Do Dicionário de Citações
Dupla delícia.O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.Mário Quintana
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
domingo, 2 de novembro de 2014
Semana da Biblioteca da Faculdade de Direito
O acervo original da Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo teve seu primeiro catálogo organizado em 1825, antes mesmo da abertura do curso jurídico no Largo São Francisco.
Constitui, nesse sentido, um monumento preservado no coração da cidade. Mais do que isso, trata-se da memória viva das práticas intelectuais e de leitura do burgo planaltino.
Confiram a programação e participem!
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
CAPITULARES, SEGUNDO GUSTAVO PIQUEIRA
DESIGNER PREMIADO NO BRASIL E NO EXTERIOR REINVENTA ARTE MULTISSECULAR
O que são as capitulares?
Segundo o Dicionário do Livro, de Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão (Edusp, 2008):
capitular [consiste] em uma compilação das atas legislativas emanadas dos reis merovíngios e carolíngios franceses. O nome provém da sequência dos capitula ou pequenos capítulos de que eram compostas [...]E, como desdobramento dessa função primordial das leis régias que se fundam em uma tradição cristã, reabilitada no humanismo carolíngio, também as letras que iniciam um capítulo, ou um título, ou ainda um nome próprio, ou lugar, foram batizadas de capitulares.
Bem sabemos que a escrita pertence ao século, ainda que seu conteúdo seja de natureza sagrada. Nasce desta simbiose entre a esfera celeste e a terrena uma tradição multissecular de iniciar textos nobres (religiosos, depois, profanos) com belas capitulares desenhadas com apuro artístico e preenchidas com cores raras, provenientes de gemas preciosas, tal como o azul tirado do lápis-lazúli, o verde da esmeralda, sem contar as folhas de ouro, motivo de ostentação de tantos manuscritos sacros.
Gustavo Piqueira segue esta tradição das belas capitulares desenhadas com graça e estilo. Refunda com o recurso da patrística o significado profundo de transformar o livro em objeto sagrado, em obra celestial. Porém, como nem tudo o que reluz é ouro e o mundo gira... as inferências seculares no meio religioso se tornaram matéria de ruptura, senão, de resposta (esculachada?) a um mundo sem fé e sem poesia. Tudo o que aí está se transforma em mercadoria.
Donde nasce a riqueza do livro Mateus, Marcos, Lucas e João ?
Da capacidade do artista de criar a beleza através de signos prosaicos (profanos) tendo como suporte um elemento nobre da tradição artística dos códices manuscritos, ou seja, as capitulares.Do escritor subversivo e consciente da velha máxima já bastante desgastada, mas que nunca se torna demasiado lembrar, de que "tudo o que é sólido desmancha no ar".
Da precisão do designer ao tirar nobreza de objetos totalmente prosaicos. Como alquimista, ele sabe que tudo é fake, desde de que não se permita olhar além do que os olhos possam alcançar.
Enfim, temos aqui um livro raro (ou dois?), original (ou plágio?), como há muito não se via no mercado das artes do livro.
E uma exposição para lá de sofisticada a realçar ainda mais a importância desta cidade do livro imersa em nossa já tradicional cidade universitária.
INAUGURAÇÃO e LANÇAMENTO DO LIVRO
29 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA
LIVRARIA JOÃO ALEXANDRE BARBOSA - SALA BNDS
NO PRÉDIO DA BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN
CIDADE UNIVERSITÁRIA
* Os cem primeiros compradores do livro ganham um pôster de uma capitular impressa em serigrafia.
PARA SABER MAIS, ACOMPANHE NA INTERNET:
IMPERDÍVEL!
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
O Livro à For da Pele
O que torna o livro único?
A posse, o amor reservado a um exemplar, a paixão, o fetiche, diriam os bibliômanos, são componentes que justificam toda a forma de luta em nome da posse de um exemplar raro.
![]() |
| Imagem de Nicolas Taffin para Livro, de Michel Melot (Ateliê Editorial, 2012) |
Também o livro-corpo tematizado por Peter Greenway, no filme Pilow Book (1996), explora esta comunhão entre o leitor e o objeto possuído, através do uso da pele humana como suporte da escrita. Escrever sobre o corpo da mulher amada faz dela um livro único. Fazer da pele humana um livro constitui uma forma radical – e tradicional – de individualização do objeto.
Notemos que os dois exemplos conferem uma intimidade rara ao ato da leitura, este momento sublime da posse. Folhear um livro constitui gesto supremo da comunhão dos corpos.
No corpo do livro se concentram os principais atributos que os tornam únicos em meio a outros exemplares. Encadernações raras enobrecem o livro. Em pergaminho ou em couro, são muitas as modalidades, das mais sóbrias às mais ousadas. O couro – ou a pele – é material flexível e resistente o bastante pare se moldar a toda sorte de exigências e gostos. O uso da pele humana nas encadernações se apresenta, nesse sentido, como expressão plena da fusão entre o corpo e a alma em um só objeto. Ela desafia a perenidade do corpo, da carne, ao selar para sempre seu destino ao da alma do livro, seu conteúdo. É o que nos faz crer as recentes descobertas realizadas em Harvard de livros encadernados com pele humana. Um volume em especial reforça esta ideia. Des destinées de l’âme, publicado em 1879, por Arsène Houssaye (1814-1896), como o próprio título indica, volta-se para um dos grandes mistérios da humanidade, a saber, o da finitude e, por extensão, o da possibilidade da vida após a morte. Uma anotação datilografada, inserta no exemplar, indica que o livro foi encadernado com a pele da "parte de trás do corpo não reclamado de uma paciente em um hospital psiquiátrico francês que morreu repentinamente de apoplexia". Do primeiro proprietário do volume, amigo, aliás, do autor, o médico de nome Bouland, a síntese entre corpo e alma do livro não poderia ser expressa com palavras mais precisas:
"um livro sobre a alma humana merecia ser inscrito sobre a pele humana".
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Sai no Brasil O Sonho de Polifilo
Um livro, um sonho
Homenagem a Claudio Giordano, bibliófilo e tradutor
“Se desejas, leitor, conhecer brevemente o que está contido nesta obra, saibas que Polifilo conta nela que viu em sonhos coisas admiráveis, e que a intitula com palavra grega, luta de amor com sonhos ”.
Uma longa viagem narrativa, publicada em 1499, parecia fechar com chave
de ouro a era dos incunábulos – nome dado aos livros impressos com tipos móveis
no período de 1440 a 1501. É bem verdade que no primeiro meio século da grande
invenção de Gutenberg a nova arte buscara honrar os mais belos códices
manuscritos até então conhecidos. E eles eram tantos, feitos com tal graça, que
custava a acreditar que braços mecânicos fariam subsistir aquilo que mãos
hábeis e divinas se atreveram a criar.
Hypteronomachia Poliphili, ou simplesmente Sonhos de Polifilo constitui um exemplar
raro. Foi impresso em Veneza, na oficina tipográfica de Aldo Manuzio. Iluminam
o texto 38 gravuras talhadas de forma engenhosa, por artista ainda
desconhecido. Sabe-se apenas que a finesse
dos traços, os quais resultam em cenas absolutamente dinâmicas e naturais
teria despertado a atenção de grandes artistas, por séculos a fio, dentre eles
Aubrey Beardsley (1872-1898), com suas musas longilíneas e sensuais.
Nesta história escrita em toscano, latim, grego e alguns neologismos do
autor, o amor sensual atinge seu clímax no encontro do herói com as musas. Mas
este se choca com o amor ideal, distante, senão, impossível... o amor de Polia
– cuja voz fará eco no segundo livro. Um confronto, uma luta, uma viagem,
enfim, “onde se ensina que tudo quanto é humano não passa de sonho”, segundo
advertência do próprio autor.
Já era o tempo de conhecermos uma edição vertida para o nosso
vernáculo. Coube a Claudio Giordano, este amante dos livros, a nobre tarefa. O
tradutor premiado de Tirant lo Blanc
acaba de trazer a lume dois belos volumes in-folio:
no primeiro, o texto traduzido; no segundo, um fac-símile da primeira edição (aldina) pertencente à coleção
Mindlin. Aos interessados, os dois volumes acabam de ser publicados pela
Imprensa Oficial de São Paulo.
O tradutor toma como base o texto em espanhol. Um “tradutor, traidor”,
pois como ele mesmo explica, “se Jorge Luis Borges pôde dizer que existirão
tantas Mil e Uma Noites quantos forem
seus tradutores, com muito maior razão se pode aplicar esta assertiva à de
Colonna (ou será de Alberti?)”. A pergunta tem razão de ser: atribui-se lhe a
autoria por meio de um acróstico formado pela combinação das letras que compõem
o início dos trinta e oito capítulos que integram o livro: Poliam frater Franciscus Colonna peramavit (“o irmão Francesco
Colonna adorou Polia”). Uma hipótese há séculos aceita, mas, sob suspeição – o
que só aumenta o mistério em torno desta obra.
“E, contada a história com digníssimos pormenores e detalhes, ao canto do rouxinol, Polifilo despertou. Adeus.”
domingo, 13 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
Entrevista com Jean-Yves Mollier
| Jean-Yves Mollier na Livraria João Alexandre Barbosa - Edusp, 2010 |
Em retorno ao Brasil, autor de O Dinheiro e as Letras discute a atualidade do debate empreendido em seu livro há vinte anos. A edição brasileira (Edusp, 2010) vem revista e atualizada.
Desde a publicação de O Dinheiro e as Letras: História do
Capitalismo Editorial, pela Edusp, em 2010, o historiador francês Jean-Yves
Mollier, pesquisador do Centre d’histoire culturelle
des sociétés contemporaines, da Université de Versailles
Saint-Quentin-en-Yvelines estreitou
ainda mais seus laços intelectuais com o Brasil. Se, de um lado, parece certa a
importância de seus escritos para a compreensão do mercado editorial
contemporâneo, o qual toca em grande medida a própria formação do campo
editorial brasileiro, por outro lado, o pesquisador tem difundido a pesquisa
brasileira no exterior.
A entrevista
gentilmente concedida a esta pesquisadora trata de questões relacionadas à sua
produção intelectual, mas também de seus contatos com os colegas brasileiros,
além de discorrer sobre uma temática que lhe é muito cara, a saber, o poder do
livro político, sobretudo, do livro de esquerda e os possíveis pontos de
contato entre a França e o Brasil. A questão foi abordada por ocasião do evento
“Memórias Militantes”, que ocorrereu na Tenda Cultural Ortega y Gasset entre os
dias 1 e 3 de abril, onde houve o lançamento do livro Edição e Revolução no Brasil e na França, organizado por Jean-Yves
Mollier e Marisa Midori Deaecto, em uma coedição entre a Editora da
Universidade Federal de Minas Gerais e a Ateliê Editorial.
No dia 1 de abril, às
14 horas, o historiador promoveu um bato-papo sobre O Dinheiro e as Letras, na FFLCH-USP, prédio das Letras, sala 261.
O encontro foi aberto e destinado a todos os interessados.
Agradecemos a todos os participantes que
concorreram para o êxito de nossas discussões e postamos, abaixo, a entrevista com
Jean-Yves Mollier, publicada de forma resumida pelo Jornal da USP, na semana de 1 a 5 de abril e que agora segue na íntegra.Professor, o senhor tem visitado o Brasil há pelo menos duas décadas. Como o senhor avalia os progressos observados no campo de pesquisa em História do Livro em nosso país ?
Se tomamos como ponto de partida a publicação de Laurence Hallewell, O Livro no Brasil (Sua Historia), em 1985, o qual se apresenta, em certo sentido, a certidão de nascimento da pesquisa sistemática no domínio da história do livro, da edição e da leitura, três dimensões inseparáveis, é possível mensurar o caminho percorrido. Existe hoje uma verdadeira biblioteca brasileira consagrada à história do livro e dezenas de pesquisadores ilustram a vitalidade deste setor. Devo evocar, ainda que muito brevemente, os trabalhos publicados ou coordenados por Márcia Abreu, da Unicamp, ou aqueles realizados por Eliana Freitas Dutra na UFMG, os de Aníbal Bragança e seus dois seminário brasileiros, intitulados « Livro e História Editorial » – as duas versões do Lihed, de 2004 e 2009 – realizados na UFF e, claro, na USP, onde Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho animam uma pesquisa extremamente dinâmica que encontra, com o apoio da Edusp, uma saída imediata. Com eles Gabriela Pellegrino Soares, Nelson Schapochnik, Sandra Vasconcelos e outros pesquisadores produziram, nos últimos anos, pesquisas que provocaram renovações de fundo que nos permitem conhecer melhor a história do livro no Brasil. Devo ainda somar, a este grupo, os trabalhos de um antropólogo argentino, Gustavo Sora e de pesquisadores portugueses, dentre eles, João Luís Lisboa, José Santos Alves e, certamente, de outros brasileiros igualmente produtivos, como Marisa Lajolo, Tania Bessone, Orna Levin, Lúcia Bastos, Lúcia Granja, Tania Regina de Luca, Luís Carlos Villalta e Gisele Venâncio. Todos ilustram pela diversidade de seus trabalhos, publicados entre 1990 e 2014, a renovação profunda da historiografia neste campo da pesquisa histórica nestes dois últimos decênios.
Falemos um pouco sobre o livro O Dinheiro e as Letras e seu caráter inovador, ao conciliar dois elementos que se apresentavam até aquele momento, como um verdadeiro tabu entre os intelectuais.
Quando eu tomei a decisão de publicar O Dinheiro e as Letras: História do Capitalismo Editorial, em 1988, eu queria obrigar os pesquisadores a um retorno aos fundamentos de nossa disciplina e à lição que Lucien Febvre havia traçado em 1958, a qual foi logo em seguida tomada por Henri-Jean Martin, a saber, o livro se define por duas tensões aparentemente opostas, primeiro, “O livro, esta mercadoria” (Capítulo 4 de O Aparecimento do Livro) e, em seguida, “O livro, este fermento” (o Capítulo 8). Diante de uma tendência muito presente ente os literários, mas também entre os historiadores de supervalorizar o segundo aspecto, era necessário lembrar que o livro se insere nos circuitos da produção mercantil, que ele obedece a lógicas de tipo econômico e, claro, financeiro e que, enfim, não se pode compreender intimamente um certo número de realidades culturais sem este pano de fundo. Eu sempre tomo um exemplo preciso para ilustrar a riqueza e a originalidade desta abordagem. Os especialistas Gustave Flaubert escreveram por um longo tempo que o manuscrito de Madame Bovary renderam ao autor oitocentos francos, o que renderia aproximadamente nos dias de hoje a soma de quatro mil euros. Ora, para se compreender as razões de um tal valor, é preciso saber que o preço médio do manuscrito de um iniciante nas letras era então fixado, em Paris, no valor quatrocentos francos, ou seja, como o volume era dividido em dois tomos, ele recebeu o dobro, duas vezes quatrocentos e não simplesmente oitocentos! Flaubert recebeu aproximadamente a mesma soma percebida pela Condessa de Ségur, nos anos de 1857-1858. Se estas somas parecem sem sentido, isto ocorre porque nós perdemos de vista a lógica que regia o mercado do livro neste período, em Paris. Obrigar-se a considerar estas realidades econômicas, até mesmo triviais, quando consideramos o caráter eminentemente literário desta grande obra, implica em se dar os meios de evitar qualquer tipo de anacronismo e de confundir um julgamento de ordem moral com a análise científica de um problema histórico…
Desde 1988 eu tive muitas oportunidades de
prolongar minhas análises sobre as relações entre o dinheiro e as letras, de
formar dezenas de pesquisadores com seus próprios métodos e de estender minhas
análises tanto para o século XVIII, quanto para os séculos XX e XXI. Tudo isto
despertou em mim o interesse pelas concentrações capitalistas que modificaram
radicalmente o mundo da edição, no momento em que elas suprimiram numerosas
estruturas familiares e as transformaram em sociedades anônimas. Interessava-me
averiguar, sobretudo, a substituição que se observa, após 1990, do capitalismo industrial
para o capitalismo financeiro, o qual se aproximava das antigas editoras
familiares para as transformar em grandes estruturas do tipo McMillan, na
Inglaterra, Hachette, na França, ou Mondadori, na Itália. Estou de pleno acordo
com André Schiffrin, falecido muito recentemente, ou com Gisèle Sapiro, pois
nós trabalhamos com a globalização em curso no mundo e com os riscos em que ela
colocou as editoras de criação, de práticas artesanais e livres de todas as
cargas e forças que atuam sobre o mercado.
Como
o senhor avalia a recepção de O Dinheiro
e as Letras no Brasil ?
Meu trabalho fez escola entre os
pesquisadores que se interessam pela dimensão econômica do livro, pelas
condições de produção e de circulação, as quais determinam, em parte, a
recepção, na mesma medida em que concorre na definição dos horizontes de
expectativas dos leitores. Eu penso, portanto, que ele seja também muito útil e
utilizado pelos especialistas de Literatura e pelos Sociólogos que dispõem de
materiais suscetíveis a confrontar ou modificar a percepção de certas
realidades literárias. Publiquei recentemente na Revue d’histoire littéraire de la France um artigo consagrado à
escrita de Pierre Loti, escritor rejeitado pelos surrealistas no início do
século XX sob o pretexto de que sua obra se destinava ao grande público. Ora,
ao analisar as tiragens e a venda de Pêcheur
d’Islande, um de seus romances mais lidos, compreende-se bem que foi a
passagem deste obra para o circuito de grande difusão, em 1907, que provocou a
rejeição de um escritor que até aquele momento era considerado como acadêmico e
clássico. Sua obra não era, nessa medida, alvo de desqualificação por parte
daqueles que estavam ao seu redor no início do século XX e é divertido
constatar que os especialistas da crítica literária reproduziram um julgamento
historicamente datado sem jamais se perguntar sob quais condições se deu o
declínio aos infernos deste romancista sulfuroso, cujo primeiro romance,
julgado excessivamente homossexual – Behidgé,
antes de se tornar Aziyadé – foi reescrito
para satisfazer o editor que temia os golpes da censura caso ele permitisse o
livre curso da sexualidade desabrida de um escritor iniciante (em 1878)...
Parece-me que a metodologia que eu proponho pode ser facilmente transportada
para o Brasil, mesmo se os arquivos das editoras sejam menos conservados e
acessíveis do que os franceses. Meu diálogo permanente com os editores
brasileiros me convence cada vez mais de que O Dinheiro e as Letras, cuja edição brasileira foi beneficiada de
uma atualização importante em 2008, mantém-se um livro muito folgadamente transferível
para o Brasil.
Faz sentido, então, dizer que independentemente do caminho que se escolha para as investigações em História do Livro, o pesquisador não pode prescindir do econômico? Em que medida a globalização e o aparecimento de novas mídias têm seu peso nessa abordagem?
Parece-me que tanto no Brasil, quanto na
França, torna-se urgente analisar as mutações que transformam a economia do
livro integrando-a aos circuitos internacionais. O livro também passa pela
mundialização da economia e a chegada dos novos suportes digitais deve acentuar
este fenômeno, o que permite a Amazon, ao Google e aos novos atores do livro de
levar uma parte importante da cadeia das profissões do livro. Isto não quer
dizer que o livro impresso vai desaparecer, mas isto significa que as livrarias
vão encontrar concorrentes fortes, que os editores verão surgir em seus
caminhos grupos prontos para lhes tomar uma porção significativa de seus
mercados, ou até mesmo de lhes tomar o lugar no mercado. O fato de um dos best sellers de 2013, na França, As cinquenta cores do cinza, ter sido
antes concebido para o comércio digital demonstra bem o perigo que ameaça o
sistema editorial. Se editar não mais significa escolher, ajudar o autor a
aprimorar seu texto para o transformar em livro, ou ainda somar alguma coisa ao
manuscrito para o tornar, assim, um fermento, uma criação artística,
científica, histórica, ou outra coisa, então a edição terá vivido seu tempo e
desaparecerá em proveito da simples publicação estandardizada, formatada e
pronta para ser digerida.
Quais são os teus compromissos no Brasil, durante esta curta jornada?Além de discutir com os pesquisadores brasileiros, na USP, os desdobramentos de O Dinheiro e as Letras, a temporada, a curta temporada, vale dizer, conta com o lançamento de Edição e Revolução, coordenado Marisa Midori Deaecto e por mim. Trata-se de uma produção original, pois quatro pesquisadores brasileiros e quatro pesquisadores franceses se reuniram em torno de uma problemática idêntica – a relação estabelecida pelo Partido Comunista de cada um de seus países e o livro, no período de 1920 a 1980 – e tentaram mostrar as respostas dadas tanto pelo PCB, quanto pelo PCF aos problemas levantados pela agitprop (o programa soviético baseado na agitação e propaganda para a difusão de sua ideologia), a cultura de massa e a formação dos militantes. É importante observar que meu contato permanente com Marisa Midori, que passou vários meses em minha universidade enquanto ela preparava sua tese de doutoramento em História, facilitou a reunião de duas equipes voltadas para este novo livro que organizamos e, em certo sentido, as minhas várias temporadas na USP, o que reforçou minhas ligações com os pesquisadores brasileiros.
Assinar:
Postagens (Atom)





