônico da instituição, por Gábor György Papp, pesquisador do Instituto de História da Arte do Centro de Pesquisas Humanas da Academia de Ciências da Hungria

15h05-15h40
As bibliotecas da Hungria: representação social e usos do espaço no século , por Zsuzsa Sidó, pesquisador do Instituto de História da Arte do Centro de Pesquisas Humanas da Academia de Ciências da Hungria

16h15-16h50
A reorganização do Collegio Romano para acolher a nova Biblioteca Nacional Central de Roma, por Andrea De Pasquale, diretor geral da Biblioteca Nacional Central de Roma

16h15-16h50
Decorar uma biblioteca, embelezar uma cidade: ciência, urbanismo e política em Strasbourg (1871-1918), por Christophe Didier, Bibliothèque nationale et universitaire de Strasbourg

Grande sala dos livros da Bibliotheca Eszterhazyana, Eger, Hungria, 2013
16h50-17h25
A exportação de um modelo: a Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro), por Marisa Midori Deaecto, professora da Universidade de São Paulo, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (USP)

18h
Visita da Biblioteca metropolitana Ervin Szábo, Budapest. Discurso de recepção por Péter Fodor, diretor geral

19h
Recepção na Biblioteca


Sábado, 8 de abril
9h-9h40
A Biblioteca Corsiana, percursos e acontecimentos no século XIX, por Marco Guardo, diretor da Biblioteca Corsiana e da Academia dei Lincei, Roma

9h40-10h15
A biblioteca do parlamento húngaro, por József Sisa, diretor de pesquisa, antigo diretor do Instituto de História da Arte do Centro de Pesquisas Humanas da Academia de Ciências da Hungria

10h15-10h50
A biblioteca central da Universidade de Tecnologia de Budapest ( formalmente König Joseph Universität), por Bálint Ugry, pesquisador do do Instituto de História da Arte do Centro de Pesquisas Humanas da Academia de Ciências da Hungria

10h50-11h30 Pausa

11h30-12h05
A influência dos grandes trabalhos arquitetônicos das bibliotecas nos séculos XIX e XX: o exemplo da Inguimbertine por meio dos projetos de reforma de seus edifícios, por Jean-François Delmas, diretor geral da Bibliothèque Inguimbertine, Carpentras, França

12h05-12h40
As transformações do Batthyaneum (séculos XIX-XX): usos e arquitetura, por Doina Hendre Biró, diretora da Bibliothèque Batthyaneum, Alba Julia (Romênia)

12h40-13h
Conclusões, por Sándor Csernus, antigo diretor do Instituto Húngaro de Paris, diretor de estudos da Universidade de Szeged

13h-14h Almoço no Parlamento

13h-14h Déjeuner au Parlement

14h-15h30
Visita guiada do Palácio e da Biblioteca da Academia de Ciências da Hungria, por Judith Faludy, pesquisadora do Instituto de História da Arte do Centro de pesquisa em Ciências Humanas da Academia de Ciências da Hungria


O colóquio é uma realização do programa EFOP 3.6.1-16-2016-00001 da Universidade Esterházy de Eger (HON)

segunda-feira, 27 de março de 2017

História do Livro - A Biblia de Lutero

LUTERO E O PODER DA PALAVRA

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/03/Lutherbibel.jpg/633px-Lutherbibel.jpg

Quais foram os livros que transformaram a humanidade?
Essa questão já foi levantada muitas vezes e, de tempos em tempos, somos confrontados com um repertório bastante eclético que dá conta da riqueza de nossa história. Os títulos mencionados vão dos textos sagrados, a Bíblia e o Corão para citar dois exemplos, aos livros científicos de Giordano Bruno, de Copérnico, de Newton, ou ainda aos de conteúdo político, como a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, embora não se trate exatamente de um livro, mas de um documento que gerou muitos livros, ou o Manifesto Comunista, de Marx e Engels. 
Mas o que eu gostaria de fazer, hoje, é de reportar a importância de um grande livro e seu potencial transformador da cultura europeia no século XVI: a Bíblia de Lutero.
A primeira edição apareceu em 1534, em dois volumes, na cidade de Wittenberg. Para se ter uma ideia da força deste livro no mercado de seu tempo, cumpre anotar que desde o seu aparecimento, até 1546, data da morte de Lutero, foram publicadas mais de 200 mil cópias, em centenas de reimpressões espalhadas por toda a Europa. Apenas a edição de Wittenberg, impressa por Hans Lufft, chegaria a mais de 100 mil cópias em quarenta anos. Isso sem contar as impressões clandestinas!
Como explicar a força de um livro que, no final das contas, custava ainda muito caro para os padrões dos leitores comuns?
É preciso compreender que a Bíblia de Lutero tem lugar especial na história da Reforma. Mais do que qualquer outro livro, pois vale assinalar que outras edições de bíblias traduzidas para o alemão já eram conhecidas, nenhuma apresentava um texto tão acessível ao leitor médio e àqueles que conheciam apenas os dialetos germânicos. Por isso a Bíblia de Lutero representou, melhor do que qualquer outro livro, o ideal luterano do “sacerdócio de todos os crentes”.
Além disso, o sucesso editorial e a força da Bíblia de Lutero devem ser compreendidos dentro do contexto da difusão da Reforma, sobretudo nessa geografia bastante particular da Europa a leste do limes renano. Ou seja, para além da fronteira do Reno.
As lutas camponesas e as palavras inflamadas desse grande reformador que foi Lutero –  que enfrentou pessoalmente o Papa e o Imperador numa disputa de palavras ímpar na história das lutas religiosas – também tiveram seu papel nos sucessos subsequentes do Livro.
Lutero foi autor de muitos outros escritos, muitos deles difundidos sob a forma dos chamados Flugschriften, ou folhas volantes. Muitas destas folhas ou destes folhetos eram bem ilustrados com o recurso da xilogravura, cuja técnica já se espalhara por todas as oficinas de impressão europeias. Num destes folhetos, com o título aproximado de Conversa ao redor da mesa, encontramos o autor, Lutero, sentado em companhia de amigos, na sala de jantar de sua casa. A esposa, de pé, serve a mesa e acompanha uma longa palestra que se desenrola naquele local. Imagina-se que o conteúdo seja exatamente aquele que Lutero, quase a título de confissão com seus leitores, coloca a nu no pequeno opúsculo.  Fala-se sobre sobre os costumes e os rituais religiosos e tudo se desenrola na imagem da capa e na imaginação do leitor que acompanha o livro nas mãos. Cf. http://histoire-du-livre.blogspot.com.br/2016/03/la-conversation-lecrit-et-limprime-une.html

Esta imagem, somada a tantas outras, nos faz mesmo pensar que a força da Bíblia de Lutero era impulsionada pela figura de seu autor e pelo grande cisma que ele promovia naquela Europa... em pleno alvorecer da modernidade.
A disciplina História do Livro é ministrada na Escola de Cominicações e Artes, no Departamento de Jornalismo e Editoração para a comunidade uspiana. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

História do Livro - Europa, berço do livro ocidental

Europa

A Europa, como o lenho das árvores, se fez por camadas sucessivas, por idades diferentes. O mais velho lenho do Ocidente, o cerne da árvore, é o que dela fora conquistado - e civilizado - outrora pelo Império romano, quando este se estendeu para oeste e para o norte até a dupla articulação do Reno e do Danúbio, de um lado, e das ilhas Britânicas, do outro, de que manteve, e mal, apenas uma parte (em linhas gerais, a bacia de Londres). 
Do outro lado dessas fronteiras, a civilização europeia propagou-se tardiamente, após a queda do Império romano: são as camadas novas e superficiais do alburno. O Ocidente medieval colonizou, no sentido nobre do termo, esse mundo próximo do seu, nele instalando suas igrejas, sues missionários. As abadias, os bispados da longínqua Roma são ali seus alicerces. 
Fernand Braudel, A Gramática das Civilizações. São Paulo: Martin Fontes, 2004, p. 324. 

A História do Livro ocidental tem seu berço na Europa. Das primeiras tábuas de argila cunhadas na Suméria à sua difusão pelos fenícios, na porção oriental do Mediterrâneo, no segundo milênio da antiguidade, vemos desenvover-se no mais velho lenho do ocidente as primeiras transformações da escrita, de seus suportes e de suas respectivas formas de conservação e sistematização. 
Os primeiros rolos em papiro surgem no Egito, no delta do Nilo e sua expansão atinge a Grécia no século VII a.C. 
Serão necessários alguns séculos e mudanças profundas na forma de conceber e guardar o conhecimento para que o livro, esse suporte tão precioso quanto necessário à salvaguarda da memória das sociedades tome sua forma definitiva... ou quase. Antes de adentrarmos nesse capítulo, é preciso conhecer de perto o Velho Continente em suas múltiplas camadas. 
É preciso observar bem seus espaços, conhecer seus múltiplos caminhos e inquirir sobre as conquistas e os cataclismos que fizeram dessa antiga princesa fenícia, que arrebatara o coração de Zeus por sua beleza, um espaço privilegiado para a difusão das grandes inovações da Época Moderna, dentre elas, o livro impresso.  

A disciplina História do Livro é ministrada na Escola de Cominicações e Artes, no Departamento de Jornalismo e Editoração para a comunidade uspiana.