Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

domingo, 8 de novembro de 2015

Leitura e Reforma na Grande Planície Húngara

"Orando et Laborando" em Debrecen

Fachada do colégio calvinista de Debrecen, por Marisa Midori Deaecto
A expansão da Reforma em direção ao leste europeu levou consigo a fé, a palavra e a imprensa. "Ora et Labora" conformou-se como preceito da vida monástica fundada por S. Bento da Núrsia, no século VI. Para além do seu significado profundo no interior dos mosteiros que se espalharam por todo o velho continente, atingindo áreas longíquas, no novo milênio, por obra dos cistercienses que lograram fundar suas ordens na Europa oriental, a parte dedicada à leitura e à cópia de textos sagrados na vida monástica contribuiu para a preservação e manutenção de textos antigos, além de conformar bibliotecas que constituem até os dias atuais verdadeiros tesouros da cristandade. 
"Orando e laborando" se apresenta, curiosamente, como um guia de conduta do colégio reformado de Debrecen, uma bela cidade intelectual situada na grande planície húngara, já nos limites da Transilvânia. A divisa diz muito do que se vê no interior do belo edifício que até os dias atuais se mantém como um importante centro de formação teológica.
Museu do Colégio: Sala de aula,
Fotografia de Marisa Midori Deaecto
Na sala de exposições do colégio, objetos de ensino das ciências, cartilhas e um reprodução da sala de aula destinada às crianças retrata em imagens e objetivos o sentido da "educação pela palavra", tal como fora defendida por Lutero (1483-1546) e difundada por seu braço direito, o erudito helenista Melanchton (1497-1560), cuja presença nos novos colégios e seminários cultivados na bacia dos cárpatos já foi discutida em muitos estudos. 
A "educação pela palavra", como bem observa Frédéric Barbier valorizava a leitura da Bíblia para a proteção dos pequenos contra todos os males, mas também buscava integrar os indivíduos em uma sociedade que se tornava cada vez mais letrada. Ou, pelo menos, alfabetizada. Donde a tradução da Bíblia de Lutero nas línguas faladas (e lidas) nessa intricada geografia que se estende para além do Danúbio (vale sublinhar, o limes recto) e a edição de materiais pedagógicos, dentre outros textos eruditos reputados importantes para a formação das gentes. 
Interior da bela biblioteca, Fotografia de Frédéric Barbier
Em Debrecen, todavia, domina a palavra de Calvino (1509-1564). Em sua coleção os textos dos teólogos suíços superam de longe os dos teólogos de Heidelberg, visitados nos colégios luteranos, da mesma maneira que aos escritos de Melanchton é dedicado um espaço bem pequeno. Como observa István Monok, sem dúvida o maior especialista no assunto, "a vida dos estudantes de Debrecen se desenvolve em conformidade com o espírito do calvinismo de Genebra e este estabelecimento de ensino superior de alta qualidade pode se vangloriar dos bons resultados obtidos por seus alunos, pelo menos no que toca suas inserções nas universidades europeias". Essas viagens, conta o autor, serão, além de fermento para a formação individual, um caminho certo para o abastecimento da sua rica biblioteca, como pudemos observar durante nossa visita. 
Para saber mais: István Monok, Les Bibliothèques et la Lecture dans le Bassin des Carpates. Paris: Honoré Champion, 2011; Frédéric Barbier, Histoire des Bibliothèques. D'Alexandrie aux Bibliothèques Virtuelles. Paris: Armand Colin, 2013.

domingo, 1 de novembro de 2015

Pensar as Bibliotecas do Passado Olhando Para o Futuro

Seminário Internacional 

"Listas, Catálogos e Inventários de Bibliotecas (XIV-XXI)"

Conferencistas reunidas em uma das seções de trabalho. Alba Iulia, Universidade 1 de Dezembro, em 31 de outubro de 2015
"În perioada 30-31 octombrie 2015, Facultatea de Istorie şi Filologie vă invită la Conferinţa naţională “Bibliologie şi patrimoniu cultural naţional. Cartea românească veche în Imperiul Habsburgic (1691-1830)”, Ediţia a IX-a, Alba Iulia, 30-31 Octombrie 2015. Conferinţa este organizată în cadrul Proiectului "Cartea românească veche în Imperiul Habsburgic (1691-1830). Recuperarea unei identităţi culturale”. Deschiderea oficială a lucrărilor conferinţei va avea loc vineri, 30 octombrie 2015, ora 10.00, în Aula mică (Corp C, etajul 1). Conferinţa se va bucura și de participarea unor invitaţi speciali, istorici ai cărţii şi tiparului, reprezentând instituţii cu tradiţie în domeniu din străinătate: École des Hautes Etudes Pratiques (Franţa), Biblioteca Naţională Universitară din Strasbourg (Franţa), Biblioteca Academiei din Budapesta (Ungaria), Universitatea din Eger (Ungaria), Biblioteca Naţională Centrală din Roma (Italia), Universitatea din Sao Paolo (Brazilia)".

Há pouco menos de um ano o Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE-USP) organizou um encontro memorável, destinado a recuperar, aproximar e refletir sobre as coleções brasilianas. Ao aproximar conservadores de bibliotecas do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Brasília, Bahia e Estados Unidos, o simpósio internacional "Brasiliana, Brasilianas" rendia homenagem ao nosso maior bibliográfico, Rubens Borba de Moraes (http://bibliomania-divercidades.blogspot.hu/2014/11/i-jornada-rubens-borba-de-moraes.html ).
Não se tratava apenas de um encontro festivo. Era preciso refletir sobre os avanços realizados no campo da catalogação e da bibliografia e pensar além. Olhar o futuro tirando do presente as ferramentas disponíveis para a multiplicação de brasilianas. As tecnologias atuais no campo da digitalização e o potencial das redes de difusão e acesso aos materiais bibliográficos têm se aprimorado de forma rápida. É preciso perguntar em que medida historiadores e conservadores de bibliotecas têm se articulado para aprimorar, de forma interdisciplinar, ou seja, combinando os recursos da bibliografias material com aqueles da história do livro e da sociologia da leitura, com vistas a multiplicar as brasilianas existentes. Nossos catálogos conformam bases suficientemente completas e exautivas que nos permita somar, comparar e trocar informações e conteúdos sobre títulos, edições, editores, tipógrafos, autores, temáticas, enfim, todos os elementos que nos permitem conhecer o processo de conservação, mas também de apropriação de grandes coleções internacionais, notadamente as brasilianas? 
Escusado dizer que bibliotecas se tornaram algo mais do que depósitos de livros. Na verdade, seu caráter multifuncional sempre existiu. O primeiro grande modelo de biblioteca, o de Alexandria, vale lembrar, confundia-se com o modelo de colégios e seminários, ou república de sábios, tal como estas instituições vêm se desenvolvendo desde a antiguidade. Quando os livros podem ser alcançados pela internet, o que podemos esperar das bibliotecas? Acolhimento, conhecimento, contato real com edições que nos permitam preservar e valorizar nosso patrimônio. Repúblicas de sábios, talvez. Mas, certamente, repositório da memória cultural e patrimônio material. E, nesse ponto, os encontros entre os vários saberes, num só termo, a interdisciplinaridade, torna-se um ponto crucial. Da mesma forma que as redes de contatos, as trocas de dados, de arquivos de edições digitalizadas e de saberes têm se tornado cada vez mais imprescindíveis. As "Brasilianas" estão dispersas no mundo, é preciso manter o trabalho de Rubens Borba de Moraes e aprimorá-lo. Diria, potencializá-lo.
Nesse ponto, a jornada de trabalho que acaba de reunir especialistas europeus (do leste e do oeste) e de outras partes do mundo, apresentou-se como modelo de diálogo interdisciplinar e internacional. Edições espanholas e potuguesas puderam ser descobertas em bibliotecas da Transilvânia, com atenção particular para as edições hispânicas conservadas pela Biblioteca Telekiana, em Tirgu Mûres. A coleção da prestigiosa Biblioteca Nacional e Universitária de Strasburgo não guarda apenas livros preciosos, mas tem arquivos representativos dos diálogos entre aquela porção oriental da França, às margens do Reno e o Brasil (ver programa http://www.uab.ro)
Difícil detalhar todas as contribuições nos limites dessa notícia.
Talvez a melhor imagem tenha vindo de um ilustre conferencista húngaro: um viajante turco se instala em Budapeste no século XIX, corre o mundo e traz gratas lembranças de sua passagem pelo Rio de Janeiro. Tudo isso foi narrado em húngaro. Como conhecer a prestigiosa aventura? Os diálogos dos livros foram, antes de tudo, diálogos entre os homens.
À Dra. Eva Mãrza, diretora do instituto de História e Filologia da Universiade 1 de Dezembro, à Dra. Doina Biro, diretora da Biblioteca Bathyaneum e às autoridades de Alba Iulia (Transilvânia-Romênia) que nos acolheram nesses útimos dias, nossas felicitações e profundo agradecimento por esta inesquecível viagem. Aos professores Frédéric Barbier e István Monok, que pensaram em tudo e aos meus compagnons de route, aquele abraço!

domingo, 25 de outubro de 2015

Listar, Classificar, Organizar, Sistematizar... Eis algumas questões que não podem escapar ao historiador

Seminário "Listas, Inventários e Catálogos" abre novas perspectivas para a pesquisa histórica...


A biblioteca Batthyaneum apresenta uma fachada austera, que em nada revela a monumentalidade de seu interior. Antiga igreja católica de arquitetura sóbria e dimensões imodestas, adaptada para comportar um observatório astronômico, uma singular coleção de objetos (mapas, moedas, tábuas escritas, peças de cavalaria etc.) e uma notável biblioteca. A instituição foi instalada no final do século XVIII, no coração de Alba-Iulia/Karlsburg/Gyulafehérvár, esta cidade antiga, capital da Dácia Romana (Apulensis), que remonta ao segundo século de nossa era.

* * *

Ignatius Sallestius de Batthyan (1741-1798) fundou aquele que seria o bastião da cultura ilustrada de Alba Iulia, senão, de toda a Transilvânia. É bem verdade que a região parece bem provida de templos e livros que nos convidam a adentrar em tempos diversos de sua conturbada história. Em todo caso, a Batthyaneum, fundada em 1792, ostenta uma realidade bibliográfica e documental digna de nota: mais de 71.500 livros (entre manuscritos, mais de 600 incunábulos, além de raridades impressas após 1500). Desde 1961 ela é filiada à Biblioteca Nacional da Romênia.
Sobre seu patrono, Ignatius Saletius, conde de Batthyàn, algumas palavras:
Iniciou os estudos no Colégio Piarista de Pest para logo em seguida frequentar diversos outros centros europeus: Universidade dos Jesuítas Trnovo/Nagyszombat, no Seminário de Esztergom e na Universidade dos Jesuítas de Graz.
Ordenou-se em Roma, onde cumpriu os estudos no Collegium Germanicum et Hungaricum, em 1763. Daí em diante, seguiu uma carreira político-religiosa meteórica nos tempos do Imperador José II (1765-1790). Vivendo sob os ventos revolucionários que abalaram o Velho Mundo e as casas reais de oeste a leste, o então bispo da Transilvânia se envolveu em pelo menos três questões espinhosas que tocavam os interesses da Áustria, da Hungria: defendeu, em 1781, o polêmico Edito de Tolerância, que observava o exercício da fé de religiões não católicas; desempenhou participação importante na defesa dos padres católicos durante as revoltas camponesas de 1785-1785 na Transilvânia; foi protagonista do movimento de reforma do ensino, imposta pelo Estado, em 1776, após a expulsão dos jesuítas, por meio da Ratio Educationis.
Por esse breve resumo não é difícil imaginar a Batthyaneum como fruto dos anseios e contradições de um nobre religioso, partidário da Aufklärung. A própria biblioteca se instalara no contexto de dissolução das ordens religiosas, vindo a ocupar a igreja do convento dos Trinitários, com a finalidade de ali se instalar uma biblioteca pública e uma academia nos moldes clássicos, tão em voga naqueles tempos. O resultado não poderia ser mais eloquente. A fachada discreta da igreja, em contraste com uma Praça Forte de dimensões colossais, dissimula um projeto sofisticado que ocupa toda a porção superior da nave do edifício, donde observamos, estupefatos, dois andares repletos de livros, que preenchem belas estantes decoradas com alegorias greco-latinas.
Vale notar que a biblioteca, ela mesma, do ponto de vista espacial, conservou-se praticamente sem modificações, desde o início do século XIX. O quadro sistemático de classificação e os livros não se moveram, as prateleiras pintadas de cinza se alinham desde sempre ao longo da sala, da mesma forma que se tem acesso a um segundo nível sob a forma de um mezanino.
Difícil descrever o acervo bibliográfico desse templo impetuoso. Uma tarde foi muito pouco para observar em detalhe os livros selecionados pela bibliotecária diligente que nos acolheu. Ao todo oito manuscritos sobre pergaminho, três raridades impressas na era pós-Gutenberg, ex-libris de notáveis e outros objetos não menos impressionantes, dentre eles, tabuletas com escritura cuneiforme gravadas em terracota, placas impressas sobre vidro do célebre Códex Aureus e algumas peças de cavalaria datadas dos séculos XVI e XVII. Não houve oportunidade para se conhecer os documentos conservados neste acervo, na maior parte reveladores da vida e obra de seu patrono.

Para saber mais: http://www.bibnat.ro/Codex-Aureus-s109-expo1-ro.htm


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Por um Dicionário dos Agentes do Livro

Dictionnaires et répertoires des gens du livre,
en Europe et dans le monde.
Expériences et perspectives

Journée d’études internationale
23 octobre 2015
Bibliothèque de l’Arsenal (1 rue de Sully, Paris 4e)

Programme

Matin (9h-12h30)
Regards croisés sur quelques entreprises éditoriales. Bilans et expériences

Présidence : Patricia Sorel
-        9h15 Pascal Fouché : le Dictionnaire encyclopédique du livre (2002-2011)
-        9h35 Mario Infelise (Université de Venise) : Editori Italiani dell’Ottocento. Repertorio (2004)
-        9h55 Sabine Juratic : le Dictionnaire des imprimeurs, libraires et gens du livre à Paris, 1701-1789

Pause

Présidence : Jean-Yves Mollier
-        10h55 Ian Maxted : le Dictionnaire des imprimeurs, libraires et gens du livre en Basse-Normandie, 1701-1789 (en cours d’achèvement) ; le répertoire des métiers du livre du comté de Devon ; le London Book Trade 1775-1800
-        11h15 Jean-Dominique Mellot et Nathalie Aguirre : l’entreprise du Répertoire d’imprimeurs/libraires (vers 1470-vers 1830) de la BnF : étapes et connexions
-        11h35 Josée Vincent (Université de Sherbrooke) : le « Dictionnaire historique des métiers du livre au Québec et au Canada français »

Discussion

Après-midi (14h-18h)
Recenser les gens du livre. Outils, projets, besoins (tables rondes)

Table ronde 1. Espaces francophones (14h-15h30)
Animation : JC Geslot
-        Jean-Charles Geslot, Viera Rebolledo-Dhuin (UVSQ) : le projet DEF19
-        Kmar Bendana (Institut Supérieur du Mouvement National, Université de La Manouba) : la Tunisie
-        François Vallotton (Faculté des Lettres de l’Université de Lausanne) : la Suisse
Pause
Table ronde 2. Espaces non-francophones (16h)
Animation : Jean-Dominique Mellot
-        Jean-François Botrel : l’Espagne
-        Frédéric Barbier : l’aire germanique
-        Wallace Kirsop (Monash University, Melbourne) : l’Australie et l’Océanie

-       Marisa Midori (Université de Saõ Paulo) : Les gens du livre au Brésil : outils, approches et perspectives de recherche

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Nos rastros de Giambattista Bodoni

Nesta próxima quinta-feira, dia 22 de outubro de 2015, Andrea de Pasquale, diretor geral da Biblioteca nacional da Itália (Roma) defenderá tese intulada "Jean-Baptiste Bodoni, imprimeur de l'Europe", pela École Pratique des Hautes Études. O trabalho fi dirigido pelo professor Frédéric Barbier traz uma fortuna documental totalmente inédita, fruto de pesquisas realizadas durante sua vida profissional, como diretor das Bibliotecas de Parma e de Milão, cujos acervos são ricos em peças bodonianas (edições, correspondências e, no caso de Parma, toda a herança da prestigiosa tipografia que rendeu à Bodoni fama internacional).
A Europa de Bodoni constitui um tema rico, na medida em que não estamos a tratar puramente de um conjunto geográfico, mas político. Portanto, trata-se de reconstituir uma geopolítica cujas fronteiras móveis eram demarcadas pelas investidas de Napoleão Bonaparte. Nesse concerto geopolítico complexo, em que a aristocracia busca novos espaços, tendo sido refreada pela Revolução e revoluções europeias, Bodoni faz seu nome e sua fama, como o tipógrafo-editor que tinha nessas velhas classes endinheiradas, ma non troppo e no clero sua principal clientela.

O juri será composto pelos professores e professoras


Frédéric Barbier, EPHE, França, Itália
Lodovica Braida, Universidade de Milão
Pedro Cátedra, Universidade de Salamanca, Espanha
Marisa Midori Deaecto, Universidade de São Paulo
Jean-Michel Leniaud, EPHE e Director da École de Chartes, França
István Monok, Universidade de Szeged, Hungria

Local

École nationale des chartes
65 rue de Richelieu 
75002 Paris 
Salle Léopold Delisle (rez-de-chaussée)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Impressões Paulistanas...

Bandeirianamente

Matriz da Sé e Fachada da Livraria e Papelaria de A. Louis Garraux. São Paulo, 1862, por Militão Augusto de Azevedo
O tempo passa ligeiro e os assuntos escorrem pelas páginas. Escrever sobre livros é tarefa sem fim.
Houve um tempo em que as livrarias ficavam nas ruas e o transeunte, por mais absorvido que estivesse em seus pensamentos, via-se impelido a entrar. Uma Estrela da Manhã com as folhas amareladas no fundo do corredor já era sinal de dia ganho.
Muitas bibliotecas particulares se formam, assim, bandeirianamente, nos interlúdios de caminhadas descompromissadas. A paisagem se torna ainda mais poética, quando as livrarias e sebos percorridos se distribuem nos desvãos de uma cidade empoeirada e invernal, como a São Paulo de outros tempos. Percorrer os olhos pelas estantes é viajar no tempo, nas tardes frias e escuras de julho, quando se caminhava sem pressa...
Na 15 de Novembro, a fachada de uma Garraux reinventada nas páginas de uma pesquisa acadêmica; na São Bento, um sebo de acesso difícil, por entre os andares de um edifício robusto; na rua São Francisco, toda a literatura da Academia Paulista de Letras, a Paulística, a Biblioteca Histórica Paulista, a Documentos Brasileiros, primeiras edições nem sempre bem cuidadas, mas sem dúvida cobiçadas, que saíam silenciosas em uma sacolinha de plástico, sob as recomendações de um vendedor sisudo e de bom coração; na Pça. João Mendes os sebos foram sempre em maior número. Tantos que não cabiam no espaço da tarde.
Os livros perdidos compõem um capítulo importante na memória dos sebos e livrarias da cidade. Uma primeira edição de Marx, sorrateira, deixou o gosto amargo do livro que se perdeu. A Cidade das Letras estava lá, por que, então, demorou tanto para ser vista? A viagem ao Reno que nunca se completou. As primeiras edições que não se realizaram. E os franceses, com suas edições encadernadas, suas folhas de rosto impressas em tipografia elegante, suas composições austeras e impecáveis, papeis de boa qualidade, volumes que perfaziam bem os ideais de uma Revolução universal que jamais se efetivou. Mas que se acreditava possível, embora distante. O historiador não tem pressa!
Haveria muito a se contar sobre os volumes escondidos, embaralhados, misturados. Quanta tensão, afinal, não se depositou nas estantes de um sebo movimentado do velho centro?
Finda a jornada. Ao atravessar a Pça. Clóvis, caminho certo para um bom café paulistano no Páteo do Colégio, impossível não se rir dos vinte e cinco cruzeiros e do retrato.
Já se disse nesta coluna que os livros são a memória do mundo. Das civilizações. No tempo dos homens, os livros constituem parte de sua memória e de sua história. Como ensina um grande bibliófilo, o livro que depositamos em nossas estantes se tornam indivíduos com suas qualidades e defeitos. Eles são únicos, porque guardam, além de tudo, uma história que é só nossa.

“Obrigado, Mario, pela tua companhia”.