Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sobre Livros – Encadernação


Com nervo ou à grega?

Exemplar de 1399, do Musée de Cluny (Paris-França)
 A encadernação nasce da necessidade de proteção do miolo do livro. No caso dos rolos, o pergaminho era embrulhado e etiquetado para sua melhor identificação, tendo em vista todas as dificuldades de armazenamento e catalogação face às facilidades que mais tarde seriam encontradas no códice. É claro que esta evolução se demora, pelo menos cinco séculos a contar do primeiro de nossa era.
Mas a encadernação evolui tanto quanto o objeto ao qual ela se destina a proteger.
O salto mais significativo ocorre, sem dúvida, entre os manuscritos produzidos a partir do século XIII. Em particular entre os códices ricamente decorados e encadernados, com seus fechos decorados e seus motivos artísticos gravados com materiais nobres. Exemplo superlativo da comunhão entre técnica e arte são os livros encomendados pelos duques de Burgonha, na Flandres meridional, entre os séculos XIV e XV.
Na primeira idade da imprensa os livros guardaram aqueles mesmos atributos de enobrecimento. Uma tradição multissecular que não desaparecia, ou melhor, que não pereceria frente à voracidade das prensas e da nova cadeia produtiva na qual ele se inseria.
No caso das encadernações, uma mudança de peso ocorre na primeira grande oficina impressora atuante na virada do século XV para o XVI. O ateliê tipográfico de Aldo Manúzio (1450-1515) fez escola no campo da ars tipográfica, ao desenvolver e disseminar os caracteres latinos (romanos) em detrimento da herança gótica deixada pelos primeiros tipógrafos germânicos; no campo da edição, ao reunir em torno de sua república – a República Aldina – um grupo de sábios dedicados à leitura, seleção, tradução e cotejo de textos antigos, especialmente os gregos; e das práticas editoriais como um todo, ao diversificar a produção de formatos, conceber coleções, enfim, um padrão editorial que singularizada sua casa frente às demais.
Na oficina aldina se desenvolveu um ateliê de encadernação e, com ele, uma nova técnica que se converteu em uma nova estética.
Encadernar um livro à grega, donde o verbo "grecquer" em francês para designar a mesma ação, tornou-se uma prática atribuída à oficina de Aldo Manúzio. Expandiu-se com o tempo, criando o padrão "à grega".
Em que consiste esta prática ?
Lembremos que as lombadas eram constituídas de nervuras, as quais, por sua vez, eram feitas com nervos de boi. Donde a denominação nervo ou nervura para aquela linha saliente que atravessa de forma longitudinal o lombo do livro. Diz-se "falso nervo" para as mesmas linhas ou saliências que são criadas ainda nos dias atuais com uma finalidade eminentemente estética. No entanto, nas suas origens, os nervos de boi tinham a função de amarrar, ou de reforçar a amarração dos cadernos antes destes serem encadernados.
No sentido anti-horário, vemos descritos os procedimentos de "grecquage" do lombo,
com a finalidade de se constituírem sulcos através dos quais serão passados os fios destinados
 a prender (costurar) os cadernos.Como estes fios ficam no interior do lombo, evita-se a saliência tradicional das nervuras. Fonte: Lucile Olivier, La Reliure. Bases et Bons Gestes. Fotos de Antonio Duarte. Paris: Massin, 2005.
 
A encadernação "à grega" rompe com este paradigma da nervura, uma vez que os cadernos são unidos e reforçados com costuras que atravessam cada uma das peças do livro, unindo-as. Fazem-se, antes, pequenos furos (ou cortes) que serão trespassados por fios suficientemente fortes para unir os cadernos, sem, no entanto, criar-se o efeito dos nervos. O lombo segue plano, como nos lombos atuais. A operação de corte ou perfuração longitudinal dos cadernos tem um nome preciso: "grecquage". Esta segue um gabarito, a partir do qual o encadernador tem, com precisão, o posicionamento dos furos para a ligação dos cadernos.
E por que este tipo de encadernação se chama “à grega”?
Exemplo típico de transferência cultural aplicado à arte do livro na renascença, a encadernação à grega se tornou logo um importante testemunho da atuação dos artífices gregos na Sereníssima, esta primeira cidade-mundo que funcionava como uma conexão importante das trocas realizadas entre o ocidente e o oriente. E, seguindo a fórmula braudeliana, os espaços são trocas, das mercadorias e das gentes.
Não seria possível, por exemplo, pensar-se no desenvolvimento dos tipos gregos para a impressão de edições bilíngues, sem a contribuição de puncionistas, compositores e, no limite, impressores que dominassem bem aquele alfabeto. Também os encadernadores gregos levaram consigo uma técnica diferenciada. Tão importantes quanto os intelectuais que deixaram sua marca naquele ilustre centro produtor de livros, foram os técnicos que criaram, também eles, uma tradição multissecular neste importante elemento do livro que é a encadernação.
Logo se vê que tradicional cisão entre “arte liberal” e “arte mecânica” observada na Renascença encontrava sua expressão máxima nas oficinas tipográficas. O que todos se esquecem é que a distinção não comprometia, todavia, a capacidade criativa de seus principais agentes.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre Livros - Códices Mesoamericanos


As Civilizações do Livro

Códices – Os antigos livros do Novo Mundo, de Miguel Léon Portilla, historiador e antropólogo mexicano, finalmente vertido para o português [Ed. UFSC, 2012], nos permite vislumbrar os principais livros mesoamericanos que antecederam à época das descobertas.


Um naco de pão e uma carta, era esta a encomenda que um missionário confiara a seu fiel aprendiz. O caminho era longo e, a certa altura, o jovem indígena comeu todo o pão e guardou a carta, a qual foi entregue, intacta, ao destinatário. Este a leu e perguntou ao jovem incauto pelo pão. A carta certamente mentia, respondeu o jovem, pois ele nada mais tinha a lhe entregar. O fato se repetiu. Mas, desta vez, o jovem indígena tomou certa cautela. Escondeu a carta atrás de uma pedra antes de comer o pão. Novamente, o missionário lhe perguntou o que havia acontecido, pois a missiva dava a notícia de que um pão lhe havia sido confiado. A carta certamente mentia, respondeu o jovem. Ele de fato comera o pão, mas a carta não o viu, pois ele tomara o cuidado de a esconder atrás de uma pedra.
A história se passa no século XVI e narra o primeiro contato de um jovem índio da Baixa Califórnia com a escrita. Mergulhado como estava no mundo da oralidade, o jovem não poderia ver naquela carta, na escrita, senão um ser animado e misterioso. Que até mentia!
A descoberta do Novo Mundo constitui um fato novíssimo na história das civilizações. Um marco na história moderna, já o sabemos. Uma primeira mundialização, dizem alguns historiadores, cujos reflexos nos campos da ciência, da política, da religião e da cultura ainda nos surpreendem. Conhecimentos novos que se converteram em livros, sob a forma de relatos de viagens, correspondências, mapas, estudos astronômicos, enfim, uma fortuna bibliográfica de valor inestimável a perder de vista nas principais bibliotecas de todo o mundo. Afinal, a invenção de Gutenberg tornara possível difundir a grande novidade por todas as partes do velho continente.
Mas o que sabemos sobre o contato dos povos americanos com os livros?
Códices – Os antigos livros do Novo Mundo, de Miguel Léon Portilla, historiador e antropólogo mexicano, finalmente vertido para o português [Ed. UFSC, 2012], nos permite vislumbrar os principais livros mesoamericanos que antecederam à época das descobertas. É bem verdade que esses exemplares não reproduzem de maneira rigorosa a forma-livro tal como ela se consolidara, há séculos, no Ocidente europeu. Pouco importa. Afinal, também a Europa conviveu com os livros-sanfona e os antiquíssimos rolos cujo uso se demorava no Oriente.
Replica do Codex Fejervary-Mayer, Liverpool Free Public Museums 
Interessa observar que as civilizações mesoamericanas conheceram diferentes níveis de contato com a escrita. Uma longa história que vai do jovem ingênuo que via no livro um ser animado – e mentiroso – ao altivo imperador inca Atahualpa, que negou a autoridade da Bíblia diante de um mensageiro de Pizarro, pois esta apenas lhe respondia com um longo silêncio às questões que ele lhe foram propostas. O que nos faz refletir sobre os encontros e desencontros dos povos da América com a escrita. E com o livro. Uma última história. Conta-se que um certo nahua-pipil, procedente de uma região que hoje equivaleria ao Pananá, notou nas mãos de um missionário um livro. Surpreso com a descoberta, perguntou-lhe simplesmente se os homens de seu mundo tinham o hábito de ler livros. O missionário não menos atônito respondeu que, sim, que ele vinha de um mundo onde as pessoas conheciam os livros. Sem muita cerimônia o indígena tomou-lhe o livro e se pôs a examiná-lo. Ocorre que se o objeto lhe era bastante familiar, a escrita lhe pareceu estranha. Não menos altivo que o imperador inca, porém, certamente mais curioso do que aquele, ele se pôs numa longa e acurada palestra com o missionário, permitindo-se comentar a escrita do outro e certos aspectos daquela estranha civilização, cujas notícias sobre os modos de viver chegavam até ele. Naquele momento, civilizações tão diferentes, enfim, se encontraram. E não era menos certo de que o conhecimento do mundo pelos livros fixara um laço entre os dois convivas. Dois personagens, enfim, dolorosamente ligados pelos muitos desencontros que os livros registraram neste importante capítulo da história das civilizações.
Artigo publicado em versão impressa na Revista Brasileiros, março/2013.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre Livros - Da Página Manuscrita à Página Impressa

Continuando o tópico anterior sobre a razão gráfica que preside a construção da página ...

Vista da cidade de Strasburgo (Argentina, em latim), tirada das Crônicas de Nuremberg, de Hartmann Schedel [Nuremberg: Anton Koberger, 1493]. Ninguém colocará em dúvida a genialidade da construção desta página,
cuja ilustração não só está em harmonia com o texto, mas dirige a distribuição do texto,
tomando como eixo a torre da catedral. Frédéric Barbier, L'Europe de Gutenberg. Paris: Belin, 2006, p129.
Se nossa atenção se volta para os diferentes processos que resultam em uma página impressa ou em uma obra arquitetônica, veremos que ambos não podem prescindir de um projeto. É o que vemos na Renascença italiana, quando emergem as “cidades ideais”. Segundo G. C. Argan reside nesta divisão de tarefas, a saber, a de pensar a cidade e a de torná-la exeqüível, o aparecimento de duas formas de trabalho: o reflexivo, as chamadas “artes liberais”, realizadas pelos intelectuais; e o manual, as “artes manuais”, realizadas por aqueles que as executam, os executivos.
Também fruto dos séculos de mutações que marcam o alvorecer da Época Moderna, a arte de impressão por meio de tipos móveis, ao se difundir no Velho Mundo a partir de meados do século XV, pressupôs nova forma de planejamento da escrita sobre a página. Não que os antigos escribas desconhecessem essa conduta. Os livros manuscritos que sobreviveram às intempéries do tempo testemunham os esforços por eles despendidos no sentido de organizar as palavras na superfície dos pergaminhos. Esforços que atentavam para os princípios estéticos e de legibilidade do texto, os quais se cristalizam na tradição tipográfica. Porém, a invenção dos tipos móveis exigia algo mais. Exigia o trato com as palavras por meio de instrumentos mecânicos. Talvez, nesse ponto, devamos reivindicar para os livros caracteres que os distinguem de outras manifestações artísticas, dentre elas a arquitetura, nesse contexto de nascimento das “artes liberais” e das “artes mecânicas” às quais alude G. C. Argan. Pois, antes de ter promovido a divisão do trabalho, a arte tipográfica promoveu, nos seus primórdios, a concentração de diferentes competências nas mãos de um só artífice.
A conhecida Biblia de 42 linhas, impressa por Gutenberg, em Mainz, por volta de 1450, constitui exemplo eloquente do uso de múltiplas artes a serviço de um projeto.  
Página de Bíblia de 42 linhas (B42) imprensa sobre pergaminho por Gutenberg,
em Mainz (Mogúncia, em latim), por volta de 1445. 

O esforço de produzir as matrizes em que se fundem os tipos, de moldá-los e burilá-los, termo que não poderia ser mais exato, considerando-se que tal tarefa se realizava com o auxílio de um instrumento pontiagudo denominado buril, ao que se seguem as tarefas de dispor os caracteres racionalmente em um caixa de composição, de distribuí-los, em seguida, no componedor, formando os primeiros rudimentos de texto, os quais devem ganhar sua forma final após executadas, uma a uma as fases de composição e impressão... Ora, esse longo percurso, realizado em pequenas oficinas, só poderia ser fruto do engenho e da capacidade artística daqueles primeiros artífices obstinados no aperfeiçoamento de seus ofícios.
É claro que os princípios de divisão do trabalho não demoraram a se sobrepor à imagem rotineira dos tipógrafos solitários. Também o processo de construção do livro esteve à mercê de uma série de aperfeiçoamentos. Douglas Mc. Murtrie situa o longo período de consolidação da “arte impressória” entre meados do século XVI e meados do XVIII. No século XIX até as primeiras décadas do século XX a produção do livro se viu diante de novos processos determinados pelo ritmo da indústria. Da produção de massa. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sobre Livros e Cidades - A Página Manuscrita

UMA SOCIEDADE ANIMADA PELA PALAVRA, PELA ESCRITA E PELO COMPASSO


Tal perspectiva abre um novo questionamento, este de ordem estética, acerca da relação entre a escrita e a ordem urbana que se inaugura no "outono da Idade Média".


Em livro publicado na década de 1960, um grupo de especialistas se propõe a refletir sobre as aproximações entre Arte e Escrita. De modo particular, sobre as múltiplas interseções entre o processo de elaboração do pensamento e suas formas de representação gráfica. Um estudo em particular, apresentado por Robert Marichal, chama-nos atenção, tanto pela ousadia, quanto pela erudição do autor, ao destacar das páginas da Súmula de São Tomás de Aquino as relações entre o pensamento escolástico e a arquitetura gótica [ver L´Écriture et la psychologie des peuples. Paris: Armand Colin, 1967].

Robert Marichal situa os componentes gráficos que demarcam os múltiplos desenvolvimentos do texto: "estamos diante do final do artigo 1 da Questão 22, a qual trata da Providência, o artigo 2 se inicia na linha 28 da coluna 1 por um grande A em azul - o mesmo do artigo 3 será em vermelho - seguindo a fórmula tradcional: Ad secundum sic proceditur: videtur quod non omnia sint subjecta divine providentie, onde se apresenta um primeiro argumento em favor desta opinião, seguindo-se a cada enunciado pela f'ómula Preterea abreviada ... Na última linha da coluna vem o Sed contra ... Enfim, a partir da linha 33 são apresentadas as refutações dos cinco argumentos contrários expostos sob os Preterea da coluna 1, anunciados por ad primum ergo dicendum, ad secundum etc.". Importa observar que a estrutura argumentativa define ou é definida por uma ordem gráfica que organiza as ideias no espaço. Robert Marichal, "Les manuscrits universitaires". In: Mise en Page et Mise en Texte du Livre Manuscrit. Sous la Direction de H.-J. Martin et Jean Vezin. Paris: Cercle de la Librairie; Promodis, 1990. O autor analisa uma página do manuscrito de São Thomás de Aquino, Somme Théologique, Ia. Pars, 1268-1306. (B.N., ms. lat. 15783, fol. 40 vo.)
De modo análogo, podemos pensar que se a escrita corresponde à organização espacial do pensamento, parece compreensível que a leitura de um texto nos convide a refletir sobre a “razão gráfica”, para utilizar um termo de Jack Goody, que preside a disposição das palavras em uma dada superfície. Pois, assim como as cidades permitem múltiplas leituras a partir de suas construções e das formas como elas se dispõem no espaço, também o texto inscrito em uma página alude a outras formas de leitura que perpassam o campo estritamente semântico. Tais aproximações entre arte tipográfica e arquitetura se realizam, aliás, em vários planos. No que toca à visualidade da página, podemos pensar como o designer John Ryder, para quem o espaço revela tanto da mensagem [do texto] quanto os espaços da cidade são reveladores de sua arquitetura [apud. Richard Hendel, O design do livro. São Paulo: Ateliê Ed., 2006]. Outrossim, se nossa atenção se volta para os diferentes processos que resultam em uma página impressa ou de uma obra arquitetural, veremos que ambos não podem prescindir de um projeto. É o que vemos na Renascença italiana, quando emergem as “cidades ideais”. Segundo G. C. Argan reside nesta divisão de tarefas, a saber, a de pensar a cidade e a de torná-la exeqüível, o aparecimento de duas formas de trabalho: o reflexivo, as chamadas “artes liberais”, realizadas pelos intelectuais; e o manual, as “artes manuais”, realizadas por aqueles que as executam, os executivos.
Também fruto dos séculos de mutações que marcam o alvorecer da Época Moderna, a arte de impressão por meio de tipos móveis, ao se difundir no Velho Mundo a partir de meados do século XV, pressupôs nova forma de planejamento da escrita sobre a página. Não que os antigos escribas desconhecessem essa conduta. Os livros manuscritos que sobreviveram às intempéries do tempo testemunham os esforços por eles despendidos no sentido de organizar as palavras na superfície dos pergaminhos. Esforços que atentavam para os princípios estéticos e de legibilidade do texto, os quais se cristalizam na tradição tipográfica. Porém, a invenção dos tipos móveis exigia algo mais. Exigia o trato com as palavras por meio de instrumentos mecânicos. Talvez, nesse ponto, devamos reivindicar para os livros caracteres que os distinguem de outras manifestações artísticas, dentre elas a arquitetura, nesse contexto de nascimento das “artes liberais” e das “artes mecânicas” às quais alude G. C. Argan. Pois, antes de ter promovido a divisão do trabalho, a arte tipográfica promoveu, nos seus primórdios, a concentração de diferentes competências nas mãos de um só artífice.
Neste exemplo, o poema de Dante ocupa o centro da página. O comentário se situa nas colunas marginais e a ligação da leitura entre as duas partes é organizada a partir de um jogo de cores. Mantém-se, assim, um princípio hierárquico, segundo o qual o lugar de honra na página é guardado para o texto principal. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, com o comentário de Benvenuto da Imola. BnF, Manuscritos Ocidentais, italiano 78, fos 53 Vo-54.
[Estudo de Jacques Demarcq, "L'Espace de la page, entre vide et plein". In: L'Aventure des Écritures. La Page. Sous la Direction de Anne Zali. Paris: BnF, 2000]

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre Livros e Cidades

As Cidades e os Livros na Baixa Idade Média

Uma visada cartográfica

“Aliás, o livro é produto de um meio bem específico – a cidade, a polis. Realmente sem o apoio urbano, ele ter-se-ia confinado à sua forma esotérica, privilégio de poucos, sem a grande audiência das populosas e ricas urbes. Quando a cidade se alargou e se tornou exigente, o livro deu um passo a frente: transformou-se de manuscrito em impresso. Foi um longo e aturado labor, que demorou séculos a resolver. Mas perante a premência da cidade houve que achar novos processos técnicos que permitissem resolver a questão que estava neste ponto: o manuscrito é raro e por isso caro, a sua elaboração é morosa e por isso incapaz de responder às exigências de um século XIV ou século XV (...)". Jorge Peixoto, “Prefácio”. In Douglas McMurtrie, O livro. 3ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, pp. XI-XII.

Uma rua do Quartier Latin. Fotografia tirada em março de 2012,
 durante uma promenade instrutiva com Frédéric Barbier
Já é um truísmo afirmar que a emergência da economia do livro na Baixa Idade Média está estreitamente ligada ao renascimento das cidades e sua expansão no Velho Mundo. Como bem o observa Jorge Peixoto, “sem a grande audiência das populosas cidades” dificilmente o livro atingiria o impulso observado entre os séculos XIII e XV, o período laico dos códices manuscritos.
Além do fator demográfico já explicitado pelo autor, o desenvolvimento das funções urbanas (político-administrativa, mercantil, religiosa e educacional) nos leva a compreender este primeiro impulso do mercado de livros, o qual ultrapassa as fronteiras tradicionais do livro religioso, em comum acordo com a cultura escrita até então dominante. Há de se considerar, ainda, o aparecimento de uma instituição forte, a saber, a universidade. Interessante observar que a expansão das universidades faz emergir novos profissionais, tipos sociais diferenciados, de lentes e estudantes, certo, mas também de todo um corpo burocrático que estimula o espessamento das camadas leitoras.
Paralelamente a esse movimento, conforma-se nessa sociedade todo um corpo de profissionais do livro, entre copistas, iluminadores, encadernadores, pergaminheiros – logo, papeleiros – que vão aos poucos constituindo uma economia forte nos antigos conventos e mosteiros, mas, também, nas corporações leigas. Organizam-se, nesse momento, verdadeiros métodos de produção em série do livro manuscrito, através do sistema da pesciae e da ação do stationarius que orienta a reprodução de cópias com base na demanda de sua clientela. Ou, ainda, para usar um caso particular, mas que provavelmente se verificou noutras partes, a presença dos suppôts, este funcionário contratado pela Universidade de Paris, no século XIII, que se dedicava exclusivamente ao fornecimento dos livros encomendados pelo colegiado.
Também as universidades assistem ao desenvolvimento de corporações ligadas ao livro nas vizinhanças de sua sede. Assim a presença de editores e livreiros no velho quartier da Sorbonne, citando uma vez mais o caso parisiense. Ainda na rue Saint-Jacques dos nossos dias, a toponímia e alguns imóveis denunciam o movimento intelectual e sua relação com o universo livreiro ali vislumbrado no “outono da Idade Média”. No mesmo quartier uma rue des Parchemaniers diz muito sobre a economia do livro no coração da cidadela medieval.
Todavia, se parece evidente a presença do livro como um produto e, ao mesmo tempo, um propagador da cultura urbana que se desenvolve no espaço europeu a partir do século XIII, menos perceptível é a importância das cidades na organização de uma rede de trocas de manuscritos e de profissionais ligados à economia do livro. Nesse caso, vale a fórmula “cidades e rotas, rotas e cidades”[1] evocada por Fernand Braudel (1902-1985), à luz do mestre Lucien Febvre (1878-1956). Eis, em poucas palavras, a dupla vocação das cidades: de um lado, consolidam-se internamente como espaços dinâmicos, com suas feiras, seus corpos administrativos, suas igrejas, seus centros intelectuais (entre universidades, colégios, repúblicas e escolas laicas); de outro, comportam-se, para citar novamente o autor do Mediterrâneo, como colmeias. Nutrem-se do espaço; apoiam-se umas as outras em redes; organizam-se de forma hierárquica, de acordo com suas funções.
As Vias de Comunicação na Europa (s.XI-XIII).
R. Lopez, The Birth of Europe. Londres: J. M. Dent & Sons, 1966.

Se a dinâmica das cidades move e alimenta os circuitos do livro, parece certo que o esgotamento deste primeiro impulso econômico ocorre no interior das próprias engrenagens que o criou. As inovações técnicas inscritas nos séculos XIV e XV, primeiramente, o desenvolvimento dos moinhos de papel feitos a partir de trapos de tecidos e, finalmente, a invenção dos tipos móveis, [elas] surgem como resposta à impossibilidade de se atender à demanda crescente de livros. Estas inovações potencializam o papel das cidades e de suas rotas, consolidando, outrossim, o caráter movediço dos profissionais do livro. Donde a difusão rápida das oficinas tipográficas logo nas primeiras décadas de seu aparecimento.


 



[1] “Eu não intitulo este capítulo ‘Rotas e cidades’, mas ‘Cidades e rotas, rotas e cidades’, em memória de uma reflexão de Lucien Febvre na primeira leitura destas páginas”. Fernand Braudel, La Méditerranée et le monde méditerranéan à l’époque de Philippe II. Paris: Armand Colin, 1990, tome 1, note 1, p.505. [1ª. Edição: 1949].

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sobre Livros - Um Ateliê Muito Especial

Entre Livros e Amigos no Ateliê de Luiz Fernando Machado

Foto: Patrícia Póvoa - Ateliê Luiz Fernando Machado
Finalzinho de uma manhã ensolarada. Manhã de outono. Novo encontro com Luiz Fernando Machado, este mago que lava livros desgastados para o reconstituir, transforma papelões e bibelôs e mantém a aura nobre do ofício de encadernador. Tudo no seu ateliê tem harmonia a proporção. Se fosse grande demais, tornar-se-ia uma manufatura. Se pequeno, todos os papeis ali dispostos, arte pura!, perderiam seu charme.
No ateliê do Luiz Fernando Machado há alegria, até na concentrada linha de produção.
Vamos ao trabalho. O objetivo da visita é apresentar aos alunos de Editoração, aos que acabam de ingressar, os fundamentos da encadernação de um livro. Todos já conhecem a anatomia deste objeto nobre, cuja nomenclatura se confunde com a do próprio corpo humano. O ofício do encadernador, por sua vez, tem lá seu jargão. A parte teórica fora discutida em sala de aula. Agora, era a hora de vê-la em prática. A preparação do volume, se necessário, o arredondamento da lombada, a colagem da pasta, a preparação dos nervos, a fixação do couro - os processos finais são sempre tensos! - a fixação da coifa, do debrum, enfim, a aderência do couro nos menores meandros daquele corpo inerte, porém, muito melindroso. Tudo é detalhe. Tudo é engenho e arte. 
Foto: Patrícia Póvoa - Ateliê Luiz Fernando Machado

A gravação na lombada constitui a etapa final. Não menos delicada, ela exige atenção no momento de compor as palavras e firmeza no punho. Não há a possibilidade do erro. Tudo é medido, pensado e executado com precisão.
Ufa! Atividade bem sucedida.
Mais um tour pelo primeiro andar e descobrimos o processo de douração. Certo, os cortes dos livros não são mais ornamentos como outrora, cujo processo consistia, no caso da douração, em uma mistura de pó de ouro com clara de ovo. Há muito estamos na era das fitas plásticas. Uma vez aquecidas, elas tornam nobre o objeto (livro ou caderno). Pura magia!
Etapa seguinte. Mais um andar e agora o ambiente é ainda mais compacto. Mas ali o artista reencontra seu ofício e seu prazer. A marmorização de papeis, diz Luiz Fernando Machado, exige técnica e empenho pessoal. Corpo e alma se entregam nesta atividade extremamente fluida e precisa - como isto? - a qual consiste em escrever, tecer, desenhar sobre uma superfície líquida. O resultado? Um caleidoscópio de possibilidades sobre o papel. E uma gama ainda maior para seu emprego!
De volta ao rés-de-chão, ma non troppo. Difícil voltar às coisas banais do dia-a-dia no espaço dedicado à loja. Ali tudo parece milimetricamente arquitetado para seduzir o flaneur. Pura magia! Aliás, a flanerie no ateliê de Luiz Fernando Machado é atividade altamente recomendável - faça sol ou faça chuva! - para os amantes dos livros e dos papeis. E, sobretudo, para aqueles que ainda buscam alguma forma de prazer.
Foto: Patrícia Póvoa - Ateliê Luiz Fernando Machado

Ah, voltando ao trabalho. A tarefa foi bem executada. Os alunos já estão aptos a discorrer de forma muito tranquila sobre a anatomia do livro e os processos de enobrecimento (deste já nobre objeto) através da encadernação artística.



sábado, 6 de abril de 2013

Sobre Livros - A Kommunista Párt Kiáltványa por Frans Masereel


Livro e Arte em sua Expressão Absoluta

Dedico este artigo a István Monok que me presenteou com esta pequena jóia bibliográfica

Operário busca compreender a sua história e seu lugar na sociedade.
Gravura de Frans Masereel para a edição de A Kommunista Párt Kiáltványa
Raros são os estudos voltados para as edições do Manifesto Comunista, em uma perspectiva nacional ou internacional.
Nesse sentido, o levantamento de Bert Andreas, Le Manifeste Communiste de Marx et Engels: Histoire et Historiographie (1848-1918), publicado por Feltrinelli, em 1963 - edição rara, motivo de muita cobiça entre os marxistas, amantes do livro - mantém-se insuperável, a um só tempo como obra de referência e modelo de pesquisa sobre a temática. No Brasil, esforço semelhante de mapeamento e análise das condições de edição e difusão deste símbolo da classe trabalhadora, escrito por Marx e Engels, em 1848, foi realizado pelo historiador Edgard Carone, também ele bibliófilo e amante dos livros.
Página dupla com gravura e texto de
A Kommunista Párt Kiáltványa.
O levantamento de Bert Andreas se limita às edições publicadas nos contextos da Primeira Guerra e da Revolução Russa, pois se trata, com efeito, de conhecer o alcance do Manifesto desde suas origens até o momento de consolidação da luta do proletariado em 1917. Seria, contudo, interessante compreender em que medida a ação do PCUS, do Instituto Marx e Engels de Moscou e dos partidos comunistas organizados em todo o mundo concorreram para a multiplicação de edições do Manifesto. Dada a dificuldade de um catálogo internacional das edições deste documento que se tornou o vade mecum de todo comunista, as investigações adquiriram uma colocação nacional, tendo a organização dos PCs como ponto de partida. Pelo menos é nesse sentido que Edgard Carone organiza suas investigações sobre o que o autor considera como a “problemática da literatura operária”.
O volume de 7,3 x 11,3 cm
cabe na palma da mão.
Uma edição, contudo, torna-se notável, menos por sua circulação entre os leitores comunistas do que por seus atributos materiais. É verdade que a questão do público a que se destina esta edição importa muito, bastando considerar que se trata de um pequeno volume do Manifesto Comunista vertido para o húngaro, o qual era distribuído para as autoridades em visita ao país. Todavia, o livro fora impresso e encadernado na República Democrática Alemã, em 1973. O volume do qual nos ocupados data de 1975. Saltam as vistas os caracteres formais desta edição. A composição é elegante e a impressão bem cuidada. O volume apresenta encadernação em marroquim, com moldura em relevo e apenas uma linha dourada no lombo, o que não deixa dúvidas sobre o bom gosto e a delicadeza do projeto. O corte é tingido em vermelho apenas na cabeça do livro. O papel é apergaminhado, com vergaturas que lhe dão um aspecto rústico. O conjunto se torna ainda mais harmonioso com o emprego de uma guarda estampada com manuscrito vazado em fundo vermelho. Enfim, todos os caracteres convidam à sofisticação deste volume.
Mas o que dignifica a presente edição de A Kommunista Párt Kiáltványa são as gravuras que ilustram o texto. Dizer ilustrar é muito pouco para o trabalho deste grande mestre da narrativa que foi Frans Masereel (1889-1972). Pode-se mesmo dizer que as xilogravuras que acompanham o texto contam por si a luta da classe operária.
"A modern államhatalom nem más, mint az egész burzsoá osztály kösös ügyeit igazgató bizottság". 
Frans Masereel nasceu em Gand, cidade belga, voltada para o mar. Jovem, beneficiou-se das condições confortáveis oferecidas pelo ambiente burguês ao qual pertencia para se dedicar aos estudos das Belas Artes nas principais instituições europeias. Ingressou na Academia de Gand aos 18 anos e continuou sua formação em Paris e em Londres. A Primeira Guerra certamente significou um momento de ruptura e definição dos caminhos trilhados pelo artista. Die Passion Eines Menschen25 Holzschnitte, chef d’oeuvre de Frans Maserrel publicado em Munique, em 1918, marcou data na história da gravura. Thomas Mann se lembraria do livro dez anos mais tarde como a obra que mais o impressionara. As 25 Imagens da Paixão de um Homem fazem emergir a vida de um operário, do nascimento até os momentos finais da vida. “Paixão”, nesse sentido, é usado com todo o peso que a tradição cristã lhe conferiu: o sofrimento, a dor, as chagas de Cristo, neste contexto, mimetizam-se no sofrimento, na dor e nas chagas do operário. As marcas da Guerra e da sociedade industrial se definem nas grossas linhas negras do artista.
Essas mesmas linhas e a mesma temática do operariado serão retomadas na edição de A Kommunista Párt Kiáltványa. Onze gravuras acompanham o texto, dialogam com o texto, acentuam seu caráter dramático e, se isoladas, contam elas mesmas de forma heróica a luta da classe operária contra a burguesia. Notemos ainda que os traços, os gestos e a massa de edifícios, chaminés, multidões, enfim, todos os elementos que compõem o ambiente dos trabalhadores representados nas gravuras desta edição de 1973 dialogam diretamente com aquelas cenas marcantes gravadas no livro fundador, de 1918. Seria o caso de se perguntar se algumas matrizes daquela época não foram aproveitadas para o Manifesto, tal a aproximação das temáticas e as semelhanças do herói da narrativa. Ou, de forma oposta, se o livro composto na época da Guerra, se as Imagens da Paixão de um Homem não revelam a tomada de consciência de um burguês frente à débâcle dos valores de sua sociedade. Não teria ele se alimentado das mesmas leituras de crítica social, senão, das matrizes marxistas que movimentaram o mundo em 1917? As 25 gravuras da “paixão” não teriam sido o testemunho da consciência tomada a partir da leitura do Manifesto? As mesmas gravuras que agora enriquecem esta bela edição, sob a forma de um delicado missal, impresso em húngaro?
"Világ proletárjai, egyesüljetek!"
Deixemos as imagens contarem por si a saga do operariado no negrume impresso pelo artista. Por Frans Masereel, o mestre da expressão absoluta.

Fonte: Peter A. Beronä. Introd. Peter Kuper. Le Roman Graphique. Des Origines Aux Années 1950. Paris: La Martinière, 2009.
Karl Marx; Friedrich Engels. A Kommunista Párt Kiáltványa. Berlin: Dietz Verlag, 1975.