Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

sábado, 2 de abril de 2016

Museu de Sant'Anna, Tiradentes (Minas Gerais)

Sant'Anna, lede por nós! 

Imagem do Museu de Santa Ana, Tiradentes, Minas Gerais. Julho de 2015
O Museu de Sant’Ana se apresenta como dessas pequenas joias incrustadas nas Minas Gerais. Ele ocupa o edifício da antiga cadeia, na cidade de Tiradentes, e faz jus ao que há de mais moderno em termos de museologia. A coleção foi reunida por Angela Gutierrez, que a doou ao Iphan e participou de perto da construção do museu.
Por todas as partes da exposição a imagem de Sant’Ana se multiplica: Sant’Ana Mestra, a Mãe Ancestral, evoca “o poder gerador da terra com o da mulher”; em Santas Mães, vemos os cuidados de Ana com Maria e de ambas com o menino Jesus; em Sant’Ana Guia, imagem recorrente no Nordeste, Ana toma a filha pela mão e a conduz, com “amor e segurança, no rumo de seu destino de mãe do Salvador”; na Sacra Parentela unem-se em torno de Ana, matriz geradora, Maria, José, Jesus e Joaquim. Há ainda duas outras seções dedicadas aos mestres santeiros, nas quais se veem trabalhos de artistas eruditos e populares de diversas regiões do Brasil: do Nordeste açucareiro, das Minas do ouro e da São Paulo cafeeira. É bem verdade que em São Paulo a imagem de Sant’Ana fora trazida bem cedo pelos bandeirantes e primeiros moradores que a cultuaram como elemento de salvaguarda e proteção. As “paulistinhas”, como ficaram conhecidos esses santinhos de terracota, foram difundidas nos séculos XVII e XVIII pela capital planaltina, Itu, Guaratinguetá, Vale do Paraíba e Santana do Parnaíba. Há, enfim, um espaço reservado para a Fatura Negra, ou seja, para a imaginária afrodescendente, com as releituras e subversões características das manifestações do sincretismo observadas durante o Brasil escravocrata.
Imagem do Museu de Santa Ana,
Tiradentes, Minas Gerais. Julho de 2015
Mas a imagem de Sant’Ana, a segunda santa mais devotada do Brasil, possui um traço bastante peculiar e inquietante: ela traz consigo um livro. Ei-la tomando a lição de Maria, que o lê, nas mãos da mãe; noutra imagem é Maria quem segura o livro para a mãe, atenciosa; noutra, as duas mantêm o olhar distante, embora o livro permaneça em suas mãos. São muitas as variantes, todas à mercê da criatividade do artista. Pouco importa, a mestra e guia tem sempre à mão um livro. A historiadora Maria Beatriz de Mello e Souza situa a origem da imaginária de Ana no século XIII, possivelmente na Inglaterra. Ela coincide, é fato, com o período em que se desenvolveu no ocidente o culto mariano. Porém, é preciso situar essas esculturas no contexto colonial brasileiro. Por que uma santa guia com um livro na mão cairia nas graças de senhores, livres pobres e escravos? Para a historiadora, a santa mestra e guia teria concretizado no imaginário das gentes a hierarquia social dominante, a saber, a figura da matriarca, da senhora branca protetora dos engenhos, das minas de ouro e dos cafezais. Outrossim, ela reforçaria a ideia da educação das moças fundada na valorização da pureza e em alguns rudimentos escolares, ou seja, boas leituras, domínio das quatro operações aritméticas e prendas domésticas.
Ocorre, todavia, que Sant’Ana conquistou a fé do povo. Como diz uma canção: “Reza, pois, pela mãe oprimida/Que tem filhos sem pão e sem lar”. Numa sociedade tão pungida, onde se mantém rígida a fronteira do Brasil que lê e o outro, resta dizer: “Sant’Ana, lede por nós”.

Artigo publicado em versão impressa na Revista Brasileiros, abril de 2016.
Para saber mais, acesse o link http://museudesantana.org.br/
 


quarta-feira, 30 de março de 2016

LANÇAMENTO

É hoje, ainda dá tempo!
O maior "amigo do livro" do Brasil lança hoje novo livro.
Não percam! É o melhor da atual safra editorial.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Como se faz uma grande editora?

"Livros a mancheia", Imagem da 17a. Festa do Livro, 2017.
As editoras universitárias nascem como bastiões das universidades, desde os seus primórdios. Embora Oxford e Cambridge possam reivindicar sua primazia na cartografia europeia dos livros acadêmicos, outras universidades conheceram muito cedo seus braços editoriais. Elas não eram oficialmente ligadas às instituições que serviam, tampouco ostentavam seus nomes, mas se constituíram em áreas contíguas às universidades, com editores especializados em produções eruditas destinadas a docentes e alunos. Um passeio pela rue Saint Jacques, em Paris, diz muito sobre esta relação tão próxima entre livros e universidades.
Muitos séculos se passaram e da mesma maneira que não se imagina, hoje, uma universidade sem livros e bibliotecas, fica difícil conceber uma universidade sem o seu suporte editorial.
As origens das universidades no Brasil remontam a uma história recente. E, também, suas editoras. Hoje elas são numerosas, tanto quanto as intituições de ensino superior. É possível observar, de modo ainda muito superficial, que os catálogos das editoras universitárias sustentam certo ecletismo, este traço tão cartacterísticos das instituições e das formas de pensamento americanas.
Mas, aqui, a velocidade com que as instituições universitárias e editoriais tiveram que responder aos surtos modernizadores - pois a cultura e a educação não acompanham ciclos, mas surtos - e aos desenvolvimentos do mercado, tudo isso fez com que seus catálogos fossem igualmente ecléticos. Não se organiza uma editora no Brasil exclusivamente por uma linha editorial. Nem nas instituições universitárias, nem no mercado. Não há fôlego e nem demanda suficiente para isto. Da mesma forma que é uma falácia sustentar que uma editora universitária deve refletir a produção da universidade. Ela reflete, claro, mas é impossível identificar todas as linhas de pesquisa ou uma só pelo seu catálogo. Do contrário, a crítica parece se inserir no rol das queixas de descontentes que não tiveram seus livros publicados.
Antes, deve-se perguntar: Qual produção? Das Humanidades? Das Exatas? Das Biológicas? De quais setores? Dos mais rentáveis? Dos melhor pontuados? Sob quais critérios de avaliação? Ora, no universo de produções, impossível refletir numa única linha, senão em muitas, a produção de conhecimento que se faz em uma universidade.
As fissuras entre o editor e seus pares - pois é preciso ter espírito de corpo! - apenas refletem os debates e embates vivenciados nos corredores dos departamentos. Com uma diferença: a editora deve ser independente. Sua reação às querelas departamentais é nula. Mesmo que a publicação de um livro aprovado por pareceristas - também pares nas universidades - e por um conselho - também formado por pares - intensifique os debates internos.
"Vivi para fazer livros", Plinio Martins Filho

A editora da universidade brasileira, justamente por ter de cumprir papeis vários, dada a falta de uma cadeia de agentes melhor posicionados para a promoção do livro e da leitura, deve cuidar de sua distribuição. Livrarias em cidades tão faltosas delas são mais do que necessárias. Feiras e festas que aproximam o leitor dos editores são salutares. Atraem os jovens. Aproxima professores e público. Franqueia as portas da universidade em nome de um interesse nobre.
Nesses mais de 50 anos de história, a Edusp, Editora da Universidade de São Paulo, tem se mostrado grande, pois compreende as múltiplas funções de uma grande universidade gestada e consolidada em um país periférico. Ela cumpre o papel de editora de arte, como faz Yale, nos Estados Unidos. Ela publica sociologia, brasileira e estrangeira, a exemplo de University Chicago Press. Ela publica grandes coleções como Cambridge e Oxford. E ela faz manuais acadêmicos, como todas as editoras universitárias. Faz tudo com grandeza porque teve à frente a figura de um editor visionário, porém, sensato. De um homem que se orgulha de seu métier.
Registramos aqui nossa homenagem a Plinio Martins Filho, que dirigiu a Edusp durante vinte e cinco anos. Vida longa, Editor!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O Dilema das Bibliotecas, por Umberto Eco

Da Biblioteca

Nesta breve homenagem a Umberto Eco, gostaria de relembrar um pequeno e precioso opúsculo, no qual o escritor disserta sobre as bibliotecas, suas tipologias, as alegrias que elas nos proporcionam, as irritações a que somos submetidos em algumas instituições e um dilema muito atual, a saber, o conflito entre o acesso aos livros e a sua conservação.

Umberto Eco (Alexandria, 1932-Milão, 2016)
[...] Enfim o problema final; é preciso decidir se se quer proteger os livros ou os fazer ler. Eu não digo que devemos fazê-los ler sem os proteger, mas não se pode do mesmo modo protegê-los sem que eles possam ser lidos. É preciso que um ou outro ideal prevaleça e que, depois, se preste contas com a realidade para a defesa do ideal secundário. Se o ideal secundário consiste em fazer ler o livro, será necessário protegê-lo o máximo possível, mesmo sabendo que ele corrirá alguns riscos. Nesse sentido, o problema de uma biblioteca não é diferente ao de uma livraria. As livrarias sérias que conservaram suas prateleiras de madeira e, nas quais, desde que se entra, um senhor se aproxima e diz: "O que o senhor deseja?". O que o deixa intimidado e convidado a sair do recinto; nessas livrarias roubam-se poucos livros. Mais eles são igualmente pouco comprados. Existem, de outro lado, as livrarias-supermecados, com suas estantes de plástico, onde as pessoas, os jovens, particularmente, flanam, olham, informam-se sobre o que é publicado e, ali, rouba-se a despeito dos controles eletrônicos. Às vezes ouvimos dizer um estudante: "Ah, este livro é interessante, amanhã eu virei roubá-lo". Entre eles as informações circulam. "Atenção, se te pagam no Feltrinelli, isto custa caro".  "Ah, então, eu irei ao Marzocco que abriu um novo supermercado". Aqueles que organizam as cadeias de livrarias sabem, no entanto, que a um certo ponto a livraria que tem uma taxa elevada de roubos é igualmente aquela que vende mais. Rouba-se muito mais em um supermercado do que em uma mercearia, mas o supermercado faz parte de uma grande cadeia capitalista, enquanto que a mercearia consiste em um pequeno comércio com um número de negócios bem pequeno". 
Umberto Eco, De Biblioteca. Traduit de l'italien par Eliane Deschamps-Pria. Frontispice de Vieira da Silva. Paris: L'Echoppe, 1986, pp. 29-30.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os Dominicanos e os Livros

Exposição de livros na Bibliothèque Mazarine celebra 800 anos da ordem e recupera a memória dos livros de sua mais antiga biblioteca fundada em Paris

Exposition présentée à l'occasion des 800 ans de la fondation de l'Ordre Dominicain.
Commissaire de l'exposition : Florine Lévecque-Stankiewicz
Fundada em 1218, na rua Saint Jacques, a biblioteca da ordem dos dominicanos se formou pela doação de diversos livros, dos mais modestos, aos mais imponentes. Também se abriu à atividade pedagógica, de tal sorte que se tornou uma instituição de leitura e ensino de prestígio, no coração do Quartier Latin. Algumas figuras da ordem falam com eloquencia de sua importância nos estudos medievais e, de forma mais ampla, na cultura ocidental. Assim os manuscritos de São Thomás de Aquino, Hugues de Saint Cher se somam a
um corpus medieval da coleção [que] reflete a atividade do Studium general, fundado em Paris para ssegurar a formação teológica dos predicadores: ali se encontram os textos sagrados, os instrumentos elaborados para os estudos e confrontações e obras de numerosos teólogos de uma ordem particularmente ativa no plano espiritual e da pesquisa.
Aquela antiga biblioteca sucumbiu à Revolução Francesa, em sua fase mais radical. Ao lado de outras coleções religiosas e aristocráticas que tiveram o mesmo fim. O que faz da exposição um acontecimento muito especial para os historiadores e amantes do livro, pois não se trata de recompor um acervo reconstituído em vitrines, mas de recuperar os elos perdidos desde a dilapidação da biblioteca.
A abertura da exposição foi coroada por um belo seminário, todo ele voltado para uma reflexão sobre a importância da ordem dos predicadores a partir de quatro eixos:
- A transmissão da mensagem religiosa, em que se descutiu, dentre outros temas, a relação da ordem com as mulheres e, em particular, com a Imaculada Conceição, resgatando um debate importante no alvorecer da modernidade europeia;
- "Autoconsciência": os dominicanos no espelho de suas obras. Nesta seção, os estudiosos se voltaram para a história da ordem e de seus principais personagens na Europa Moderna, com ênfase em suas atividades espirituais e intelectuais;
- Os dominicanos e os outros, em que se discutem, em uma perspectiva mulstissecular, as relações estabelecidas entre os frades dominicanos e franciscanos, com os mulsumanos, a problemática da inquisição e, no século XX, a promoção da unidade cristã, tal como ela se coloca na perspectiva dos dominicanos franceses;
- Reformas, crises, variações, ou simplesmente varia, colocam-se questões atinentes à Revolução Francesa, ao neotomismo e à edição, de forma especial, às Éditions du Cerf.
Embora o seminário se volte para temáticas quase exclusivamente francesas, afinal, trata-se de refletir sobre os 800 anos de uma ordem fundada em Toulouse, em um momento de crise, em que pululavam as chamadas ordens heréticas, dentre as quais, os albigenses, há aspectos ou questões que poderiam iluminar uma reflexão paralela, sobre a presença da ordem dominicana no Brasil e na América Latina.  Claro, é possível resgatar os vínculos da ordem com o processo de evangelização ocorrido nos tempos coloniais, em todo território americano, o que faz de Las Casas seu principal expoente.
Mas a ordem está muito próxima de nossa história recente e da presença da Igreja, de uma certa igreja, é verdade, nos momentos decisivos da luta contra a Ditadura no Brasil.
Celebremos, portatando, o jubileu da Ordem dos Pregadores, fundada por São Domingos. Uma ordem que fez da luta missionária uma luta pela causa da humanidade. E que nunca abandonou os livros, como bem o demonstra esta exposição e os exemplos deixados por seus irmãos.
Para saber mais:  https://centenairedominicains.fr



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Gustavo Piqueira lança Lululux...

O Livro Desconstruído

"Mas as pessoas na sala de jantar..."


Desde Jorge Luís Borges as definições do livro se tornaram desnecessárias. Vazias de poesia. Faltas de senso crítico. Deve-se duvidar do intelectual que se propõe a estabelecer uma conexão honesta entre o objeto, a palavra e seus sentidos. No limite, assume-se que a questão tem apenas função retórica. Trata-se, enfim, de um falso problema. Pois todo mundo sabe o que é um livro – talvez cada um o saiba à sua maneira.
A ideia-livro – ou livro-ideia? – se tornou tão poderosa que o exercício de sua desconstrução não destitui o objeto de seu significado original. Ou de sua função original, como ocorre em muitos casos. Todos sabem que o e-book não corresponde necessariamente ao livro. Porém, considerando que sua função primordial é a leitura, ninguém tenta dissuadir as pessoas e todo o vigoroso mercado midiático de que aquilo, afinal, está longe de ser um objeto de papel dobrado. Também um livro-objeto, ou um livro de artista, ou uma escultura de livros apenas mantém sua identidade original porque contém “mil palavras” ditas ou subentendidas. Mas a unidade mínima, a sua concretude, esta, se perdeu. Restou apenas a ideia-força do livro – objeto de leitura ou de múltiplas leituras.
Assim é a arte de Gustavo Piqueira. O livro está lá, na sua concepção original. O livro sempre esteve ali, desde o momento da escrita. É bem provável que o livro seja a um só tempo o ponto de partida e o de chegada de todo o processo criativo desse grande artista. No entanto, quando se completa a volta, o que surge não tem absolutamente a mesma rigidez das dobras de papel. A ideia-livro se converte, então, em discurso, enquanto a palavra toma acento na função-livro. É um caminho tortuoso, dir-se-ia, quase uma contradição.
Em Lululux a estrutura narrativa não se enquadra no retângulo da página. Antes, um jogo de jantar (des)constrói a figura desse personagem deveras curioso, não raro vazio como um copo, mas que preenche seu tempo entre postagens na Internet, cursos e pensamentos nada profundos – o personagem é vazio, vale frisar – relatados antes de dormir. Lux Moreira se situa naquela zona desconfortável em que o luxo deve virar lixo. Pois, afinal de contas, o livro de Piqueira pode ser consumido e descartado. E se a ideia de se descartar um livro contradiz a sua natureza perene, não é menos verdade que diante de um mercado editorial tão eclético, a percepção de que muitos livros são descartáveis não deve ser descreditada. Quem lê tudo isso?
É nesse ponto que o livro-jogo-de-jantar, de Gustavo Piqueira – este novo empreendimento cultural da Casa Rex, em parceria com a Lote 42 – coloca em xeque a tensão entre conteúdo e continente. O personagem Lux Moreira é dado aos pensamentos fáceis da autoajuda, às imagens vazias da televisão, às frases feitas das redes sociais. Nada que não esteja nos livros quadrados das melhores livrarias. Mas, então, qual é o diferencial do livro do Piqueira?
Nas mãos de Piqueira o livro vira arte, artesanato, indústria.
E as palavras... o que são as palavras diante de um livro-objeto?
Artigo publicado em Revista Brasileiros, n.102, jan.2016.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Homenagem a Maria Bonomi

Livro-Concreto 

Dentre as muitas possibilidades de escrita evocamos, nesta primeira matéria do ano, o traço monumental de Maria Bonomi. Como os antigos, a escrita, aqui, insere-se na esfera pública. Nos muros da cidade. Mas, agora, trata-se do grande livro urbano destinado às massas das grandes cidades. 

FELIZ 2016!
Obra Epopeia Paulista, na Estação da Luz. Exemplo de escrita pública de Maria Bonomi

Eis que o livro surge como atitude mimética da ordem do corpo e das cidades...

Do corpo humano, tomam-se de empréstimo as partes elementares de uma anatomia complexa: cabeça, pé, frente, costas... Mas também o dorso que convida, a pele que ativa o tato e o olho que demarca o título. No fluxo aparentemente desordenado da tinta – apenas aparente, note-se, pois tudo no livro obedece a um imperativo – letras e grifos fazem escorrer palavras e pensamentos que afloram nos poros, no gesto e no diálogo que se cria neste corpo a corpo a que chamamos leitura.
O livro é uma obra de arquitetura modelar. A peça guarda entre duas capas toda a verdade do mundo. Mas também as maiores mentiras, as crenças, as decepções, as vitórias e as derrotas acumuladas e imaginadas pela humanidade. Não há, enfim, temática ou gênero literário que não caiba em sua superfície.
O livro é um gesto urbano. E de urbanidade. Desde a Renascença convencionou-se que o leitor era convidado a adentrar no livro por um grande portal, ou portada – ancestral da singela folha de rosto. E os portais eram tão eloquentes quanto a arquitetura das cidades vibrantes do velho continente.
Há no gesto tipográfico o sentido da urbanística. A mancha urbana e a mancha tipográfica se constroem a partir do mesmo confronto entre o branco e o preto. Entre o vazio e o cheio. Entre o espaço acometido pelo sulco violento do tipo e aquele que se guarda imaculado, onde a luz repousa e os olhos descansam.
E se os livros são cidades que se encerram entre duas capas, não seriam também as cidades grandes livros abertos para a escrita dos povos? Assim como os livros, as cidades se submetem ao ato da escrita. Os signos urbanos antecipam e cristalizam as leis que regem a tipografia. Ambos se dobram a uma mesma ação, filiada a uma única raiz etimológica, do latim scribĕre. Nas palavras do Houaiss, “marcar com o estilo (ponteiro ou haste de metal), traçar uma linha, assinalar, gravar, marcar com cunho, desenhar, representar em caracteres, fazer letras”... numa palavra: escrever.
Gravar, marcar com o cunho, fazer sulcos. As escritas monumentais constituem um gesto urbano e de integração social cuja herança e significados sobrevivem nas sociedades contemporâneas. Fazer sulcos na cidade, como faziam os antigos; marcar a cidade, como o faz o tipo sobre o papel; sulcar o concreto, como quem “machuca” uma matriz xilográfica; tirar da secura do concreto sua luz, dobrar-se às suas sombras e encher de cores a matéria bruta e enegrecida das grandes cidades, tudo isso constitui uma atitude urbana. Fazer da cidade um livro-concreto se torna, portanto, um gesto público. Arte pública. Maria faz tudo isso. Em suas mãos a superfície ganha volumes, sulcos, sombras, luzes e cores. Seus livros são monumentais, pois seus leitores transitam nas grandes cidades. Maria faz livros para as massas. O que Maria faz? Maria Bonomi tira da matéria o que lhe resta de inefável.