"Enquanto que uma atualidade recente nos faz lembrar o que é, sem dúvida, a sua faceta mais deplorável (o islamismo radical e violentamente proselitista), não parece necessário recuar muito no tempo para encontrar traços certamente passionais, e não raro apaziguadores nas relações entre o Oriente e o Ocidente, os quais alimentam um imaginário forte e uma percepção que se renova sem cessar deste "outro", às vezes, distante, mas ao mesmo tempo muito próximo. De tudo o que se disse, a Revue de la BNU aborda assuntos variados, mas sempre em ligação com este Oriente que na Idade Média restava, e ainda hoje resta, a descobrir. Neste número, aborda-se igualmente a questão da influência otomana sobre a literatura muçulmana, da medicina medieval, passando pela alimentação ou, ainda, pelas narrativas de pelegrinos que seguiam rumo à Terra Santa e se abriam, nesse momento, à cultura oriental".
Do Dicionário de Citações
Dupla delícia.O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.Mário Quintana
terça-feira, 25 de maio de 2021
Revista da BNU de Strasbourg nos convida para uma viagem ao Oriente
segunda-feira, 24 de maio de 2021
quinta-feira, 20 de maio de 2021
sábado, 15 de maio de 2021
sexta-feira, 14 de maio de 2021
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Um Encontro para Celebrar as Livrarias da América Latina - Colóquio Virtual, Aberto para Todos
O Instituto Caro y Cuervo de Bogotá (Colômbia) reúne, a partir de quarta-feira, 21 de abril, pesquisadores para celebrar, resgatar e propor novas perspectivas para os estudos das livrarias.
Se, no íncio do século XXI, houve um aumento substancioso de pesquisadores dedicados a refletir sobre o livro e as práticas e representações de leitura, as histórias sobre as bibliotecas e as livrarias eram mais raras. Passados vinte anos, as histórias das bibliotecas e das livrarias vêm sendo frequentemente revisitadas, tanto na Europa, quanto nas Américas - mas também em vários países do Oriente, cujas livrarias e bibliotecas têm despertado a atenção de todo o mundo. Tal fato, talvez, se explique pelas próprias mutações que as tecnologias de informação e comunicação provocaram, não apenas nos suportes de leitura, mas também nos espaços de leitura e dos livros.
Mas há um outro aspecto que amplifica a importância desse encontro.
A terceira revolução do livro vem de par com transformações profundas nos sistemas de comunicações e transportes. Hoje em dia a palavra logística se apresenta como um verdadeiro "Abra-te Sésamo", tanto para os editores, quanto para os livreiros e, também, para os leitores. Diante do avanço do e-commerce cabe perguntar: qual o lugar das livrarias? Mais do que isso, assumindo que sua importância, como ensina a história, supera a função comercial, como salvar as livrarias nesse novo cenário econômico?
Para além das múltiplas questões que o Colóquio pretende trazer à luz, a celebração e a reunião de pesquisadores latino-americanos se apresentam, hoje, como um grande incentivo para a retomada de velhos diálogos e a abertura para novos encontros.
Espero encontrá-los em Bogotá (virtualmente) semana que vem!
Para acessar o programa completo e se inscrever nas sessções, acesse o link: https://www.caroycuervo.gov.co/Noticias/coloquio-internacional-el-comercio-de-libreria-en-america-latina/.
E clique sobre a palavra: Inscripciones.
Atenção para o fuso hórario! (+ 2h hora de Brasília)
* O Colóquio se incia quarta-feira, às 8h15 (10h15 - hora de Brasília)
terça-feira, 13 de abril de 2021
Aula Inaugural com Plinio Martins Filho 15/04/2021
Plinio Martins Filho, 50 anos entre livros
Em 2016, quando Plinio Martins Filho finalizava seu Manual de Editoração e Estilo, obra clássica que lhe valeu o prêmio Jabuti (1o Lugar - Comunicação), tive a honra de redigir o prefácio ao livro.
Reproduzo abaixo o texto que abre o volume do Manual à guisa de homenagem.
* * *
Plinio Martins Filho, o Editor Perfeito
Um livro perfeitamente acabado contém uma boa doutrina, apresentada adequadamente pelo impressor e pelo revisor. É isso o que considero a alma do livro. Uma bela impressão sobre a prensa, limpa e cuidada, é o que faz com que eu possa compará-lo a um corpo gracioso e elegante.
Alonso Victor de Paredes, Institución y Origen del Arte de la Imprenta, c. 1680
Nos tempos de Cícero (106 a.C.-43 a.C.) o ato de editar um texto adquire sentido mais amplo. São conhecidas as cartas que o grande orador, escritor e bibliófilo romano endereçou a Ático (109 a. C.- 32 a. C), o amigo abastado, de uma cultura helenista refinada, que não poupava recursos materiais e escravos – gregos, em sua maioria – para a edição e publicação de bons escritos. Ou seja, a arte da edição não se restringia mais ao estabelecimento de cópias dos registros antigos para a sua preservação nas bibliotecas. Tratava-se, agora, de tornar público um texto. Tal perspectiva explica o conteúdo semântico original do latim editor, editoris, ou seja, o que gera, o que produz, ou aquele que causa; e, por extensão, o autor, consoante o verbo edere, de parir, publicar, expor, produzir, segundo explicação de Emanuel Araújo. Há, na verdade, duas ações em jogo: enquanto edereequivale a lançar um produto literário sem procurar difundi-lo amplamente, publicare descreve o processo pelo qual o texto se torna público, ou seja, quando ele escapa ao poder do autor. Nos dois casos a função editorial é imprescindível, tanto no aspecto da crítica ao texto, tanto no que toca à cópia e à reprodução do original.
A revolução de Gutenberg intensificou ainda mais a oposição entre a escrita (= original) e o texto (= impresso), na medida em que a possibilidade de reprodução mecânica do livro exigiu novos níveis de profissionalização e de padronização. A publicação de textos eruditos se torna, então, uma atividade colegiada, com ampla participação de especialistas em diferentes fases de construção do livro, desde a seleção do manuscrito, donde a importância da filologia no alvorecer da Época Moderna, passando por decisões de ordem estética, ou seja, a escolha de tipos, a definição da quadratura da página e do formato do volume, até as intervenções de natureza editorial, ou seja, a inserção de paratextos, a hierarquização das informações e, claro, a revisão do exemplar impresso. Como escreve Alonso Victor de Paredes em sua preciosa Institución y Origen del Arte de la Imprenta, esse ancestral raro do Manual de Estilo e Editoração que Plinio Martins Filho prepara para editores, revisores e leitores brasileiros.
A Perfeição está no Equilíbrio entre a Beleza e o Conteúdo
É claro que essa revolução afetou ou multiplicou as modalidades de leituras. Há o leitor concentrado, o leitor interativo, o leitor crítico, o leitor intensivo, o leitor solidário, o leitor malcomportado... e, coisa do novo milênio, há também o leitor eletrônico. O e-readerdos anglo-saxões ou a liseuse, batizada, assim, à moda francesa, com o gênero feminino bem demarcado. Mas existe um tipo de leitor que fica escondido atrás do livro e que vê tudo o que os outros leitores não podem ver. É um leitor exigente, do tipo tinhoso, que não dorme no ponto, não salta as linhas – quiçá, as páginas! – e que deixa a casa sempre em ordem para o desfrute dos outros leitores. Esse leitor benfazejo é o editor.
Pois se houve ou ainda há alguma dúvida quanto à sobrevivência do códice diante de uma revolução midiática em curso, não parece ter ocorrido a ninguém questionar o papel central que desempenha o editor no processo de construção do texto. No limite, é possível pensar que as novas tecnologias concorram para uma maior articulação entre as funções do autor e do editor, o que tornaria os escritores, como já ocorreu noutras épocas, editores de seus próprios escritos. Isso porque entre a escrita e o texto há muitos (des)caminhosa percorrer.
Escritores tecem como aranhas as palavras, enquanto os editores redesenham, fio a fio, o tecido de símbolos a que chamamos texto. É trabalho de artesão, dos mais refinados. Plinio Martins Filho é desses editores que dominam o ofício, a arte da construção do livro, com suas regras não raro estritas de equilíbrio entre a forma e o conteúdo. Para tanto, ele sabe que é preciso conhecer intimamente o objeto, seus aspectos formais e as hierarquias que ordenam os conteúdos, os quais, ao final de tudo, vão compor o livro. Noutros termos, a passagem do original em texto impresso. Mas nada disso teria sentido se não o houvesse o cuidado com a forma. Investe-se, então, nas tramas menores: nos detalhes tipográficos, na conformação das letras e no uso dos sinais diacríticos. Nada escapa ao editor. Tecer é normalizar, domar a escrita, forçar uma coerência entre as partes e o todo, e estabelecer o diálogo entre a ideia e o símbolo. Como sói dizer: editar é ordenar o caos.
Escrever na Areia
Mas Plinio não se queixa. Seu ofício é sagrado, valeu-lhe uma vida, toda uma história de superação. Nascido em Pium, nos campos do Goiás, hoje pertencente a Tocantins, a relação de nosso editor com a escrita demorou a se revelar. Apareceu, antes, em sonhos e sob a forma luminosa do ato de escrever na areia, praticado pelo pai. Naqueles tempos distantes, em terras longínquas a escrita era uma revelação fugidia. Ela apenas se materializa na escola. Nessas mesmas escolas que ainda hoje são perseguidas por crianças persistentes, que enfrentam longos caminhos, não raro a fome, as injustiças, mas nunca a desesperança. Até que o filho do Brasil profundo encontra na grande cidade, São Paulo, a figura de um editor notável, a um só tempo acolhedor e rigoroso.
A relação de Plinio Martins Filho se inicia, de fato, na Editora Perspectiva, há mais de quarenta anos. Ali nosso editor foi subindo os degraus de um velho edifício. Da seção de estoque, passou para a mesa de revisão e preparação. Aprendeu tudo em silêncio, com calma, como sói fazer. Virou páginas, torceu letras e, quando deu por si, fazia o livro inteiro. Dominava o métier. A Edusp acolheu o homem pronto, pobre que era na arte de fazer livros. Também, ali, na lentidão e no silêncio dos dias, uma velha editora ganhava novas roupagens. Ela se modernizava com a universidade. Foram vinte e cinco anos de dedicação reconhecida e agradecida pela maioria dos seus pares.
Por tudo isso o editor é aquele leitor benfazejo, que teima em ver na filigrana o que ninguém se dá por conta. Plinio Martins Filho não é o tipo de escritor prolixo. Portanto, não teime e buscar seu nome nas fileiras dos autores brasileiros. Mas seu nome figura nas fileiras dos grandes editores brasileiros do passado. Pois no presente ele é único. No entanto, Plinio se prepara para ser o autor de um grande livro, inédito no Brasil. Trata-se de seu Manual de Editoração e Estilo, volume que já nasce clássico, no qual o editor revela seus segredos, tudo o que aprendeu e executou, silencioso, no fio do tempo. Sem dúvida, passagem obrigatória para todos os tipos de leitores que encontram no livro a melhor morada para se viver.







