Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Ao mestre Antonio Candido (1918-2017), uma homenagem

http://zero83.com.br/imagens/morre-o-critico-literario-antonio.jpg
O SOCIALISMO É UMA DOUTRINA TRIUNFANTE” Joana Tavares ( da Redação )

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.
Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.
BRASIL DE FATO – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?
ANTONIO CANDIDO – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.
O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?
Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.
Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?
Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.
O que é mais importante ler na literatura brasileira?
Machado de Assis. Ele é um escritor completo.
É o que senhor mais gosta?
Não, mas acho que é o que mais se aproveita.
E de qual o senhor mais gosta?
Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.
Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?
É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.
O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?
Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?
O senhor acha que vai?
Não sei. Eu não tenho nem computador... as pessoas me perguntam: qual é o seu... como chama?
... e-mail?
Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas... Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos... que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.
E o que o senhor lê hoje em dia?
Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.
O senhor é socialista?
Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.
Por quê?
Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.
O socialismo como luta dos trabalhadores?
O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.
Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo ?
Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.
O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?
O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).
A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?
Conheci em Poços de Caldas... essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.
E o dever da atual geração?
Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.
No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?
Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia... Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro.  Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria... Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Livro n. 6 - 3 de maio às 18h00

Livro, Um Objeto de Múltiplas Artes e Assuntos



A gravura de Maria Bonomi contaminou toda a nossa revista. Tal como a tinta que se impregna nos sulcos da madeira e no papel, sua arte atravessa as páginas e nos guia pelos desvãos de suas bibliotecas. É preciso ler as bibliotecas que Maria Bonomi criou para nós e se deixar conduzir pelas páginas impressas de livro n.6 com a mente, o coração e os poros abertos a essa experiência sensorial vibrante. Pois tanto quanto a gravura, de contaminação se trata a tipografia. Do metal pesado que se instala nas vísceras ao estalido seco que fere a superfície, tudo é contaminação no gesto da escria.
Logo no início, Conversas de Livraria apresenta um Donaldo Schüler “molhado da raiz do cabelo até às unhas dos pés”. O mestre-tradutor de Homero a James Joyce narra a experiência vivida com o neto, numa tarde molhada de primavera, na Feira do Livro de Porto Alegre. Entre livros-aquáticos, carros, trens e homens de turbante, o autor mergulha, enfim, em sua própria viagem literária, contaminado por essa “droga” da escrita (phármakon), como ele mesmo lembra, que para os antigos “reduz o território da produção oral”. 
Em Leituras, Yann Sordet busca nas antigas bibliotecas as listas, os catálogos e as bibliografias que testemunham a ordem dos livros no fio dos tempos. Jacques Hellemans contribui para nosso conhecimento sobre a imprensa nos Países Baixos espanhóis. De modo particular, o autor se volta para as publicações efêmeras e para o papel das gazetas no desenvolvimento da economia do impresso, nos séculos xvi e xvii. Jean Pierre Chauvin rende homenagem a duas grandes figuras, cujas trajetórias estão fatalmente ligadas aos livros: Ricardo Palma, historiador peruano que contribuiu para a reconstrução da Biblioteca Nacional do Chile e Claudio Giordano, colecionador, editor, escritor e membro do conselho de livro. José de Paula Ramos Jr. explica, com o exemplo concreto e bem-sucedido da Coleção Reserva Literária, o que é a ecdótica. Maria Viana traz a luz as artimanhas editoriais de Aluísio Azevedo, o autor que buscava viver de sua própria pena ...

Exposição: As Bbliotecas de Maria Bonomi


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Lançamento: LIVRO n.6

O experimentar, o vivenciar alguma coisa... eu acho que essa é quase uma missão de você transferir para o outro, de você contaminar o outro com a sua essência. 
Maria Bonomi


A gravura de Maria Bonomi contaminou toda a nossa revista. Tal como a tinta que se impregna nos sulcos da madeira e no papel, sua arte atravessa as páginas e nos guia pelos desvãos de suas bibliotecas. É preciso ler as bibliotecas que Maria Bonomi criou para nós e se deixar conduzir pelas páginas impressas de livro n.6 com a mente, o coração e os poros abertos a essa experiência sensorial vibrante. Pois tanto quanto a gravura, de contaminação se trata a tipografia. Do metal pesado que se instala nas vísceras ao estalido seco que fere a superfície, tudo é contaminação no gesto da escrita. 

Deixe-se contaminar ...

Os Editores

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Editoras Universitárias em Foco

Livros e Universidades (Editora Com-Arte)

Lançamento: 18/04/2017, Terça-feira, 17h30
Local: Auditório Freitas Nobre (CJE-ECA/USP) 

É preciso enfatizar a ideia de que as Editoras Universitárias mobilizam não só intelectuais e leitores, mas também trabalhadores do livro e pesquisadores em ciência da comunicação. Ao racionalizar a confecção do livro, as Editoras Universitárias concorrem para o desenvolvimento  das letras, das artes e das ciências em geral. Como todo artefato de cultura, o livro possui estágios. Ao sair da Editora, ele conclui uma etapa e dá início a outra – quando se inicia sua vida social. Só depois de lido e assimilado é que se encerra a operação instaurada pelo autor e pela instituição em que se ele se formou. Creio que essa cadeia forneça uma imagem da conexão da Editora com os mecanismos de produção de saber em sua universidade, donde a importância de conhecer e problematizar a temática, à luz das reflexões de profissionais e pesquisadores profundamente comprometidos com o passado, o presente e o futuro das Editoras Universitárias.Acredito ser este o maior e mais duradouro contributo deste livro. 
Plinio Martins Filho

Sumário

Edusp, História Viva,  Marisa Midori Deaecto 9

Editoras Universitárias,  Plinio Martins Filho  23

I. Editores e Escritores no Mercado de Letras  27
1. Pesquisando a História do Livro no Brasil,  Laurence Hallewell 29

2. Editoras Universitárias, para Quê?,  Paulo Franchetti 39

II. A Edição de Livros Universitários na Alemanha e na Itália  47
3. Comércio de Livros e Ciência na Alemanha: Desenvolvimento e Interdependências de uma Relação Difícil,  Ursula Rautenberg 49

4. Algumas Observaações sobre a Edição Universitária na Itália de Hoje,  Edoardo Barbieri 63

5. Livros e Universidades na Itália Centro-Meridional: Diretrizes para um Balanço,  Marco Santoro 85

III. Entre Livros de Papel e Livros Digitais: A Convivência Possível  113
6. Por Que os Livros Ainda TÍm Importância,  John Donatich 115

7. Livros, Bytes ou Ambos?,  Andreas Degkwitz 131

IV. Livros e Universidades: Produção, Circulação e Recepção das Obras Científicas  141
8. A Imprensa Universitária de Buda a Serviço da Formação da Consciência
Nacional dos Países da Europa Central, 1648-1866,  István Monok 143

9. O que é Ser Livreiro e Impressor da Universidade na França sob o Antigo Regime,   Frédéric Barbier 153

V. Livros e Edições no Mundo Ibérico  177
10. Os Universitários e os Livros Didáticos na Espanha (1845-1936),  Jean-François Botrel 179

11. O Mercado do Livro, a Edição e a Universidade em Portugal: Traços Contemporâneos,  Nuno Medeiros 195

VI. A Escrita dos Livros  221
12. Memória das Edições e Gestos de Leitura,  Jerusa Pires Ferreira 223

13. A Escrita Entre a Linguística e as Artes Gráficas,  Michel Melot 231

14. Fenomenologia, Símbolo & História no Conceito de Livro,  Ivan Teixeira 243
VII. Editoras Universitárias na França  253
15. As Editoras Universitárias Francesas: Entre o Modelo Público e o Privado, um Reconhecimento Simbólico Difícil,  Jean-Yves Mollier 255

16. As Presses Universitaires de Rennes no Atual Cenário Editorial Francês:
Uma Dinâmica Multiforme a Serviço do Livro e da Pesquisa,  Denis Rodrigues 269

17. A Formação nos Ofícios do Livro nas Universidades Francesas, Frédéric Barbier

O Lugar das Ciências Humanas  
VIII. Profissionais do Livro: Formação Humanística e Mercado Editorial, Patrícia Sorel  295

18. Baby Steps, Começar a Andar,  Valeria Sorín 297

19. O Curso de Editoração da ECA-USP: Um Projeto Democrático,  José de Paula Ramos Jr. 309

20. O Catálogo como Ferramenta Pedagógica na Formação dos Editores,  Eduardo Pablo Giordanino 315

IX. Desafios da Edição Acadêmica no Mundo Contemporâneo  329
21. Sobre o Sentido da Editora Universitária, sua Filosofia e Estratégias,  Gonzalo Alvarez 331

22. Os Desafios da Edição Acadêmica no Mundo Contemporâneo,  Bernardo Jaramillo Hoyos 339

X. Editoras Universitárias e os Desafios Impostos pelas Novas Mídias  345
23. As Editoras Universitárias e os Desafios da Publicação Acadêmica,  Mary Katherine Callaway 347

24. A Estrutura de Nossa Revolução Editorial,  Garrett P. Kiely 357

25. Um Futuro para a Publicação Acadêmica?,  Andrew Brown 367
Caderno de Imagens  377      
Organizadores e colaboradores  389

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Lançamento: Livros e Universidades - Auditório Freitas Nobre (CJE-ECA/USP)

Este livro tem por finalidade o registro das contribuições apresentadas no Simpósio Internacional “Livros e Universidades”. O evento aconteceu entre 5 e 8 de novembro de 2012, quando a Edusp (Editora da Universidade de São Paulo) celebrou seu primeiro meio século de história.



Na verdade, o presente volume traz algo mais do que a simples transcrição das conferências proferidas. Após a sistematização e reunião de artigos revistos e atualizados por seus autores, o que se tem é a soma de esforços em uma perspectiva multidisciplinar, no sentido de se apresentar questionamentos, diagnósticos e algumas palavras de esperança sobre o futuro do livro e da edição científica.
Considerando a abrangência e complexidade da temática, o simpósio foi organizado em três eixos temáticos, os quais perpassam a presente edição:
Formação editorial
Professores da Universidade de São Paulo, da Universidade de Buenos Aires e de Paris 10 – Arts et Métiers du Livre, apresentaram os programas de suas instituições de ensino e refletiram sobre os desafios da formação do editor diante de um mercado massificado, globalizado e submetido às transformações (revoluções?) das tecnologias de informação e comunicação.
Editores
Afinal, não se pode avançar no processo de autoconhecimento e de desenvolvimento da edição universitária sem a troca de experiências com profissionais da área. Profissionais brasileiros, norte-americanos e europeus contribuíram para a construção de um amplo painel sobre a constituição das editoras universitárias em seus países, suas especificidades, seus catálogos e perspectivas para um futuro próximo.
Pensadores
O livro, já se disse, é um objeto de múltiplas artes. Os organizadores consideraram de fundamental importância a criação de um eixo transversal que nos permitisse pensar a edição e a construção do livro universitário sob diferentes aspectos: da literatura, da semiótica, das artes, da sociologia e da história.
Findo o processo de sistematização de todos os artigos, duas grandes questões saltam aos nossos olhos: a primeira concerne à relação sempre complicada e não raro conflituosa entre o capital e a ciência, aqui analisada sob a ótica dos circuitos de comunicação da edição científica; a segunda questão diz respeito à capacidade de inovação das editoras acadêmicas dentro da própria tradição universitária, fato que se pode apreender tanto do ponto de vista da formação de seus quadros, quanto da história das editoras universitárias. Mas, principalmente, da práxis editorial.