Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sobre Livros - Mulheres Tipógrafas


Quando as Mulheres Invadiram as Tipografias:

Sindicalismo e Feminismo na França (séculos XIX-XX)

Ilustração de Rosinha, gentilmente desenhada para este artigo, em novembro de 2010

Desde suas origens, o mundo dos livros se caracterizou pelo domínio quase absoluto dos homens em todas as etapas de produção, distribuição e, ainda por muitos séculos, aquisição de volumes. O livro, tal como o concebemos nos dias atuais, teve seu primeiro impulso na Baixa Idade Média, a partir dos ateliers monásticos, onde os monges dedicavam-se a todas as etapas de sua criação, das funções mais hodiernas de leitura em voz alta e cópia dos textos, até as atividades mais delicadas de ornamentação dos códices manuscritos, onde as imagens, não raro muito mais do que as letras, entretinham e informavam leitores e leitoras por todas as partes.
Nesse aspecto, as mudanças foram bem lentas na era inaugurada por Gutenberg. Do célebre atelier da Mogúncia, donde saíram verdadeiras obras artísticas impressas por tipos móveis, após 1450, às cidades florescentes do Velho Mundo – Veneza, Paris, Lyon, Londres etc. – formou-se ao longo dos séculos um verdadeiro panteão de ilustres fundidores, compositores, tipógrafos, douradores, encadernadores, revisores e livreiros. Homens que desempenhavam uma jornada árdua, de até 18 horas de trabalho, o que não nos deixa dúvidas sobre a complexidade das tarefas realizadas nessas primeiras oficinas tipográficas. Mas onde entram as mulheres entre os Manuzio, Garamond, Plantin, Elzevier, Didot, Bodoni, para citar apenas algumas celebridades nessa verdadeira constelação que a história do livro impresso acumulou?
Alguns números dão bem a medida da progressão lenta, ainda que constante, da participação feminina nos ofícios do livro. Nos séculos XV e XVI, são conhecidas 119 mulheres nos ateliers tipográficos franceses; no século XVII, este número salta para 647 inscritas nas corporações dos profissionais do livro; no século XVIII, são 966 mulheres, entre elas, a “precisa e precavida viúva Duchesne”, no dizer de Voltaire; e, de 1800 a 1870,  já são 4.692, entre jovens, senhoras casadas e viúvas[1].
É bem verdade que o espaço fora aberto pelas viúvas de antigos artífices já no alvorecer da Europa moderna. Mas apenas na qualidade de viúvas e herdeiras do ofício, situação que mudaria apenas a partir de 1791, com a abolição das corporações. Assim, ao lado da antiga inscrição Viúva (...) o mercado editorial francês viu circular as primeiras Mmes. (senhoras), Mlles. (senhoritas) e até algumas Cne. (cidadãs), bem no espírito das revoluções silenciosas nascidas no seio de 1789.
A Imprimerie de Femmes nasceu como fruto da Revolução em sua fase mais radical. Trata-se da primeira e, ao que tudo indica, única iniciativa de que se tem conhecimento no período em análise, de uma escola de formação profissional, especializada no ofício tipográfico e destinada exclusivamente às mulheres. O curso foi idealizado por um certo Deltufo, artífice do ramo, homem que gozou de certa influência junto aos seguidores de Robespierre, o que parece se confirmar pelo êxito obtido em seu empreendimento. Nos primeiros meses de funcionamento a “escola” atendeu a vários pedidos oficiais: 20.000 exemplares de um relatório de Saint-Just, no 17 Germinal do ano II e, no 7 Floreal, encomendaram-se outros 20.000 exemplares de “Idéias morais e religiosas sob a ótica dos príncipes republicanos”, de Robespierre. As encomendas se mantiveram após a morte de Robespierre, em 10 Thermidor do ano II (28 de Julho de 1794), e a “escola” foi mantida até a morte de seu idealizador. A viúva bem ensaiou novos contatos para manter a Imprimerie des Femmes, mas seus esforços resultaram em uma resposta consoladora e definitiva por parte de um burocrata do Estado[2].
É bem verdade que a maior participação feminina nas oficinas tipográficas – entenda-se, de jovens trabalhadoras, com idade mínima de 12 anos, até senhoras, viúvas, que se tornaram arrimo de família – acompanha sua maior inserção no mercado de trabalho, de modo particular, no ambiente fabril. No que toca o mundo dos livros, observamos, de modo geral, que o projeto idealizado por Deltufo deitou raízes na nascente indústria francesa, tendo os novos empresários da mídia impressa logo percebido que a exploração da mão-de-obra feminina, em idade adulta ou infantil, se lhes afigurava como um recurso seguro e rentável. Afinal, os operários há muito davam amostras do efeito perverso das greves para o bom andamento dos negócios do livro e da imprensa de modo geral[3].
Participação das mulheres em diferentes etapas da produção do livro http://autourduperetanguy.blogspirit.com/histoire_litteraire/

Essas mudanças no mundo do trabalho e do livro, as quais se tornam patentes em meados do Oitocentos, culminaram não apenas na presença da mulher em ambiente ostensivamente masculino, como em sua organização política. Todavia, se a participação da mulher na nascente indústria gráfica constituiu importante fermento para as organizações sindicais nesse setor, a emergência de movimentos feministas, na segunda metade do século, os quais tiveram na França seu principal centro geográfico, concorreu para as primeiras dissensões entre os “operários do livro”, para falar como Paul Chauvet.
Isso porque, desde muito cedo, como pudemos notar no caso da Imprimerie des Femmes, houve sérias resistências à inserção das mulheres nos negócios do livro e do impresso. Cumpre notar que malgrado o fato de a presença feminina ter se tornado cada vez mais expressiva no mundo do trabalho (ao lado do homem) apenas muito lentamente sua imagem se descola da figura da mãe, da musa, enfim, do ente social frágil à mercê da proteção masculina. E se a imagem da “mulher/mãe-de-família”, ancorada no modelo familiar burguês, torna-se senso comum em todos os meios sociais, o destino das militantes não seria mais promissor no meio operário, sobretudo entre certas tendências socialistas que se tornam dominantes no ambiente das tipografias, nas décadas de 1840-50. Lembremos, apenas a título de exemplo, das atitudes francamente antifeministas, senão misóginas, correntes nas fábricas, as quais culminaram em disputas abertas entre homens e mulheres no movimento operário, conforme veremos mais adiante. Dentre os militantes socialistas, o maior exemplo de investida anti-feminista, bem apropriado ao mundo dos livros, seria o de Proudhon e seu libelo La pornocratie, ou Les femmes dans les temps modernes [Paris: A. Lacrois, 1875][4].
Exemplos mais amenos podem ser extraídos do Dictionnaire de l’Argot des Typographes, de Eugene Boutmy [1883], em que são levantadas as gírias usadas pelos operários do livro. Além das mudanças sensíveis que se notam nos termos correntes da época em relação àqueles desfilados pelo pai Séchard de Ilusões Perdidas, observa-se, de modo geral, que as gírias se encerram em referências deliberadamente masculinas. À mulher são reservadas as corriqueiras frases galantes, em geral cantadas em verso, nas quais as associações MULHER-VINHO-AMOR são exploradas em suas múltiplas variantes[5].
Também a questão da saúde no trabalho afeta diretamente a rotina das typotes, como eram chamadas as operárias dos livros. Particularmente quando se nota em Paris e na Província, a partir de 1860, a emergência de verdadeiros parques gráficos, com suas rotativas a plenos vapores, fato que conduz a uma nova fase de especialização e hierarquização nas oficinas impressoras. Outrossim, a exposição a substâncias altamente tóxicas, como o chumbo, utilizado para a fundição dos tipos, torna-se ainda mais intensa. Logo, se frases de ordem do tipo “Ele não quer nos envenenar, ele prefere nos ver morrer de fome e de sede”[6], como proclamaram as typotes da Imprimerie des Femmes, faziam eco entre as oficinas de modelo artesanal, agora a situação adquiria novos contornos.
É o que demonstra um inquérito sobre higiene e saúde na indústria gráfica, em que são levantados, pela primeira vez, em 1861, as consequências do trabalho nas tipografias para as typotes. Segundo o documento,
dos 141 casos de gravidez constatados, foram verificados 82 abortos e quatro partos prematuros. Cinco crianças vieram ao mundo mortas, vinte morreram no primeiro ano, oito no segundo, sete no terceiro e um no quarto. No total, apenas dez das doze crianças haviam passado da idade de três anos[7].
Do ponto de vista organizacional, a polarização de interesses entre homens e mulheres no ambiente fabril, as próprias condições desiguais de resistência ao trabalho e à cultura machista, arraigada na sociedade como um todo, tornaram inviável, senão, árduo o caminho da aliança política. Mesmo entre os operários do livro. Tal realidade se reflete no esforço de arregimentação das múltiplas formas de organizações profissionais, entre associações, ligas, sociedades, sindicatos, em uma única federação da categoria. Esta nasce apenas em 1885, sob a chancela de Fédération Française des Syndicats du Livre, após quase um século de luta, em que fatores internos, relacionados à forte hierarquização no ambiente fabril, somam-se a outros, de ordem ideológica, geográfica, política e econômica[8].
Imagem do site: http://www.ze-magzine.com
As organizações de operárias correspondem, por sua vez, à amplitude atingida pelos movimentos feministas no segundo meeiro do século. Seria fácil repetir uma fórmula pronta, segundo a qual as feministas ganham corpo nas fábricas devido à reação machista ou mesmo misógina dos operários. Esta resposta simplista impõe-se quando se ignora a própria evolução do movimento operário após a Ia Internacional e, conforme apontamos anteriormente, as especificidades da presença feminina no mundo do trabalho. Além das questões relacionadas à higiene e saúde, as quais apontaram um quadro bastante trágico, outros fatores, tais como a queda brusca dos níveis salariais, as ações violentas das autoridades governamentais contra as militantes e a consequente dificuldade de organização política dificultaram drasticamente a ação efetiva das ligas feministas contra os capitães da indústria gráfica[9].
De fato, o aparecimento do Syndicat des Femmes Typographes, em março de 1899,  resultou da luta de lideranças feministas reunidas no jornal La Fronde, sob a direção de Marguerite Durant, pelo direito de se fazerem representar em uma entidade de classe. Em 1900, seria fundada a Association Coopérative des Femmes Typographes. Essas organizações se dão em resposta às represálias movidas contra as typotes pela Fédération du Livre, em uma longa disputa que atingiu seu clímax em 1901, no incidente Berger-Levrault. Este e outros incidentes, ocorridos na virada do século, radicalizaram as tensões entre operárias e operários, colocando em cena tanto as fissuras entre os movimentos feministas, os quais ganham projeção nas primeiras décadas do novo século, quanto os pontos de vista de operárias e operários do setor gráfico. Apenas nos anos de 1910 a Fédération du Livre, pouco mais tarde organizada sob a forma de uma central sindical, viria a aceitar a adesão das mulheres. Primeira grande vitória mais de um século após a criação da Imprimerie des Femmes, quando as mulheres invadiram o antigo templo dos livros, dominados pelos homens.



[1] Dictionnaire Encyclopédique du Livre. Sous La direction de Pascal Fouché. Paris: Éditions Du Cercle de La Librairie, 2005, vol. II, pp. 203-204.
[2] Assim escreve o Ministro do Interior no 18 Pluviose, ano IV: “Gostaria de poder satisfazer o seu pedido, mas todas as impressões do Governo são feitas na Imprensa Nacional e eu não tenho neste momento nenhum trabalho particular para vos passar”. Como tradicionalmente a Imprimerie des Femmes servia aos órgãos públicos, escusado dizer que esta carta resultou em seu sepultamento. Apud Paul Chauvet, Les ouvriers du livre en France. De 1789 à la constitution de la fédération du livre. Paris: Marcel Rivière, 1956, p. 266.
[3] Outros empresários ainda mais astutos passaram a contratar famílias de origem camponesa, de preferência, com boa educação católica, pretendendo, com esta estranha atitude, manter boas ovelhas em suas oficinas impressoras. Cf. Jean-Yves Mollier, O dinheiro e as letras. História do capitalismo de edição. São Paulo: Edusp, 2010.
[4] Dictionnaire de la Commune. Dir. par Bernard Noël. Paris: Fernand Hazan, 1971.
[5] Sobre a cultura dos operários tipógrafos, ver artigo de Marguerite Ribérioux em Histoire de l’édition française. Le temps des éditeurs. Dir. Par Henri-Jean Martin et Roger Chartier. Paris: Fayard, 1990.
[6] Paul Chauvet, op. cit., p.264.
[7] Armand Lévy, Mémoires pour les typographes, 1862. Apud Paul Chauvet, op. Cit., pp.590-591.
[8] Dentre os fatores ideológicos, pensemos nas correntes socialistas que percorrem todo o século, ora colaborando umas com as outras, ora opondo-se umas às outras em questões pontuais. A questão geográfica se verifica na clássica oposição de duas cidades fortes no campo da produção impressa, Lyon e Paris, mas, também, na disputa entre Paris e as regiões provincianas. Finalmente, os fatores político e econômico, os quais se apresentam como entraves para a unificação dos operários do livro, considerando o longo ciclo revolucionário e de instabilidade francês, o qual se estende até 1870, quando se inaugura a III República (a mais longa da História daquele país).
[9] Para uma análise mais global e aprofundada dessa questão, cf. Mary Lynn Stewart, Women, work and french State. Labour protection and social patriarchy (1879-1919). Quebec: Queen’s University Press, 1989.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sobre Livros - A primeira Biblioteca Pública de São Paulo


Sendo certo que as Bibliotecas Publicas muito concorrem para os progressos das Artes, e Sciencias, de que dimanão tanto bem aos povos, e vendo a solicitude, com que Sua Magestade (sic) o Imperador Tem protegido a Instrucção, e Letteratura n’este Imperio, julguei, que obrando n’esta conformidade, satisfaria as Suas Beneficas Intençoens, e por isso assentei, de unanime accordo com a Junta da Fazenda, estabelecer n’esta Capital huma Bibliotheca (...) 

Vista de São Paulo, em aquarela de Thomas Ender, 1817. A última torre à direita, já acompanhando a linha do horizonte, vê-se o Convento de São Francisco, fundado em 1647.
Em 1825 seria ali instalada a primeira Biblioteca Pública de São Paulo.
Data de 24 de abril de 1825 a inauguração da biblioteca pública de São Paulo. É a primeira da província, mas não do Brasil. Antes, foram oficialmente inauguradas as bibliotecas públicas da Bahia, em 1811, e a do Rio de Janeiro, em 1814. A primeira representa o esforço da elite local no sentido de ilustrar as gentes. Para tanto, a biblioteca foi organizada com recursos particulares, aos moldes dos gabinetes de leitura, organizações que começavam a surgir nas cidades portuguesas, aqui chegando algumas décadas mais tarde. Já a biblioteca criada no Rio de Janeiro, nos tempos do Regente d. João, tinha uma característica muito peculiar, porquanto seu acervo era parte integrante de todo o aparato trazido pela família real durante sua transferência para o Brasil. Franqueada para um seletíssimo público, este exemplar não parece ter relação direta com os ventos emancipacionistas que pairavam por todas as partes, naqueles momentos decisivos do sistema colonial.
Lembremos que em 1822 a cidade se tornara sede administrativa da província. Em 1823, ela ganhou o título de Imperial. No mesmo ano, S. Paulo figurava nos acalorados debates da Assembléia Constituinte como candidata a abrigar a primeira Universidade da nação. O projeto de uma universidade não vingou, mas por lei aprovada em 11 de agosto de 1827, Olinda, ao norte e São Paulo, ao sul, tornaram-se os dois centros de formação jurídica do país. Mesmo que todos estes fatos não tenham provocado, em curto prazo, alterações na vida material citadina, eles indicavam novos caminhos. Políticos, certo. Mas também culturais. A biblioteca acenava, pois, para a emancipação espiritual da cidade.
Qual raciocínio Lucas Antônio Monteiro de Barros poderia apresentar junto ao poder central, para justificar a abertura de uma biblioteca pública, senão o de uma missão civilizadora, ainda que refreada pelas dificuldades de se fazer avançar a sociedade como um todo? É o que observamos no ofício endereçado a João Severiano Maciel da Costa, representante da Junta da Fazenda Nacional, que passamos a citar:

Uma vez reorganizado o governo, coube ao primeiro presidente da província de São Paulo, Lucas Antônio Monteiro de Barros, visconde de Congonhas do Campo (1767-1851), a proposição de uma série de medidas que visavam incrementar os recursos materiais e mentais da urbe. Durante sua administração, entre os anos de 1824 e 1827 – com alguns interlúdios, devido à atuação simultânea como senador por São Paulo – verificou-se a instalação, em 1825, do Seminário da Glória, destinado à instrução de meninas órfãs pobres e de uma roda dos expostos, anexa à Santa Casa de Misericórdia. A reforma do Jardim Público da Luz, fundado em 1799 pelo capitão-general Antônio Manoel de Melo Castro e Mendonça, que por estes tempos se encontrava em estado de abandono, foi igualmente executada pelo dito Presidente, durante sua gestão.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor – Sendo certo que as Bibliotecas Publicas muito concorrem para os progressos das Artes, e Sciencias, de que dimanão tanto bem aos povos, e vendo a solicitude, com que Sua Magestade (sic) o Imperador Tem protegido a Instrucção, e Letteratura n’este Imperio, julguei, que obrando n’esta conformidade, satisfaria as Suas Beneficas Intençoens, e por isso assentei, de unanime accordo com a Junta da Fazenda, estabelecer n’esta Capital huma Bibliotheca (...) induzindo-me mais, para pôr em pratica esta medida, a consideração de ser conveniente ir desde já facilitando os meios precisos para o Estabelecimento de huma Universidade n’esta Provincia, como se tinha deliberado na Assembleia geral Legislativa, e de haverem [sic] n’ella muitos homens estudiozos, e de talentos, que não os cultivão pela falta de boas obras, e ainda mais pela de meios, para as obterem, inconveniente este que cessa com similante providencia (...) Rogo portanto á V. Exa. queira levar ao Conhecimento de Sua Magestade (sic) Imperial, quanto tenho ponderado, esperando da Beneficencia do Mesmo Augusto Senhor, que Haja de Approvar este procedimento, para o qual também tive em vista, que a multiplicação d’estes, e outros interessantes Estabelecimentos, alem de fazerem avançar rapidamente a Civilização, e Instrucção Publica, dão credito á grande Nação Brazileira. Deos guarde a Vossa Excellencia. São Paulo, 1º de setembro de 1824. – [assinado por Lucas Antonio Monteiro de Barros. Presidente de Província da cidade de São Paulo].
Os espaços de leitura na cidade de São Paulo (1870-1825)
Mapa desenhado por Ederson Munhoz Reis Matos
Teve boa acolhida a proposta, posto que dois meses mais tarde, tempo necessário para o encaminhamento do pedido e a condução do processo, o presidente de província recebeu parecer positivo tanto para a reforma na estrada de Cubatão a Santos, concluída em 1827, quanto para a abertura da biblioteca pública.
De forma sintética, os argumentos expostos podem ser compreendidos nos termos seguintes. A falta de livros, malgrado o fato de “de haverem [sic] n’ella [na cidade] muitos homens estudiozos, e de talentos”, era um empecilho para o progresso das artes e da ciência. Além disso, o projeto visava à criação de uma universidade. Idéia que se discutira nas Cortes de Lisboa, na época de d. João VI e que se fortaleceu após a proclamação da Independência. E como o próprio governo provincial deixou entrever em seu discurso, todas essas medidas não se destinavam exclusivamente à cidade, ou à província, mas à nação. O projeto de uma biblioteca pública se tornava uma possibilidade, amparado no discurso civilizador e no afã de fazer da cidade o centro ideal para a recepção de uma universidade.
Por quais outros meios, senão os livros, estimular-se-ia, enfim, o conhecimento científico das gentes? Nesses termos, somente as idéias de civilização e progresso subjacentes ao livro poderiam explicar os esforços no sentido de fazê-lo circular de forma mais ampla. Era este, afinal, o espírito do tempo.
À parte o significado escolástico atribuído ao termo “civilização” e à idéia de “civilidade”, que foi amplamente difundida no Império português desde os tempos do Marquês de Pombal (1699-1782), vale lembrar que os espíritos mais ilustrados do Império brasileiro igualmente se empenharam nessa mesma missão civilizadora durante todo o Oitocentos. A própria instalação de cursos superiores em capitais estratégicas do país: no Rio de Janeiro e em Salvador, as faculdades de Medicina; em Olinda e em São Paulo, conforme assinalamos, os cursos de Ciências Jurídicas e Sociais o testemunham.
Enfim, podemos dizer que o elemento principal de diferenciação entre as reformas verificadas no período pombalino e as realizadas no Império brasileiro reside no fato de que todo o suporte cultural promovido pelas classes dirigentes nacionais se insere em um novo contexto, o da formação de uma classe hegemônica com matiz nacional. O que atentava à busca de novos paradigmas alheios ao circuito lusitano.
A versão completa do presente texto se encontra em Império dos Livros: instituições e práticas de leituras na São Paulo oitocentista. São Paulo: Edusp; Fapesp, 2011.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

DiverCidades - Alba Iulia

Para começar o novo ano, memórias de uma viagem

Fachada da biblioteca Batthyaneum, Alba Iulia

A cidade e os livros

A fachada do edifício que abriga a biblioteca Batthyaneum nada revela da monumentalidade de seu interior. Antiga igreja católica de arquitetura sóbria e dimensões imodestas, adaptada para comportar um observatório astronômico, uma singular coleção de objetos (mapas, moedas, tábuas escritas, peças de cavalaria etc.) e uma notável biblioteca. A instituição foi instalada no final do século XVIII, no coração de Alba Iulia/Karlsburg/Gyulafehérvár, esta cidade antiga, capital da Dácia Romana (Apulensis), que remonta ao segundo século de nossa era.
É de fato curioso o contraste que ali se observa entre a cidade e o complexo Batthyaneum. Os vestígios arqueológicos descobertos no centro de uma enorme fortaleza, situada às margens do rio Mureş/Maros, denunciam o caráter predominante da função militar na urbanística da Apulum dos dácios. No século IX, a cidade ressurgia sob o nome de Belgrad/ou Belograd (Castelo Branco, nas línguas eslavas), tendo-se tornado sede do duque de Geula/Gyulia/ou Jula. A bela catedral que domina a face interna da praça fortificada data dos séculos XII e XIII, símbolo máximo da presença do papado nesta cidade que se tornara sede do episcopado da Transilvânia, sob o reino do católico Santo Estêvão (c. 975-1038), o primeiro rei da Hungria .

Catedral de Alba Iulia, sec. XII
Foi nessa mesma fortificação que se travou a célebre batalha de Johan Corvin (1356-1456) contra os otomanos, em 1442. Um século depois, a então Gyulafehérvár foi elevada à condição de capital do Principado da Transilvânia. Embora Alba Iulia tenha se desenvolvido sob o Império Húngaro, novas batalhas travadas durante toda a época moderna sedimentaram nessa cidade-fortaleza diferentes camadas de civilizações, povos, regiões, crenças e templos. Assim, a coroação de Ferdinand da Romênia, em 1922, simbolizaria o ato de Miguel, o Bravo, em 1601, primeiro monarca a reunir sob sua Coroa os principados da Valáquia, Moldávia e Transilvânia.
Mas a cidade-fortaleza não nos conta apenas estes momentos-chave de formação territorial e política a um só tempo de magiares, romenos e saxões. A função militar de Alba Iulia atinge seu ponto alto no alvorecer da contemporaneidade, quando a antiga fortaleza recebeu novos bastiões em sua face oriental – sete, ao todo, entre 1716 e 1735 – para a proteção contra os otomanos. Obra do arquiteto Giovanni Morando Visconti, segundo as coordenadas do sistema Vauban , que não deixa dúvida sobre a grandeza da Casa de Áustria no Setecentos.
Foi nessa mesma época que Ignatius Sallestius de Batthyan (1741-1798) fundou aquele que seria o bastião da cultura ilustrada de Alba Iulia, senão de toda a Transilvânia. É bem verdade que, como temos visto, a região parece bem provida de templos e livros que nos convidam a adentrarem tempos diversos de sua conturbada história. Em todo caso, a Batthyaneum, fundada em 1792, ostenta uma realidade bibliográfica e documental digna de nota: mais de 71 500 livros (entre manuscritos, mais de seiscentos incunábulos, além de raridades impressas após 1500) . Desde 1961 ela é filiada à Biblioteca Nacional da Romênia .
Interior da biblioteca Batthyaneum, Alba Iulia
Sobre seu patrono, Ignatius Saletius, conde de Batthyàn, algumas palavras: “Iniciou os estudos no Colégio Piarista de Pest para logo em seguida frequentar diversos outros centros europeus: Universidade dos Jesuítas Trnovo/Nagyszombat, no Seminário de Esztergom e na Universidade dos Jesuítas de Graz” . Ordenou-se em Roma, onde cumpriu os estudos no Collegium Germanicum et Hungaricum, em 1763. Daí em diante, seguiu uma carreira político-religiosa meteórica nos tempos do Imperador José II (1765-1790). Vivendo sob os ventos revolucionários que abalaram o Velho Mundo e as casas reais de oeste a leste, o então bispo da Transilvânia se envolveu em pelo menos três questões espinhosas que tocavam os interesses da Áustria, da Hungria: defendeu, em 1781, o polêmico Edito de Tolerância, que observava o exercício da fé de religiões não católicas; desempenhou papel importante na defesa dos padres católicos durante as revoltas camponesas de 1785-1785 na Transilvânia; foi protagonista do movimento de reforma do ensino, imposta pelo Estado, em 1776, após a expulsão dos jesuítas, por meio da Ratio Educationis. 
Por esse breve resumo não é difícil imaginar a Batthyaneum como fruto dos anseios e contradições de um nobre religioso, partidário da Aufklärung . A própria biblioteca se instalara no contexto de dissolução das ordens religiosas, vindo a ocupar a igreja do convento dos Trinitários com a finalidade de ali se instalar uma biblioteca pública e uma academia nos moldes clássicos, tão em voga naqueles tempos. O resultado não poderia ser mais eloquente. A fachada discreta da igreja, em contraste com uma praça-forte de dimensões colossais, dissimula um projeto sofisticado que ocupa toda a porção superior da nave do edifício, donde observamos, estupefatos, dois andares repletos de livros, que preenchem belas estantes decoradas com alegorias greco-latinas.
Difícil descrever o acervo bibliográfico desse templo impetuoso. Uma tarde foi muito pouco para observar em detalhe os livros selecionados pela bibliotecária diligente que nos acolheu. Ao todo oito manuscritos sobre pergaminho, três raridades impressas na era pós-Gutenberg, ex-libris de notáveis e outros objetos não menos impressionantes, entre eles tabuinhas com escrita cuneiforme gravadas em terracota, placas impressas sobre vidro do célebre Códex Aureus e algumas peças de cavalaria datadas dos séculos XVI e XVII . Não houve oportunidade para conhecer os documentos conservados neste acervo, na maior parte reveladores da vida e obra de seu patrono. 
Parece interessante, todavia, atentar para o caráter multilinguístico da coleção bibliográfica, testemunho da intensa circulação cultural observada nessa região desde a época moderna. Manuscritos e impressos latinos predominam, o que torna esta instituição mundialmente reconhecida pelos estudiosos dessa área; obras em romeno, manuscritas e impressas em cirílico ; raridades da imprensa húngara, do século XVI ao XVIII ; manuscritos e impressos em alemão, os quais concorrem para os estudos sobre a presença de imigrantes da Saxônia em toda a região, cuja importância toca não apenas as questões relacionadas com a História do Livro, como vimos anteriormente, mas com a própria formação social, religiosa e arquitetônica da Transilvânia.

Artigo publicado na íntegra em Livro, n.2 - Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, São Paulo, 2012.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Feliz Natal & Próspero Ano Novo

Catedral de Poitiers, Março de 2013

Feliz Natal!

Por um Natal justo e amoroso

Feliz Navidad 

Feliz Navidad próspero anõ y felicidad

Merry Christmas 

I wanna wish you a Merry Christmas

From the bottom of my heart !

Joyeux Noël

Que la nouvelle année sonne comme une belle chanson d'amour!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre Livros - Diálogo com as Formas

Corpo e Alma do Livro

Sobre os mistérios que guarda a forma do livro, muito se escreveu. Pensemos na própria “lei de Gregory”, relativa a um aspecto curioso, senão, miraculoso do livro. A dobra das folhas de pergaminho fazia tocar, invariavelmente, os mesmos lados da pele, donde a fórmula: “carne contra carne”, “flor contra flor”, esta última designando o toque da face exterior.


Esses muitos mistérios nos remetem à própria origem da forma livro e sua longa duração na história ocidental. Sabe-se que o códice, ou livro formado a partir da dobra e junção das folhas apareceu na Roma Antiga, no primeiro século de nossa era. Demorou pelo menos quatro séculos para superar o rolo, ou volumen, formato que nos parece hoje um tanto desajeitado, pois obriga o leitor – à semelhança do que faz diante da tela de seu notebook – a “correr” o texto no sentido vertical, num prolongado desenrolar da página.
Dentre as muitas hipóteses formuladas em torno da vitória do códice sobre o rolo, duas sortes de argumentos saltam às vistas: aquele que vincula o novo formato às práticas cristãs de leitura do Evangelho; e, no extremo oposto, a disseminação de seu uso entre leitores de literatura, ou seja, o códice voltado para a fruição das letras. Fixemo-nos neste último caso, ainda que pareçam tênues os limites entre os usos sagrado e profano do livro por nossos personagens.


Aquarela de Dante Rossetti (!828-1882)
Sabe-se que este mesmo formato conduziu à perdição Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, no Canto V do Inferno de Dante. Enquanto liam o livro de Lancelote, este lhes fugiu das mãos no momento em que o cavalheiro beijava a rainha Ginevre. O beijo de um livro se prolongou n’outro e Dante se limitou a dizer que a leitura não foi adiante. Francesca apenas acrescenta que Paolo com “la bocca mi basciò tutto tremante”. O verso dispensa tradução, mas nós sabemos que aquela leitura provocou o ciúme e a violência mortal de Gianciotto, o marido traído. A punição do casal foi a de serem eternamente lançados pelo vento de suas paixões sem jamais se tocarem.
Como o corpo da pessoa amada, abrimos o livro e lhe acariciamos as páginas com emoção. É verdade que a exemplo dos “encontros” virtuais, existe a literatura sem o velho suporte de papel. E há quem a prefira. Mas é difícil acreditar que um beijo virtual seja melhor do que aquele que condenou Paolo e Francesca. As formas do amor são tantas quanto os modos de ler. Assim amor e livros guardam para si seus mistérios.

Escrito com a colaboração de Lincoln Secco e publicado em versão impressa na Revista Brasileiros - www.revistabrasileiros.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sobre Livros - A maldição da letra de forma

A consciência de que a letra impressa rouba ao autor o controle sobre o escrito moveu teóricos e profissionais do livro por longos séculos


Manuscrito de Petrarca
http://www.citas-latinas.com.ar/2009/05/petrarca-y-el-humanismo.html
Os primeiros livros de Petrarca (1304-1374) foram autógrafos. Desconfiava o poeta que seus trabalhos fossem desvirtuados pelos copistas. Desse modo, ele escrevia e reproduzia do próprio punho seus textos, gesto que assegurava ao autor (auctor) a autoridade (auctoritas) e o pleno controle sobre sua arte.
A era inaugurada por Gutenberg (c.1398-1468) tornaria impraticável esta escolha. É bem verdade que apenas a nova ars impressoria pôde garantir à escrita, através da reprodução mecânica em série, regularidade e ampla difusão. Donde sua vitória sobre o manuscrito, processo que não se deu tranquilamente, tais foram as reservas que autores e leitores guardaram com relação à nova tecnologia. “Arte negra”, tomada pelo diabinho Tityvillus, que atentava revisores, compositores e impressores no processo de produção da letra impressa. Não falemos sobre as gralhas – erros tipográficos – que celebrizaram tantas edições princeps, as quais compõem todo um almanaque de curiosidades e de cobiças entre bibliófilos e bibliômanos.
Pensemos, antes, na figura do autor. Por fatalidade do destino ou fortuna, a maldição da letra impressa o fez refém da técnica, ao mesmo tempo que lhe rendeu honrarias e – quando muito afortunado – riquezas materiais. 
Dom Quixote
O sucesso e a fatalidade fizeram com que Cervantes (1547-1616) reinventasse seu Dom Quixote, em uma segunda jornada. Eis que o cavaleiro então se depara, em Barcelona, com uma tipografia. Entra e se encanta com a descoberta. A escrita é ardilosa, põe em cena os segredos da “arte negra”, ao mesmo tempo em que discorre sobre as armadilhas da economia do livro, com seus muitos profissionais e interesses, não raro conflitantes, os quais opõem impressores, livreiros e autores. 
Num golpe certeiro, o cavaleiro se dá conta de que estão emendando uma Segunda Parte do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, “composta por um tal habitante de Tordesilhas”. Não a verdadeira, mas uma edição espúria:
Mario de Andrade (1893-1945)
 “_­­­­___ Já tenho notícias deste livro – disse Dom Quixote. Em verdade e em minha consciência, pensei que já estivesse queimado e feito em pó, por impertinente”. Pelo contrário. Da figura do herói, em detrimento do autor, tanto se lhe tirava proveito, na medida em que se a popularizava. Eis a armadilha.
A consciência de que a letra impressa rouba ao autor o controle sobre o escrito moveu teóricos e profissionais do livro por longos séculos. Tem significados profundos, até a contemporaneidade. O debate em torno do direito autoral frente as novas tecnologias está na ordem do dia. No fundo, estamos às voltas com a velha questão do império da forma (ou do suporte) sobre o conteúdo. Mais vale pensar como Mario de Andrade (1893-1945), numa solução consoladora diante de um fato consumado. Escreve o autor à amiga Henriqueta Lisboa, em 10 de março de 1943: “É natural isso da gente cair num abatimento desiludido cada vez que publica um livro, eu sempre fico desolado quando enfim uma obra minha se converte a essa realidade brutal e castigadora de letra-de-forma”.


Artigo publicado em versão impressa e digital na Revista Brasileiros www.revistabrasileiros.com.br

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobre Livros - Efeméride


Paula Brito: Editor, Poeta & Artífice das letras

“O primeiro editor digno deste nome que houve entre nós.” (Machado de Assis)

Celebra-se em 2 de Dezembro do corrente o natalício do primeiro editor brasileiro.
Paula Brito (1809-1861) despontou na cena pública carioca em tempos de lutas políticas, as quais culminaram na abdicação de d. Pedro I, em 7 de abril de 1831. Por essa época, o jovem tipógrafo – que aprendera o ofício na Imprensa Nacional – aperfeiçoava suas habilidades artísticas nas oficinas de Pierre-Seignot Plancher, fundador do Jornal do Commercio e proprietário de prestigiosa tipografia. Ali traduziu textos franceses, foi compositor e mestre-impressor.
Jovem, negro, de origem humilde, autodidata. Atuando em um cenário de instabilidade política e, vale lembrar, diante de um mercado de bens culturais dominado senão exclusivamente por franceses, mas por modelos europeus, Paula Brito rompeu as barreiras impostas aos de sua classe, vindo a constituir sua própria livraria e uma respeitável tipografia. Não obstante, o artífice que conhecera todas as etapas da produção gráfica, ao que mais tarde somaria o domínio sobre a litografia, logrou se tornar o primeiro livreiro-editor brasileiro de expressão no meio literário fluminense.
A livraria situada na Pça. da Constituição, no 64 (atual Pça. Tiradentes), agremiou romancistas, poetas, dramaturgos, pintores, políticos, em um só termo, uma coterie bastante expressiva no mundo das artes. Apenas para citar alguns nomes de maior vulto, freqüentaram seu estabelecimento: Gonçalves Dias, Laurindo Rabelo, Joaquim Manuel de Macedo, Araújo Porto Alegre... Era a Sociedade Petalógica, neologismo por ele criado, a partir do prefixo “peta” (mentira), o lugar por excelência do livre pensamento e da convivência franca, o que era não era cousa de pouca monta, à vista das dissensões que dominavam a cena política daqueles tempos. 
 Em 1850 fundou a Typographia Dous de Dezembro. A data guarda uma feliz coincidência, a qual merece ser registrada nas efemérides brasileiras. D. Pedro II e Paula Brito nasceram no mesmo dia. Não poderia ser outra a data escolhida para a inauguração daquele verdadeiro empreendimento industrial, sob os auspícios do imperador do Brasil.

Imagens extraídas de 
Paula Brito: Editor, Poeta, Artífice das Letras. Org. por Marisa M. Deaecto, Plinio Martins Filho e José De Paula Ramos Jr. São Paulo: Edusp; ComArte, 2010.