Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Editoras Universitárias em Debate

Especialistas se reúnem para discutir sobre as especificidades e os desafios das editoras universitárias brasileiras.

Fotografia de Patricia Osses, de série publicada em LIVRO n.4,
Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (2014)
“Produção do conhecimento e políticas editoriais em universidades”
16/06/16 – 5ª feira às 18h30

Há algum tempo as editoras deixaram de ser empresas que meramente publicam livros, elas precisaram se tornar algo mais do que isso: casas de ideias, que detêm o conhecimento do passado, refletem sobre o presente e debatem as perspectivas do futuro.  Nesse sentido, constituem espaços que ajudam a sociedade a trilhar um caminho de maior lucidez, conectado ao mundo contemporâneo.
Com base na experiência da Fundação Editora da Unesp, que possui como meta a democratização do conhecimento e ser uma ponte entre uma das mais exemplares universidades brasileiras e a sociedade, o CEDEM reúne especialistas no tema para o debate de políticas editoriais que incentivem a eficiente produção e disseminação do conhecimento acadêmico.

Expositor e Mediador:

Prof. Dr. Jézio Hernani Bomfim Gutierre, possui graduação em Economia pela USP, mestrado em Filosofia - University of Cambridge, mestrado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor assistente doutor da Unesp e diretor-presidente da Fundação Editora da Unesp.

Debatedores:

Profa. Dra. Marisa Lajolo, possui mestrado e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e pós-doutorado na Brown University.  Atualmente é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, suas linhas de pesquisa recobrem interesse por Teoria Literária e Literatura Brasileira. Em 2009 recebeu prêmio Jabuti e 2011 um prêmio da Academia Brasileira de Letras. Assumiu a curadoria do Prêmio Jabuti, em 2014, e em 2015 foi eleita para a Academia Paulista de Educação.

Prof. Me. Jiro Takahashipossui mestrado em Letras pela USP, lecionando nos cursos de Letras, Tradutor e Intérprete da Unibero/Kroton, na Faculdade Paulista de Artes e em cursos de pós-graduação em gestão empresarial da FECAP. Atua no mercado editorial desde 1966. Trabalhou na Editora Ática por mais de 25 anos, tendo participado da criação de novos conceitos de Livro de Professor e Suplementos de Trabalho, das séries Vaga-Lume, Para Gostar de Ler, Autores Brasileiros. Fundou a Editora Estação Liberdade em 1990 e atualmente é editor executivo da Nova Aguilar. 

Inscrições gratuitas:
Data e horário: 16/06/2016, 5ª feira às 18h30
Local: Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé)
*** Certificado de participação a ser retirado no evento
Duração: 2h30
Informações: (11) 3116–1701

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mudando de assunto...

MARIANNE ACORRENTADA

A editora de Bibliomania pede licença para mudar de assunto. Ela deve fugir do mundo dos livros para adentrar no mundo "real" - ou seria um pesadelo? Nestas linhas, o desabafo de uma mulher, mãe, professora, escritora e leitora pela LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE.

EM REPORTAGEM histórica sobre a queda da ditadura franquista, Clóvis Rossi observou que nos cinemas da Gran Vía, a principal avenida de Madrid, os cartazes de mulheres nuas aumentavam na medida em que relaxava a censura imposta pelo Estado. A imagem diz muito sobre o moralismo hipócrita sustentado pelos regimes totalitários, mas também sobre a situação de indigência política a que foi relegada a mulher nos anos subsequentes à abertura política.

Diferente do que ocorrera nas revoluções de 1968, quando as mulheres tomaram as ruas de Paris, queimaram os sutiãs, ostentaram minissaias e fizeram de seus corpos e da sexualidade uma expressão político-libertadora, fato que reverberou nos movimentos de contracultura por todo o ocidente, havia algo de obsceno na superexposição do corpo da mulher no avançar dos anos 80. Projetaram-se tantos holofotes sobre a nudez feminina, que seu corpo se desmaterializou. O nu se tornou uma mercadoria. Um grande negócio que alimenta a indústria midiática até a atualidade.

A invisibilidade da mulher teve desdobramentos perversos no âmbito das relações cotidianas e de sua representação na esfera pública. Em pesquisa divulgada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, relativo a 2014, constatou-se que 90,2% das mulheres brasileiras temem ser agredidas sexualmente. Dado curioso, 67,1% dos homens alegam viver sob a mesma onda de medo! Registraram-se 47.646 estupros no mesmo ano. Estima-se que estas cifras correspondam a apenas 10% das ocorrências. A essa anomalia social é preciso somar os casos de violência doméstica e, outro, não menos preocupante, que diz respeito às mulheres vitimadas pela prática de intervenções cirúrgicas, com fins estéticos, realizadas por profissionais de índole e de formação duvidosas e em condições hospitalares subumanas.

É evidente que as violências praticadas contra a mulher não têm relação direta com a mercantilização de sua imagem, o que seria tomar a parte pelo todo. Ou seja, reduzir a um problema de exposição midiática toda uma cultura machista já bem cristalizada. Todavia, deve-se ponderar que as estatísticas frequentemente estampadas nos jornais confirmam o grau de fragilidade da mulher muito mais por suas lacunas, do que pelas cifras que apresentam. É que para além da quantificação dos crimes, existe a vontade política de denunciá-los e, claro, de extingui-los. No Brasil, a lei no 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional e sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se um marco na luta contra a violência feminina. A lei teve consequências profundas, na medida em que a violência doméstica deixou de ser tratada como caso de polícia, para ser enfrentada como um problema do Estado brasileiro, o que conduziu ao acionamento de uma série de dispositivos legais, políticos e assistenciais contra o “feminicídio”.

Dilma Roussef é ex-guerrilheira e presa política que conheceu de perto a truculência da polícia. Sua presença faz coro com outras ativistas que renasceram como fênix no movimento pela redemocratização do país e que atuam, fortes e altaneiras, em diferentes setores sociais.
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A REINVENÇÃO DE MARIANNE, símbolo máximo dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, apresenta-se hoje de forma organizada e comprometida com os problemas nacionais. É claro que a pauta feminina não desapareceu. Pelo contrário, debate-se hoje abertamente a questão do abuso sexual, da violência doméstica, do direito ao aborto, da equiparação dos salários e das cotas de participação das mulheres no mercado de trabalho e na política (leia-se, no Legislativo). Existe, todavia, a compreensão de que esses problemas não são isolados. De que, na verdade, é impossível superá-los, com justeza, sem o enfrentamento direto de questões estruturais, a saber, o conflito interclassista e o preconceito racial. As manifestações de mulheres organizadas contra os abusos de poder e em nome da apuração dos escândalos que assolam a imagem do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, demonstram, com eloquência, sua presença forte na arena política.

E a vitória não é numérica. É histórica. Não nos surpreende, portanto, que todas essas conquistas sejam tão recentes. A própria figura de uma presidente que destoa por seu passado político, se comparada, por exemplo, a Cristina Kirchner e Angela Merkel, reforça esta ideia.

Outrossim, a presença da mulher na política – nas ruas, nos palanques e nas tribunas – aponta para a convergência de conteúdos e de interesses da humanidade como um todo. Pois se trata de um movimento internacional, com destaque para algumas vozes que ousaram desafiar até mesmo a gana devastadora dos califas no mundo islâmico. Nesse sentido, como não se mirar no exemplo de Malala, essa jovem que aprendeu muito cedo que a transformação se faz pela educação e pela força? A presença da mulher na política olha para o futuro, derruba tabus do presente e não esquece as figuras do passado. Ela honra aquelas guerreiras que sob a divisa “Abaixo a fome! Pão para os trabalhadores!”, enfrentaram a fúria das tropas czaristas na Rússia de 1917. Das mulheres operárias que deram a vida na luta por relações dignas e justas no mundo do trabalho. A mulher de hoje é Betty Friedan, é Frida Kahlo, é Simone de Beauvoir, é Carolina Maria de Jesus, é Madre Teresa de Calcutá, é Guiomar Silva Lopes... Ela é a própria Utopia. Ela representa aquelas mulheres que queimaram os sutiãs, mas que não se iludiram com a supervalorização de sua nudez nos grandes cartazes de cinema. É também a dona de casa na lida diária. Ela é a presença anônima e bela que recusa rótulos e piadas de mal gosto.

Como a grande Marianne que caminha de peito aberto desfraldando sua bandeira, a mulher brasileira em uníssono desfralda seu grito libertador. Ela é Pagu e, com ela, pode gritar: "Tenho várias cicatrizes, mas estou viva. Abram a janela. Desabotoem minha blusa. Eu quero respirar".

segunda-feira, 25 de abril de 2016

LANÇAMENTO

Histórias e Memórias dos Anos de Chumbo contadas pelos protagonistas que a vivenciaram na antiga Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (USP) da rua Maria Antonia.
Imperdível!

sábado, 2 de abril de 2016

Museu de Sant'Anna, Tiradentes (Minas Gerais)

Sant'Anna, lede por nós! 

Imagem do Museu de Santa Ana, Tiradentes, Minas Gerais. Julho de 2015
O Museu de Sant’Ana se apresenta como dessas pequenas joias incrustadas nas Minas Gerais. Ele ocupa o edifício da antiga cadeia, na cidade de Tiradentes, e faz jus ao que há de mais moderno em termos de museologia. A coleção foi reunida por Angela Gutierrez, que a doou ao Iphan e participou de perto da construção do museu.
Por todas as partes da exposição a imagem de Sant’Ana se multiplica: Sant’Ana Mestra, a Mãe Ancestral, evoca “o poder gerador da terra com o da mulher”; em Santas Mães, vemos os cuidados de Ana com Maria e de ambas com o menino Jesus; em Sant’Ana Guia, imagem recorrente no Nordeste, Ana toma a filha pela mão e a conduz, com “amor e segurança, no rumo de seu destino de mãe do Salvador”; na Sacra Parentela unem-se em torno de Ana, matriz geradora, Maria, José, Jesus e Joaquim. Há ainda duas outras seções dedicadas aos mestres santeiros, nas quais se veem trabalhos de artistas eruditos e populares de diversas regiões do Brasil: do Nordeste açucareiro, das Minas do ouro e da São Paulo cafeeira. É bem verdade que em São Paulo a imagem de Sant’Ana fora trazida bem cedo pelos bandeirantes e primeiros moradores que a cultuaram como elemento de salvaguarda e proteção. As “paulistinhas”, como ficaram conhecidos esses santinhos de terracota, foram difundidas nos séculos XVII e XVIII pela capital planaltina, Itu, Guaratinguetá, Vale do Paraíba e Santana do Parnaíba. Há, enfim, um espaço reservado para a Fatura Negra, ou seja, para a imaginária afrodescendente, com as releituras e subversões características das manifestações do sincretismo observadas durante o Brasil escravocrata.
Imagem do Museu de Santa Ana,
Tiradentes, Minas Gerais. Julho de 2015
Mas a imagem de Sant’Ana, a segunda santa mais devotada do Brasil, possui um traço bastante peculiar e inquietante: ela traz consigo um livro. Ei-la tomando a lição de Maria, que o lê, nas mãos da mãe; noutra imagem é Maria quem segura o livro para a mãe, atenciosa; noutra, as duas mantêm o olhar distante, embora o livro permaneça em suas mãos. São muitas as variantes, todas à mercê da criatividade do artista. Pouco importa, a mestra e guia tem sempre à mão um livro. A historiadora Maria Beatriz de Mello e Souza situa a origem da imaginária de Ana no século XIII, possivelmente na Inglaterra. Ela coincide, é fato, com o período em que se desenvolveu no ocidente o culto mariano. Porém, é preciso situar essas esculturas no contexto colonial brasileiro. Por que uma santa guia com um livro na mão cairia nas graças de senhores, livres pobres e escravos? Para a historiadora, a santa mestra e guia teria concretizado no imaginário das gentes a hierarquia social dominante, a saber, a figura da matriarca, da senhora branca protetora dos engenhos, das minas de ouro e dos cafezais. Outrossim, ela reforçaria a ideia da educação das moças fundada na valorização da pureza e em alguns rudimentos escolares, ou seja, boas leituras, domínio das quatro operações aritméticas e prendas domésticas.
Ocorre, todavia, que Sant’Ana conquistou a fé do povo. Como diz uma canção: “Reza, pois, pela mãe oprimida/Que tem filhos sem pão e sem lar”. Numa sociedade tão pungida, onde se mantém rígida a fronteira do Brasil que lê e o outro, resta dizer: “Sant’Ana, lede por nós”.

Artigo publicado em versão impressa na Revista Brasileiros, abril de 2016.
Para saber mais, acesse o link http://museudesantana.org.br/
 


quarta-feira, 30 de março de 2016

LANÇAMENTO

É hoje, ainda dá tempo!
O maior "amigo do livro" do Brasil lança hoje novo livro.
Não percam! É o melhor da atual safra editorial.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Como se faz uma grande editora?

"Livros a mancheia", Imagem da 17a. Festa do Livro, 2017.
As editoras universitárias nascem como bastiões das universidades, desde os seus primórdios. Embora Oxford e Cambridge possam reivindicar sua primazia na cartografia europeia dos livros acadêmicos, outras universidades conheceram muito cedo seus braços editoriais. Elas não eram oficialmente ligadas às instituições que serviam, tampouco ostentavam seus nomes, mas se constituíram em áreas contíguas às universidades, com editores especializados em produções eruditas destinadas a docentes e alunos. Um passeio pela rue Saint Jacques, em Paris, diz muito sobre esta relação tão próxima entre livros e universidades.
Muitos séculos se passaram e da mesma maneira que não se imagina, hoje, uma universidade sem livros e bibliotecas, fica difícil conceber uma universidade sem o seu suporte editorial.
As origens das universidades no Brasil remontam a uma história recente. E, também, suas editoras. Hoje elas são numerosas, tanto quanto as intituições de ensino superior. É possível observar, de modo ainda muito superficial, que os catálogos das editoras universitárias sustentam certo ecletismo, este traço tão cartacterísticos das instituições e das formas de pensamento americanas.
Mas, aqui, a velocidade com que as instituições universitárias e editoriais tiveram que responder aos surtos modernizadores - pois a cultura e a educação não acompanham ciclos, mas surtos - e aos desenvolvimentos do mercado, tudo isso fez com que seus catálogos fossem igualmente ecléticos. Não se organiza uma editora no Brasil exclusivamente por uma linha editorial. Nem nas instituições universitárias, nem no mercado. Não há fôlego e nem demanda suficiente para isto. Da mesma forma que é uma falácia sustentar que uma editora universitária deve refletir a produção da universidade. Ela reflete, claro, mas é impossível identificar todas as linhas de pesquisa ou uma só pelo seu catálogo. Do contrário, a crítica parece se inserir no rol das queixas de descontentes que não tiveram seus livros publicados.
Antes, deve-se perguntar: Qual produção? Das Humanidades? Das Exatas? Das Biológicas? De quais setores? Dos mais rentáveis? Dos melhor pontuados? Sob quais critérios de avaliação? Ora, no universo de produções, impossível refletir numa única linha, senão em muitas, a produção de conhecimento que se faz em uma universidade.
As fissuras entre o editor e seus pares - pois é preciso ter espírito de corpo! - apenas refletem os debates e embates vivenciados nos corredores dos departamentos. Com uma diferença: a editora deve ser independente. Sua reação às querelas departamentais é nula. Mesmo que a publicação de um livro aprovado por pareceristas - também pares nas universidades - e por um conselho - também formado por pares - intensifique os debates internos.
"Vivi para fazer livros", Plinio Martins Filho

A editora da universidade brasileira, justamente por ter de cumprir papeis vários, dada a falta de uma cadeia de agentes melhor posicionados para a promoção do livro e da leitura, deve cuidar de sua distribuição. Livrarias em cidades tão faltosas delas são mais do que necessárias. Feiras e festas que aproximam o leitor dos editores são salutares. Atraem os jovens. Aproxima professores e público. Franqueia as portas da universidade em nome de um interesse nobre.
Nesses mais de 50 anos de história, a Edusp, Editora da Universidade de São Paulo, tem se mostrado grande, pois compreende as múltiplas funções de uma grande universidade gestada e consolidada em um país periférico. Ela cumpre o papel de editora de arte, como faz Yale, nos Estados Unidos. Ela publica sociologia, brasileira e estrangeira, a exemplo de University Chicago Press. Ela publica grandes coleções como Cambridge e Oxford. E ela faz manuais acadêmicos, como todas as editoras universitárias. Faz tudo com grandeza porque teve à frente a figura de um editor visionário, porém, sensato. De um homem que se orgulha de seu métier.
Registramos aqui nossa homenagem a Plinio Martins Filho, que dirigiu a Edusp durante vinte e cinco anos. Vida longa, Editor!