Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Nos rastros de Giambattista Bodoni

Nesta próxima quinta-feira, dia 22 de outubro de 2015, Andrea de Pasquale, diretor geral da Biblioteca nacional da Itália (Roma) defenderá tese intulada "Jean-Baptiste Bodoni, imprimeur de l'Europe", pela École Pratique des Hautes Études. O trabalho fi dirigido pelo professor Frédéric Barbier traz uma fortuna documental totalmente inédita, fruto de pesquisas realizadas durante sua vida profissional, como diretor das Bibliotecas de Parma e de Milão, cujos acervos são ricos em peças bodonianas (edições, correspondências e, no caso de Parma, toda a herança da prestigiosa tipografia que rendeu à Bodoni fama internacional).
A Europa de Bodoni constitui um tema rico, na medida em que não estamos a tratar puramente de um conjunto geográfico, mas político. Portanto, trata-se de reconstituir uma geopolítica cujas fronteiras móveis eram demarcadas pelas investidas de Napoleão Bonaparte. Nesse concerto geopolítico complexo, em que a aristocracia busca novos espaços, tendo sido refreada pela Revolução e revoluções europeias, Bodoni faz seu nome e sua fama, como o tipógrafo-editor que tinha nessas velhas classes endinheiradas, ma non troppo e no clero sua principal clientela.

O juri será composto pelos professores e professoras


Frédéric Barbier, EPHE, França, Itália
Lodovica Braida, Universidade de Milão
Pedro Cátedra, Universidade de Salamanca, Espanha
Marisa Midori Deaecto, Universidade de São Paulo
Jean-Michel Leniaud, EPHE e Director da École de Chartes, França
István Monok, Universidade de Szeged, Hungria

Local

École nationale des chartes
65 rue de Richelieu 
75002 Paris 
Salle Léopold Delisle (rez-de-chaussée)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Impressões Paulistanas...

Bandeirianamente

Matriz da Sé e Fachada da Livraria e Papelaria de A. Louis Garraux. São Paulo, 1862, por Militão Augusto de Azevedo
O tempo passa ligeiro e os assuntos escorrem pelas páginas. Escrever sobre livros é tarefa sem fim.
Houve um tempo em que as livrarias ficavam nas ruas e o transeunte, por mais absorvido que estivesse em seus pensamentos, via-se impelido a entrar. Uma Estrela da Manhã com as folhas amareladas no fundo do corredor já era sinal de dia ganho.
Muitas bibliotecas particulares se formam, assim, bandeirianamente, nos interlúdios de caminhadas descompromissadas. A paisagem se torna ainda mais poética, quando as livrarias e sebos percorridos se distribuem nos desvãos de uma cidade empoeirada e invernal, como a São Paulo de outros tempos. Percorrer os olhos pelas estantes é viajar no tempo, nas tardes frias e escuras de julho, quando se caminhava sem pressa...
Na 15 de Novembro, a fachada de uma Garraux reinventada nas páginas de uma pesquisa acadêmica; na São Bento, um sebo de acesso difícil, por entre os andares de um edifício robusto; na rua São Francisco, toda a literatura da Academia Paulista de Letras, a Paulística, a Biblioteca Histórica Paulista, a Documentos Brasileiros, primeiras edições nem sempre bem cuidadas, mas sem dúvida cobiçadas, que saíam silenciosas em uma sacolinha de plástico, sob as recomendações de um vendedor sisudo e de bom coração; na Pça. João Mendes os sebos foram sempre em maior número. Tantos que não cabiam no espaço da tarde.
Os livros perdidos compõem um capítulo importante na memória dos sebos e livrarias da cidade. Uma primeira edição de Marx, sorrateira, deixou o gosto amargo do livro que se perdeu. A Cidade das Letras estava lá, por que, então, demorou tanto para ser vista? A viagem ao Reno que nunca se completou. As primeiras edições que não se realizaram. E os franceses, com suas edições encadernadas, suas folhas de rosto impressas em tipografia elegante, suas composições austeras e impecáveis, papeis de boa qualidade, volumes que perfaziam bem os ideais de uma Revolução universal que jamais se efetivou. Mas que se acreditava possível, embora distante. O historiador não tem pressa!
Haveria muito a se contar sobre os volumes escondidos, embaralhados, misturados. Quanta tensão, afinal, não se depositou nas estantes de um sebo movimentado do velho centro?
Finda a jornada. Ao atravessar a Pça. Clóvis, caminho certo para um bom café paulistano no Páteo do Colégio, impossível não se rir dos vinte e cinco cruzeiros e do retrato.
Já se disse nesta coluna que os livros são a memória do mundo. Das civilizações. No tempo dos homens, os livros constituem parte de sua memória e de sua história. Como ensina um grande bibliófilo, o livro que depositamos em nossas estantes se tornam indivíduos com suas qualidades e defeitos. Eles são únicos, porque guardam, além de tudo, uma história que é só nossa.

“Obrigado, Mario, pela tua companhia”.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Novidade Editorial

Ursula Rautenberg, Reclams Sach-lexikon des Busches.
Stuttgart: Reclam, 2015, 476 p.

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Os dicionários são instrumentos tão necessários aos escritores quanto os tijolos o são para os pedreiros e o couro para os sapateiros, teria escrito Graciliano Ramos. A ideia, a propósito, foi tomada ao Dicionário Universal de Citações, de Paulo Rónai, esta ferramenta preciosa para escritores de todas as idades e de diferentes recursos linguísticos. 
Dicionários analógicos, de antônimos, de sinônimos, além, é claro, dos dicionários lexicais - preferencialmente em edições e autores diversos - não podem faltar a uma biblioteca que se prese. 
Além desses instrumentos que nos auxiliam no manejo da língua, há os dicionários especializados. Nesse tópico, os dicionários do livro devem ocupar um lugar de prestígio entre os bibliófilos e bibliômanos. Afinal, não há amante do livro que não se perca nas páginas de um bom dicionário do gênero.
A reedição aumentada e atualizada do Reclams Sach-lexikon des Busches, de Ursula Rautenberg, diretora do Centro de Estudos do Livro da Universidade de Erlangen-Nuremberg, convida a uma viagem para lá de emocionante no universo bibliológico da Alemanha. Ao percorrer suas páginas adentramos em um corpus lexicográfico pouco explorado nos países latinos, mas que se mostra mundializado, senão, latinizado, desde suas origens. 
A imprensa tem seu berço em Mainz, antiga Mogúncia, nas bordas do Reno. Portanto, na porção ocidental e latina das cidades germânicas. Ela guarda, é certo, as marcas profundas de suas raízes, as quais se transferem nas palavras que nomeiam as coisas do livro. Por exemplo, o ato de imprimir denomina-se drucken a partir do qual se compõem suas variantes. Também a passagem operada na cultura anglo-saxã do Liber ao Book se fez na Alemanha, prevalecendo a palavra Buch para designar o livro. Nesse ponto, uma hipótese de difícil comprovação, mas nem de todo inútil, merece ser anotada: o objeto é nomeado segundo a raiz linguística local - e não a matriz latina - sugerindo uma posse muito mais próxima, ou até mesmo rotineira, daquele que o detém e o nomeia. Fiquemos apenas nestes dois exemplos, dentre os 2.000 verbetes que conformam o dicionário.
Ao folhear as páginas, as transferências linguísticas vão logo se colocando à prova do tempo. 
É que o livro impresso viajou da Renânia para a outra Europa, aquela das cidades vibrantes do Mediterrâneo, particularmente Veneza, o grande centro impressor já no primeiro meio século de sua existência (1450-1500). Nesse mundo latinizado, no qual a anatomia dos códices manuscritos já era suficientemente conhecida para se deixar substituir por novos termos que confrontassem duas técnicas de escrita, a saber, a manuscrita e a tipográfica, vingou a nomenclatura fundada na tradição. O primeiro léxico tipográfico, nascido entre os germânicos, adotou, então, a nomenclatura vigente, "europeia", "internacional", ou seja, latina. 
Transferências outras se deram no curso dos séculos, conforme o estabelecimento dos Estados Modernos e de suas línguas vernáculas, que não demoraram a se tornar línguas oficiais. Assim as novas tecnologias foram batizadas segundo suas origens nacionais, adquirindo, desde então, nomenclaturas locais. Isso até que uma vez mais o campo se embaralhou e a disputa lexical se tornou também uma disputa pela hegemonia na economia do livro. Como estamos a tratar de um componente que incorpora o espírito à matéria, vale notar que desde o século XVIII se criou uma relação complicada entre a língua filosófica hegemônica, ou seja, o francês, e aquela expressa na primeira nação industrial e imperialista, o inglês. Donde as intersecções linguísticas observadas na época contemporânea.
Cumpre ressaltar, ainda, que um dicionário do livro tem sempre um caráter ambivalente. É técnico ao extremo, quando descreve e exemplifica processos relacionados à sua indústria - desde as manufaturas às maquinofaturas. Porém, ele não deixa de apresentar elementos sócio-culturais de notável importância, os quais vão desde a apreensão do leitor e das instituições de leitura, até a forma como se dão nomes às coisas.
Sachs-lexikon se apresenta, portanto, como uma ferramenta muito útil e rica, mesmo para aqueles que não dominam o idioma teutônico.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Fundação Biblioteca Nacional Lança Revista do Livro

"Este número da Revista do Livro marca a retomada desta publicação, que, lançada em 1956, tornou-se referência entre as publicações culturais brasileiras. Nos 14 anos em que circulou desde sua  criação, vinculada ao antigo Instituto Nacional do Livro, assim como nos oito que se seguiram ao relançamento em 2002, a revista reuniu um time de intelectuais de ponta, que refletiram em suas páginas sobre a memória e a atualidade cultural brasileiras.
É com espírito de celebração, assim, que promovemos e celebramos a sua volta depois de uma interrupção de quatro anos. A estreia desta terceira “dentição” – tomando de empréstimo a expressão modernista – coincide com uma data fundamental na história da Biblioteca Nacional, a do bicentenário de sua abertura ao público. É que, embora a data oficial de fundação da Biblioteca Nacional seja 29 de outubro de 1810, foi somente em 1814, após a organização do acervo, que a casa foi franqueada aos leitores". Editorial
SUMÁRIO

ENTREVISTA / Ferreira Gullar
As bibliotecas do poeta
Por Maria Amélia Mello e Sheila Kaplan

DESAFIOS DA BIBLIOTECA HOJE
O passado a serviço do futuro – Renato Lessa
Memória central do conhecimento – Maria Inês Cordeiro
Funções mais amplas e complexas – Lena Vania Ribeiro Pinheiro
Conselho de bibliotecas – Ngian Lek Choh

UM SONHO QUASE IMPOSSÍVEL - Rodrigo Mindlin Loeb

ENSAIO VISUAL / Cristiano Mascaro
Minha dívida com os livros

MEMÓRIA DIGITAL BRASILEIRA
Angela Monteiro Bettencourt, Neusa Cardim da Silva, Vinicius Pontes Martins

SANTA NÃO SOU - Edna Lucia Cunha Lima

DEPOIMENTO / Antônio Carlos Secchin - Esse claro objeto do desejo

NEM ESCRAVA, NEM ISAURA – A MUSA PORNOGRÁFICA DA POESIA DO ROMANTISMO
Irineu E. Jones Corrêa

ALEXANDRE EULÁLIO: UM POLÍGRAFO DOS TRÓPICOS
Flora De Paoli Faria

REPRODUÇÃO DE CARTAS A EDUARDO PRADO
Alexandre Eulálio

EXTRAORDINÁRIO PALÁCIO
Álbum de construção da Biblioteca Nacional

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE
Luiz Antonio de Almeida

LUPICÍNIO RODRIGUES, DOUTOR EM DOR DE AMOR
Elizete Higino

IMAGENS, NARRATIVAS E SENSAÇÕES PARTILHADAS
Pedro Vinícius Asterito Lapera

LITERATURA REVOLUCIONÁRIA NO BRASIL
Marisa Midori Deaecto

O LIMIAR DA FICÇÃO
Andé Luiz Barros da Silva

PEQUENO GLOSSÁRIO DO LIVRO
Eliane Perez, Rosângela Rocha Von Helde, Andréa de Souza Pinheiro, Silvia Fernandes Pereira

TRÊS NOTAS SOBRE O LIVRO DE ARTISTA
Sérgio Bruno Martins

O LIVRO FOTOGRÁFICO NO BRASIL – ALGUNS COMENTÁRIOS
Joaquim Marçal Ferreira de Andrade

CÓDICE 2437: BIOGRAFIA DE UM MANUSCRITO
Maria Olívia de Quadros Saraiva

ÁRVORELIVRO
Bruno Liberati 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

As Bibliotecas e a História dos Homens

“Se tem uma biblioteca com jardim, você tem tudo”

Na grande sala Filosófica, na biblioteca de Strahov (Praga), pintada sob a forma de um brasão,
vida e morte se inscrevem nesta bela alegoria (Fotografia da Autora, 2013)
A passagem de Cicero (106 a.C. – 43 a.C.) se situa em um contexto particularmente importante para a história da cultura romana. O próprio poeta organizara pelo menos duas coleções particulares. A primeira foi reduzida a brasa e a outra, ao que parece, sobreviveu ao seu patrono. É que as crises políticas e as guerras sucumbiam não apenas a energia dos homens, mas também seus livros.
Ocorre que Roma viveu nesse período um surto de bibliotecas. O modelo era Alexandria. Conhecemos a afeição especial que Júlio César (100 a.C. – 44 a.C,) devotara a esta cidade brilhante, cravada nas margens férteis do delta do Nilo, com a face voltada para o Mediterrâneo. Ele não ignorava a importância que a dinastia dos Ptolomeus devotara a este projeto grandioso de conservar os melhores livros do mundo em um só templo. Era conhecido o cuidado dos reis para com a coleção, as acomodações do edifício, seus bibliotecários e os gastos necessários para manter e fomentar as estantes (ou nichos) onde eram depositados os volumes. Da mesma forma que não se ignorava a generosidade com que os reis remuneravam seus empregados e recebiam os sábios com um lauto banquete.
Júlio César cobiçava Alexandria, o Museu, os livros e sua musa, Cleópatra (69-30 a.C.). Mas não descuidava de Roma e de sua vida cultural. Pretendera implantar na capital latina uma biblioteca pública, seguindo o modelo alexandrino. Nomeara Cícero como mentor intelectual do projeto. A ideia vingaria mais tarde, noutra conjuntura. Pouco importa. Na verdade, salta aos olhos a preocupação de um homem belicoso, figura política de grande proa e de pretensões imperiais, com uma instituição destinada a prover os cidadãos de boa leitura. Pois era disso que se tratava. É certo que as bibliotecas gozavam nesse momento de uma aura elitizada, senão, hedonista. Jardins e bibliotecas se compunham dentro das mansardas de romanos endinheirados. Dirá Sêneca (4 a.C. – 6 d.C), não sem um grau de despeito, que bibliotecas e termas eram ornamentos requisitados entre os novos-ricos, muitos deles analfabetos. Havia, contudo, espaço para recintos mais austeros, nos quais a leitura era um fim, embora ela não dispensasse um jardim e boas companhias. A moda pegou tanto que, às vésperas de sua queda, em 476 d.C., Roma contava com vinte e nove bibliotecas públicas.
O número não surpreende mais do que a certeza da vitória dos livros, estes mesmos que periclitaram noutros tempos. Durante a Alta Idade Média, por exemplo, quando as invasões assolaram as cidades, seus homens e seus livros, relegando bibliotecas opulentas a coleções esmirradas, encerradas em mosteiros distantes. A ação desses estadistas da Antiguidade espanta, ainda mais, diante da constatação de que cidades brasileiras ainda são desprovidas de bibliotecas. Pior, muitas fecham. Morrem de inanição. Ao dissertar sobre a natureza do papiro, Plinio, o ancião (23 d. C. – 69 d. C.) lembra que o “papel é essencial para o desenvolvimento da civilização, ao menos para fixar suas lembranças”. De forma análoga, pode-se dizer que quando se fecham as portas de uma biblioteca, portas da civilização ficam cerradas. O que resta? O vazio da lembrança.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Pausa Literária

Instituto de Estudos Brasileiros
&
Departamento de Teoria literária e Literatura comparada
promovem
                                                                    
VANGUARDAS ARTÍSTICAS E NACIONALISMO COSMOPOLITA


Prof. Fernando Cabral Martins (Universidade Nova de Lisboa)

1. 
A definição de Vanguarda versus Modernismo: uma arte de montagem e mistura versus uma arte de pureza e autonomia. A performatividade da Vanguarda  versus formalismo modernista.
Continuidade e inter-relação entre Vanguarda e Modernismo: a montagem como criação de mundos necessita da consciência material das formas. 
Definições fundadoras e argumentações teóricas de referência.
Os casos de Orpheu e de Klaxon

2. 
A importância da experiência parisiense de Mário de Sá-Carneiro. As aventuras europeias de Almada Negreiros (Paris e Madrid). A experiência brasileira em António Ferro e o Modernismo como diluição popular da Vanguarda. 
O Modernismo brasileiro e a sua componente nacionalista: Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
O nacionalismo cosmopolita como síntese poético-crítica em Fernando Pessoa.


Fernando Cabral Martins é professor de Literatura Portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Autor de inúmeros artigos e livros sobre a literatura e a arte portuguesas: Cesário Verde ou a Transformação do Mundo (1988), O Modernismo em Mário de Sá-Carneiro (1994), O Trabalho das Imagens (2000), Julio. O Realismo Mágico (2005). Desde 1996, organizou pela editora Assirio e Alvim várias edições de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros. Coordenou o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (2008) e também publicou livros de ficção.